O Brasil de costas para a América do Sul – Por Felipe Bianchi e Thiago Cassis

nacional

Se perguntarmos para qualquer brasileiro que seja torcedor de um clube da série A ou apenas apaixonado por futebol: “Qual o torneio mais importante do continente?” ou “qual torneio você queria muito ver seu time ganhando?”, é quase certo que escutaríamos “Libertadores” [da América] como resposta.

Torcedores de equipes que já disputaram a taça continental com certeza se lembram de grandes embates envolvendo seus clubes de coração. Tristes derrotas ou triunfos históricos.

Então porque a Rede Globo nunca transmite a final do torneio quando não tem um brasileiro? Não exibe nem as semifinais quando está se decidindo o adversário de um brasileiro na final. Mas a final da Champions League, ou Copa dos Campeões como chamava até algum tempo atrás, sempre esteve presente na “telinha” da emissora carioca.

Alguns podem dizer que o contrato com os europeus obriga a transmissão. Então aí o erro também seria da Conmebol que não estaria sabendo vender seu maior “produto”, a Libertadores da América.

Outra argumentação poderia apontar para o fato de que o Ibope para uma final “improvável” como a desse ano, Atlético Nacional (Colômbia) x Independente Del Vale (Equador) seria muito baixo em comparação com o clássico de Madrid, Real x Atlético, partida que definiu o campeão europeu desse ano. Para esses podemos dizer que se não existir a cultura de mostrar a Libertadores, nunca será formado um público para esse torneio. Além disso o Ibope não pode ser o único critério de uma concessão pública. Valores como a integração continental devem ser colocados na mesa. E é certo que algo assim só viria por meio de uma espécie de regulação, nunca por vontade própria de uma empresa que só visa o lucro, e não podemos depender de uma “visão diferente” dentro capitalismo para que aprofundemos os laços culturais com os outros países do continente através também do futebol.

Mesmo se a final da Libertadores fosse River Plate x Peñarol, dois times de maior tradição, não veríamos na TV aberta do Brasil.

Por último, o argumento de que grandes craques, inclusive sul-americanos estão no futebol europeu e de que por isso seria melhor assistir aos jogos do velho continente também não pode ser justificativa, pois nos tempos atuais do futebol, maior tempo de exposição na TV significa mais dinheiro para os clubes, sendo assim, apenas com mais transmissões os clubes sul-americanos se estruturariam melhor para mantermos nossos craques por aqui. O público brasileiro não pode ser excluído das decisões do torneio mais importante de nosso continente quando um clube do país não estiver na final.

Alto alcance da publicação da página "Jogo 10 da noite, NÃO", feita na noite em que a Globo tirou a final da Libertadores dos brasileiros, demonstra a insatisfação dos torcedores do Brasil

Alto alcance da publicação da página “Jogo 10 da noite, NÃO”, feita na noite em que a Globo tirou a final da Libertadores dos brasileiros, demonstra a insatisfação dos torcedores do Brasil

O futebol enlatado

Gosto é gosto, apesar de podermos discuti-lo. Mas para além das preferências de cada um sobre o espetáculo vistoso da finalíssima europeia ou os duelos rústicos e atávicos do certame sulamericano, a forma como a Globo trata o futebol é o que gera indignação no torcedor.

Em São Paulo, por exemplo, além de sequer noticiar o que ocorria na decisão da Libertadores, a Globo optou por passar um filme hollywoodyano ao invés do confronto entre Gama e Santos, em Brasília, pela Copa do Brasil. Seria o futebol apenas um produto que compete, por exemplo, com o cinema comercial?

A resposta, para a emissora que monopoliza os direitos de transmissão do futebol nacional, é sim. No caso da Libertadores, é verdade, esses direitos pertencem à Fox Sports, que os cedem mediante negociação. Mas a Globo também não detém os direitos da Champions League, e transmite a partir da fase que a interessa.

Claro que na visão de mercado é muito mais interessante mostrar craques do quilate de Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi e Gareth Bale desfilando suas imagens multimilionárias pelos gramados perfeitos do velho continente. Mas é bom lembrar: a Globo o faz utilizando uma concessão pública. Sem contrapartida alguma, a emissora dá mostras cada vez mais sólidas de que o futebol, mais um produto em sua prateleira, só lhe serve se e quando for conveniente. Aos torcedores e apaixonados, resta a TV paga.

“Together Stronger (C’mon Wales)”

A banda Manic Street Preachers, durante a gravação do clipe ao lado dos atletas da seleção do País de Gales

A banda Manic Street Preachers, durante a gravação do clipe ao lado dos atletas da seleção do País de Gales

Hoje (06 de julho) a seleção do País de Gales pode fazer história e alcançar a grande decisão da Eurocopa. Basta para isso derrotar a seleção portuguesa de Cristiano Ronaldo, que ainda não perdeu, mas também não venceu nenhuma partida no tempo normal da competição.

Os galeses não participavam de um campeonato com essa importância desde o Mundial de 1958, disputado na Suécia, onde foram eliminados justamente pela seleção brasileira, perdendo por 1 a 0. O detalhe é que esse foi o primeiro gol na história das Copas marcado pelo então garoto, com 17 anos, Pelé.

A banda do País de Gales, Manic Street Preachers, que atingiu grande popularidade no Reino Unido durante os anos 90, no auge do “britpop”, compôs uma música para apoiar o selecionado do país na Euro desse ano. A banda, que já se apresentou em Cuba em 2001, com presença de Fidel Castro, contou com a presença dos jogares da seleção no clipe e a letra conta um pouco de todas as derrotas galesas no futebol de 1958 (a derrota frente ao Brasil), até a conquista da vaga para o torneio continental desse ano.

Confira o clipe da música “Together Stronger (C’mon Wales)”:

Atlanta de Villa Crespo

O bairro de Villa Crespo pintado com as cores do Club Atlético Atlanta - Foto: Thiago Cassis

O bairro de Villa Crespo pintado com as cores do Club Atlético Atlanta – Foto: Thiago Cassis

O Clube Atlético Atlanta foi fundado em 1904, e começou a disputar os campeonatos de futebol em 1906.

Depois de uma longa andança atrás de uma sede fixa, o que valeu ao clube apelido de “bohemios”, por acordar cada dia em um lugar, o Atlanta acabou criando raízes em Villa Crespo. Bairro conhecido por ser o, ou “um dos”, berços do tango, e por abrigar grande parte dos judeus que chegavam à Argentina, provenientes, principalmente, do leste europeu. Por isso também é chamado de “Villa Kreplaj”, em alusão ao prato da culinária asquenaze, que se assemelha ao ravióli italiano.

No período amador do futebol argentino, que durou até 1930, o Atlanta disputou sempre a primeira divisão, chegando a ficar em quarto lugar em 1920. Já no profissionalismo, a equipe repetiu o quarto lugar em 1958 e 1961, porém não disputa a primeira divisão desde 1984. Em 1969 chegou ao vice-campeonato da Copa Argentina, sendo derrotado pelo Boca Juniors na final.

A sede do clube de Buenos Aires na rua Humboldt, 540 (Foto: Thiago Cassis)

A sede do clube de Buenos Aires na rua Humboldt, 540 (Foto: Thiago Cassis)

Após a queda de Perón, o clube passou a ser perseguido pelas autoridades por suas fortes ligações com o justicialismo. Em 1955 o clube teve seu estádio fechado por más condições de manutenção, e segundo dirigentes e torcedores mais antigos do clube, outras equipes com condições semelhantes em suas canchas não sofreram a mesma punição.

O fato do clube estar sediado em um bairro de origem judaica também pode ter sido um dos motivos da perseguição, no mesmo período em que teve seu estádio interditado, eram distribuídos por Buenos Aires panfletos anti semitas por parte de grupos católicos nacionalistas de direita.

Atlanta e seu grande rival Chacarita Jrs. na mesa de pebolim do Café San Bernardo, Av. Corrientes 5436. (Foto: Thiago Cassis)

Atlanta e seu grande rival Chacarita Jrs. na mesa de pebolim do Café San Bernardo, Av. Corrientes 5436. (Foto: Thiago Cassis)

Depois da reforma, o estádio teve permissão para ser reaberto, mas o fechamento reacendeu um antigo sonho do Atlanta, ter um novo e maior estádio. Então em 1956, animado pelo retorno à Primeira Divisão, depois de quatro anos na segunda, o projeto do estádio é retomado. Em 1960 inauguram seu estádio.

Um dos grandes responsáveis pela construção do novo estádio e da nova sede, León Kolbovsky, presidiu o clube durante os principais anos do Atlanta, no final dos anos 50 e durante a década de 60. O presidente, membro da colônia judaica de Villa Crespo, era também um famoso militante comunista da capital argentina.

Partida entre Atlanta e Barracas Central pelo Campeonato Argentino da B Metropolina (Clausura 2016) no Estádio Don León Kolbowsky. Foto: Thiago Cassis

Partida entre Atlanta e Barracas Central pelo Campeonato Argentino da B Metropolina (Clausura 2016) no Estádio Don León Kolbowsky. Foto: Thiago Cassis

Hoje a equipe está na Primeira B Metropolitana, algo como a Série C no Brasil e o estádio hoje em dia se chama Don León Kolbovsky, em homenagem ao lendário presidente comunista do clube.

O Atlanta pelos muros de Vila Crespo

O Atlanta pelos muros de Vila Crespo (Foto: Thiago Cassis)

Andando pelas ruas de “Villa Kreplaj” é perceptível o quanto bairro veste as cores do clube. O que se repete em outros bairros de Buenos Aires, como Boedo com o San Lorenzo ou o Mataderos com o Nueva Chicago. Porque isso não acontece da mesma forma em São Paulo (apenas o Juventus, na Moóca, manteve essa relação com seu bairro de origem) é algo que pensei muito enquanto me deparava com os muros azuis e amarelos de Villa Crespo, mas isso é tema para outro texto.

Para saber mais sobre a história do bairro e do clube, "Los Bohemios de Villa Crespo" é uma ótima dica!

Para saber mais sobre a história do bairro e do clube, “Los Bohemios de Villa Crespo” é uma ótima dica!

E a Eurocopa conheceu a Islândia!

iceland

Nem só de Bjork, bons músicos, gêiseres e Aurora Boreal vive a Islândia.

Halldórsson, Sigurdsson, Sævarsson, Skúlason, Bjarnason, Árnason, Gunnarsson , Gudmundsson, Sigurdsson, Sigthórsson, Bödvarsson e o autor do gol da vitória, Traustason, que entrou no segundo tempo, foram a campo nesta quarta-feira (22) na cidade de Paris dispostos a fazer história.

Representando uma seleção com pouca tradição no futebol internacional, que disputa seu primeiro torneio importante (Copa do Mundo ou Eurocopa) e organizado pela Federação Islandesa de Futebol (KSI nas iniciais em islandês) fundada apenas em 1947, a equipe se classificou em segundo lugar do seu grupo nas eliminatórias, escapando da repescagem e deixando a poderosa Holanda pelo caminho.

Na Eurocopa de 2016, que está sendo disputada na França, a equipe teve a companhia de Portugal, Hungria e Áustria no grupo F. Empatou com a seleção de Cristiano Ronaldo na estreia. Novo empate contra a Hungria, quando estava ganhando e tomou o gol que igualou o marcador já no final da partida, e enfim, sua primeira vitória na história da competição, 2 a 1 sobre a Áustria e a tão sonhada vaga nas oitavas de final.

Difícil para nós brasileiros, que temos 5 estrelas na camisa, entendermos o tamanho da emoção pela conquista do resultado, o gol suado no final do jogo, o lugar na fase final, onde encontrará a tradicional Inglaterra, e para falar de rivalidade local, a única seleção escandinava a alcançar as oitavas na Eurocopa desse ano.

Mas fica fácil entender o tamanho do feito ao escutar a narração completamente emocionada do gol da primeira vitória e garantia da vaga nas oitavas através do narrador da TV islandesa, é impressionante!

Foi uma vitória e tanto para a história do futebol islandês. E a celebração com os islandeses que invadiram a França para assistir ao torneio não poderia ser diferente, no final da partida jogadores e torcedores bateram palmas de forma ritmada em um espetáculo de encher os olhos. (confira na imagem de destaque)

A Islândia vai em frente. Se não sobra habilidade, tem raça, força e disciplina tática o bastante para sonhar em passar pela, até aqui, inconstante Inglaterra.

E já que falamos de bons músicos da Islândia, fechamos com um clipe que une futebol, música e a luta contra a homofobia!

Sigur Rós…

 

A nova ordem do futebol

imagem destaque

A Copa América é a mais antiga competição entre seleções do mundo, iniciada com um torneio disputado entre Argentina, Brasil, Chile e Uruguai em 1916, celebrando o centenário da independência argentina. E para comemorar o centenário dessa tradicional competição, decidiram levá-la para fora da América do Sul pela primeira vez. O torneio “comemorativo” de 2016 será (está sendo) disputado no(s) Estados Unidos.

Não demorou para as criticas aparecerem. E os uruguaios pareceram os mais indignados.

O treinador do uruguaio, Óscar Tabárez, ainda antes do início da Copa América fez críticas a organização da competição, sobretudo as longas distâncias que os atletas precisam viajar dentro do território norte-americano, entre as partidas. O presidente da AUF (Asociación Uruguaya de Fútbol), Wilmar Valdez, afirma que foi um erro da parte da CONMEBOL (portanto da sua parte também) permitir que a Copa fosse nos Estados Unidos, e que este torneio está “armado para o México”.

A declaração do dirigente veio logo após a derrota de sua seleção para os mexicanos, após uma arbitragem no mínimo “polêmica” a favor dos mexicanos. E além da arbitragem, nem o hino da seleção uruguaia foi executado corretamente, acredite se quiser, mas os norte-americanos da organização do torneio tocaram o hino do Chile para o Uruguai.

A declaração pode ter sido feita no calor do momento, ou seja, logo após uma derrota na estreia. De qualquer forma deixa ainda mais claro o erro que é organizar um torneio desse modelo nos EUA, onde o futebol chama soccer, e passa longe de ser uma prioridade do público daquele país.

Errar o hino da seleção que foi campeã da primeira edição da Copa América é simbólico (assista aqui). E outros erros já aconteceram durante a competição. A bandeira boliviana foi apresentada no telão antes da partida contra o Panamá virada de cabeça para baixo, e a fornecedora de material esportivo da seleção colombiana distribuiu cartazes para divulgar a nova camisa da seleção com o nome do país escrito errado, Colômbia virou “Columbia”.

Para as marcas esportivas, que exercem um papel econômico central no atual formato do futebol mundial, é certamente interessante que a Eurocopa, o torneio continental europeu que ocorre desde 1960 uma vez a cada 4 anos, aconteça ao mesmo tempo da Copa América. Podem lançar os novos uniformes das seleções e planejar as ações de marketing de forma conjunta para os principais mercados futebolísticos.

Ao mesmo tempo, não podemos esquecer, que as recentes investigações dos EUA em relação aos negócios da FIFA, também sugerem um interesse maior daquele país no mercado do futebol mundial. Seria ingenuidade acreditar que os norte-americanos literalmente “entraram” na FIFA apenas por estarem preocupados em fazer justiça. Isso nos faz pensar que esse torneio pode ser um tubo de ensaio para uma possível competição mundial que os norte-americanos possam ter intenção de organizar em breve.

Em tempos de aprofundamento da intervenção norte-americana nos assuntos internos da política na América do Sul, não parece coincidência que o dinheiro gerado pelo futebol do continente volte a escorrer para os EUA. A ofensiva imperialista que tenta ressuscitar a derrotada ALCA, ataca também no esporte preferido dos sul-americanos, o futebol.

Plaza Colonia faz história no Uruguai

plaza campeão - foto de destaque

Fundado em 1917 e seguindo como clube amador até o ano 2000, o Plaza Colonia, que disputou a divisão principal pela primeira vez apenas em 2002, com Diego Aguirre como treinador, conquistou neste domingo (29) o título do torneio Clausura no Uruguai.

O Campeonato Uruguaio é dividido em duas partes. O Apertura e o Clausura. Para decidir o campeão, se enfrentam o campeão do Apertura contra o do Clausura. O vencedor desse confronto enfrenta o time que somou maior número de pontos no campeonato inteiro.

A conquista da equipe da cidade de Colonia do Sacramento, no sul do país, fez história no futebol uruguaio. O clube derrotou o tradicional Peñarol, no estádio do adversário, em Montevidéu, por 2 a 1 debaixo de chuva e ficou com a taça com uma rodada de antecipação.

O clube pratica uma política que vai no sentido contrário ao que vemos atualmente no futebol, em relação ao contrato de seus jogadores. Não aceita os famosos “empresários”, os atletas que negociam seus contratos diretamente, sem atravessadores. Dada a condição financeira do clube, alguns jogadores chegam a ter outros empregos para completar sua renda, e outros atletas vão treinar de bicicleta para economizar seus ganhos mensais.

Certamente, uma dessas lendas instantâneas do futebol. No começo do ano, para garantir o dinheiro para seguir com suas atividades o clube organizou uma “pollada”, que foi a preparação de 400 frangos para serem vendidos nas ruas pelos jogadores juvenis à população local.

Sobre o que faz a equipe ser tão unida, o treinador Eduardo Espinel afirmou ser por conta do “mate”. Os jogadores tem o costume de se encontrar para tomar mate, entre eles e também com torcedores e comissão técnica.

Com o título, que veio com um gol de pênalti já nos 15 minutos finais da partida, a equipe garantiu a vaga em um torneio internacional pela primeira vez em sua história. Disputará a Libertadores ou a Sul-Americana, dependendo de como terminar a decisão do campeonato uruguaio dessa temporada.

Villoldo comemora o gol que deu o título ao Plaza Colonia

Villoldo comemora o gol que deu o título ao Plaza Colonia

Chamado rapidamente de “Leicester” da América do Sul, o Plaza Colonia obteve uma conquista, dada as proporções das equipes e o grau de dificuldades que enfrentam, muito maior do que o, também importante, título da equipe inglesa.

Audax de Itápolis ou Velho Oeste do futebol

diniz audax

Desde o começo do “oba oba” em torno do clube empresa (retomando expressão muito usada nos anos 90) Audax Osasco as comparações com outros clubes “pequenos” foram inevitáveis. Inter de Limeira de 86, Bragantino de 90, até com a seleção de Camarões da copa de 90 equipararam a empresa de compra e venda de jogadores instalada na Grande São Paulo.

Bastou terminar o Campeonato Paulista de 2016, com o vice-campeonato, e sim, um bom futebol, apresentado pelo Audax para que esse romantismo em relação à equipe do interior fosse por água abaixo. Normalmente, por não estar na série A, nem B e também fora da série C, o clube de Osasco jogaria a série D. E vai jogar, lá estará o Audax constando na tabela da série D. Mas e os seus principais atletas, que ainda não foram vendidos e seu treinador? Eles não vão para a série D.

Como todo projeto que visa unicamente o lucro, sem preocupação absolutamente nenhuma com a torcida da equipe em Osasco, os empresários que comandam o Audax alojarão todos os seus “valores” em uma vitrine melhor. Sendo assim, em um acordo anunciado essa semana, o treinador Fernando Diniz e seus atletas migram para Itápolis e passam a vestir as cores do Oeste. Clube do interior paulista que disputará a série B esse ano. Torneio que tem transmissão da Sportv e conta com a participação de grandes clubes, como, por exemplo, o atual campeão carioca, Vasco da Gama.

O treinador Fernando Diniz, em entrevista recente, diz que não se trata de uma “manobra” e coloca a culpa na organização do futebol nacional,“no calendário do jeito que ele é feito, o time quase campeão, que foi vice-campeão (paulista) e jogou bem o campeonato para você ter algum atrativo para marca ficar em evidência… disputar a Série D fica muito distante do que foi o Campeonato Paulista”.

Concordo que o futebol brasileiro não está representado em sua diversidade no atual formato de campeonato nacional, que tenta se assemelhar aos padrões europeus, quando na verdade vivemos em um país continental. Mas fica clara outra realidade, que não chega a surpreender quem acompanha os bastidores do futebol brasileiro, quando o treinador revelação fala em “marca ficar em evidência”. É disso que se trata então? Sai abrindo filiais do Audax ou do Red Bull pelo Brasil afora, e rapidamente revender os jogadores para lucrar.

Que qualquer clube que invista na formação de um atleta, espera de alguma forma recuperar o valor investido e com algum lucro, faz parte do jogo. Mas chegamos a um novo patamar com a “locação” do Oeste por parte do Audax, e isso está implícito na fala do próprio treinador que está de malas prontas de Osasco para Itápolis. Resta saber onde isso vai parar e não é surpresa que tanto os novos torcedores e torcedoras de Osasco, Itápolis e tantas outras cidades, prefiram os sonolentos jogos da Champions League na TV, que também fazem parte do mesmo sistema, mas ao menos seus clubes reúnem os melhores atletas do planeta, do que vestir as “camisetas de aluguel” de seus clubes locais.

E todo ano é a mesma coisa…

audax

Equipes disparam nos estaduais, se classificam em primeiro lugar com muitos pontos na frente e ai muitas vezes caem nas quartas ou nas semifinais frente a equipes que tem mais de 10 pontos a menos.

Ai começa a reclamação. Como se os grandes culpados não fossem os próprios clubes, que através de seus dirigentes, aprovam fórmulas malucas de campeonato, como o bizarro Campeonato Paulista, que utiliza um critério para o descenso, outro para classificação e os melhores colocados na primeira fase não levam nem o direito do empate.

Mas ai vem a história de quem brasileiro gosta mesmo é do mata-mata, pode até ser, mas é possível criar um torneio mata-mata com critérios mais justos. No último Campeonato Brasileiro antes da era dos pontos corridos, 2002, o São Paulo fez uma excelente campanha na primeira fase e acabou derrotado pelo oitavo colocado, o Santos, logo nas quartas, e o time da Vila acabou sendo campeão daquele ano. Esse apenas um exemplo. Os torneios sem pé nem cabeça país afora, já tiraram a taça de grandes equipes…

Outra questão que chama atenção nessas finais de estaduais são as equipes que estarão entre as melhores de seus respectivos estados, mas não estarão no Brasileiro. O que nos faz pensar, os estaduais são realmente muito fracos e desinteressantes ou o formato do Campeonato Brasileiro e a forma existente para atingir a divisão principal são incapazes de dar conta do tamanho do país?

Audax, em São Paulo e Juventude no Gaúcho, estão entre os vinte melhores times do país? Ou realmente os estaduais não são parâmetros confiáveis? Em outras palavras, o Audax teria time pra enfrentar América-MG, Ponte Preta, Chapecoense, Figueirense, Atlético-PR, Sport e Santa Cruz?

Um Brasileiro que tivesse suas vagas preenchidas através dos estaduais seria mais justo, levando em conta o tamanho continental do Brasil? Ou os pontos corridos e suas séries “engessadas”, são a melhor forma de termos os melhores clubes do país na divisão principal?

São apenas interrogações que não terão respostas, pois o Audax, por exemplo, estará lá na distante Série D e em relação aos estaduais, ano que vem tem mais choro, com mais um monte de regulamentos sem sentido que deixará muitos líderes de primeira fase pelo caminho no primeiro mata-mata.

O dia que falei com o Sócrates

Sócrates na partida de estréia da seleção na Copa de 1982, contra a União Soviética.

Sócrates na partida de estréia da seleção na Copa de 1982, contra a União Soviética.

– E ai Thiagão, o que vai ter pro sábado?

Silvio Valente, meu coordenador na época de Rádio Record, chegou naquele dia me perguntando o que eu estava planejando para o programa que eu produzia e apresentava aos sábados na emissora.

A copa de 2006 se aproximava, e embora eu estivesse bem desanimado com a nossa seleção, o clima como sempre era de esperança em mais uma taça pra equipe brasileira.

– Pensei em um especial sobre a Copa de 82, Sílvio.

Eu sou um grande fã da equipe de 82. Um meio campo com Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico é extraordinário.

Nosso comandante na redação não titubeou e mandou logo de primeira:

– Ótimo. Então liga pro Magrão!

Magrão, apelido que os mais próximos usavam para se referir ao Sócrates.

Obviamente me bateu um frio na barriga danado e eu, então com 24 anos, concordei na hora.

– Grande ideia. Mas será que ele fala?

– Fala sim Thiagão. Quer que eu ligue? Mas se quiser liga agora, olha aqui liga nesse número.

Parecia meio inacreditável. Eu já tinha entrevistado tudo quanto era jogador, até o croata Boban, que também era um dos meus ídolos, não só pelo futebol, mas também por suas ideias políticas, assim como Sócrates…

Mas o Sócrates era o Sócrates!

Liguei. Sócrates atendeu logo. E me falou:

– Estou no bar agora, com um pouco de barulho, faz assim, me liga em 15 minutos que vou procurar um lugar tranquilo aqui.

Sócrates no bar! Gênio! (risos)

Corri pra sala de gravação, deixei tudo pronto e liguei de volta. Exatos 15 minutos depois…

Na pauta apenas a seleção de 1982 e as expectativas dele para o Brasil na Copa de 2006, que começaria alguns dias depois. Tempo máximo de 5 minutos para encaixar no programa. Aquele programa teve outros entrevistados, como o craque Éder. Mas o que mais me record foi mesmo esse papo com o Sócrates. Assim menos de meia hora depois de ter proposto a pauta.

Queria ter falado sobre muitas outras coisas. Mas a pauta era Copa de 82. Antes de desligar ainda deu tempo de perguntar sobre o Corinthians naquele ano. Ele foi pessimista. Perguntei também sobre as eleições que ocorreriam no final do ano. E ele afirmou, “vai dar Lula de novo, tranquilo”, e deu mesmo. Mandou um forte abraço e desligou o telefone.

O Sócrates faz falta. Nesses tempos que vivemos seria bom ouvirmos as opiniões do Magrão.

Compartilho abaixo a entrevista com o Sócrates, sobre a seleção na Copa de 82.