O futebol brasileiro não cabe em uma arena

O time já estava rebaixado para a Série C. Pela frente a equipe campeã do certame. Essa era a sinopse da partida entre Sampaio Corrêa x Atlético-GO, no último sábado (19), realizada na cidade de São Luís, Maranhão, e válida pela penúltima rodada da Série B de 2016.

Ingresso custando 10 reais. Povo nas arquibancadas. Estádio um tanto vazio, é verdade, assim como seria em qualquer outro jogo de um clube que já está matematicamente rebaixado para a Série C.

Mas o que mais me chama atenção é que o clima no estádio remete a uma experiência já quase extinta nas “arenas” de São Paulo. Quem frequenta jogos de futebol a algum tempo, de preferência de 2003 para trás (ano escolhido um pouco a esmo mas que marca nosso início dos pontos corridos e a inundação de termos como “planejamento” e “gestão” nos nossos noticiários esportivos) vai concordar que algo que costumávamos encontrar, já não encontramos mais. E não são apenas as bandeiras e cores, que começaram a ser caçados no estado de São Paulo em meados dos anos 1990, falo sobre a presença de pessoas que nos faziam torcer ainda mais pelo time dentro do campo, de olhos simples brilhando e de uma certa mística entre esses seres e o jogo lá embaixo.

A camisa já descolorida de 8 anos atrás, que nem sempre era sinal de falta de dinheiro para ter uma nova e muitas vezes era superstição, era o manto que foi usado na conquista de algum título importante, ou em uma virada emblemática, os amendoins arremessados pelos vendedores (pelo menos uma dúzia você conseguia de graça), a cerveja (hoje banida nos estádios nos jogos na capital paulista), os debates acirrados nas arquibancadas acerca daquele lateral que só o técnico entende o que faz ali dentro do campo, aquele senta, levanta, senta, e depois de um determinado momento do jogo, todo mundo em pé até o fim, cabeceando cada bola com o zagueiro ao mesmo tempo que o ouvido estava colado no radinho de pilha para saber se aquele rival estava perdendo para deixar o dia ainda mais feliz. Poderia continuar desfilando nostalgia. Enfileirando memórias românticas sobre um futebol que se transforma rapidamente em outra coisa… Mas fato é que encontrei todos os elementos “escalados” no início do parágrafo lá em São Luís.

Torcedores do River do Piauí

Torcedores do River do Piauí

É fácil encontrarmos termos como “o futebol respira” hoje em dia na imprensa “alternativa” sobre o esporte, sempre que vai se fazer referência a qualquer coisa de fora do mundo das arenas. Mas isso acaba dizendo mais sobre quem escreve a expressão, em relação a que tipo de jogo assiste, do que propriamente ao futebol existente no país. O Brasil é enorme, em cada canto do nosso território tem um time, tem bola rolando nas ruas, tem a criançada com suas camisas do Sampaio Corrêa por exemplo, não deixando que a mídia hegemônica que cada vez mais polariza o futebol brasileiro, se coloque entre sua paixão pelo seu time de coração e pela bola.

Isso não tem a ver com o torneio que o time disputa, isso não tem a ver com o fato de o clube já estar ou não rebaixado como no caso do jogo que inspirou esse texto. Isso tem a ver com o povo brasileiro e o futebol. E ai meus amigos, não tem federação, televisão, arenas com ingressos excludentes de tão caros que vá conseguir acabar. A luta é essa. A luta dos que amam o futebol e se arrepiam ao ver meninas e meninos correndo atrás de uma bola Brasil adentro é fazer com que essas pelotas, nem sempre redondas, continuem levantando poeira pelas ruas não asfaltadas do nosso país, é fazer com que os senhores com seus rádios de pilha continuem discutindo o porque do centroavante não ter batido aquela bola de primeira. É não deixar que uma emissora de TV, por exemplo, consiga colocar toda beleza e diversidade da relação de nosso povo com o futebol em uma caixa que só cabem 20 camisas das capitais mais ricas.

Um Trem de Alegria contra a censura da ditadura

Censura. No dicionário censura é: 1.ato ou efeito de censurar. 2. análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., ger. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.

O Trem da Alegria, seleção de música e futebol.

O Trem da Alegria, seleção de música e futebol.

Com esse substantivo explicado, vamos ao tema central do texto, o documentário “Trem da Alegria – Arte, Futebol e Ofício”, com direção de Francis Vale.

Com pouco mais de 80 minutos o filme conta a história da equipe de futebol idealizada por Afonso Celso Garcia Reis, o ex-jogador de futebol, Afonsinho, 69 anos de idade. O nome, Trem da Alegria, segundo o próprio Afonsinho, neto de ferroviários que hoje é médico na Ilha de Paquetá no Rio de Janeiro, é uma homenagem à Garrincha, a “alegria do povo”. O time misturava músicos, jogadores profissionais (muitas vezes sem clube), “atletas de fim de semana”, poetas e quem mais se aproximasse com disposição para compor o elenco do Trem.

Era futebol com música ou música com futebol? A pergunta não precisa ter resposta. Fato é que a mistura deu certo e os que puderam participar afirmam por mais de uma vez durante o filme que aquele foi o “melhor momento de suas vidas”, embora os tempos fossem difíceis. O diretor Francis Vale conta que “Afonso começou a agregar vários jogadores. Ou porque não tinha clube ou porque estavam em fim de carreira, isso incluiu também o Garrincha”.

A ideia surgiu em 1975, a partir de um show com direito a partida de futebol disputada na USP. Paulinho da Viola conta com detalhes sobre esse evento durante o documentário. Mas a equipe só estreou mesmo com o nome de Trem da Alegria no dia primeiro de maio de 1976, em um jogo organizado por uma Usina em Sertãozinho (interior de São Paulo), e a partir dai começam a rodar o Brasil.

Afonsinho em atividade pelo Santos.

Afonsinho em atividade pelo Santos.

“Era um momento em que estava tudo disperso por conta da ditadura, todo mundo com medo de se aproximar, o time funcionou como um aglutinador. A experiência do Trem deixa essa mensagem de se agregar, de se juntar, para de alguma forma resistir à opressão”, relembra Vale, e continua, “em relação à política não existia uma coisa explícita, estávamos na ditadura, mas aparecia nos papos que rolavam na mesa do bar, depois dos jogos”.

Fagner, Moraes Moreira, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, todos eles jogaram bola com a camisa do time. Afonsinho, Ney Conceição (que também atuou no Botafogo-RJ) e até o Garrincha, todos eles também tentaram arranhar algum instrumento antes e depois das partidas. Registros? Quase nada, a repetição de poucas fotos e recortes de jornal durante o documentário parecem reforçar a todo momento a sombra da censura dos anos de chumbo que pairava sobre a aparente liberdade dos que participavam do Trem da Alegria. “Até o João Gilberto andou por ali”, comenta Francis.

A participação de um dos maiores jogadores de todos os tempos, Garrincha, chama atenção, e sobre isso o diretor conta que “juntou um pessoal e foram lá chamar o Garrincha na casa dele pra ser o técnico, e ai ele falou: ‘técnico não, eu quero jogar, a camisa 7 é minha’ e lá foi ele jogar”. Sobre a organização, um certo improviso é mantido desde o início das atividades, “o Trem, que tem o hino composto pelo João Nogueira, até hoje não tem nenhuma ata, não tem diretoria não tem nada, o Afonso pegava a agenda ligava para quatro pessoas, que ligavam pra mais quatro e de repente estava formado o time”, recorda Francis.

“O filme busca trazer à tona a discussão sobre a estrutura do futebol, temos a herança da ditadura ainda muito presente no futebol brasileiro. Ainda são os mesmos dirigentes, foram buscar um presidente militar para a CBF durante a Copa”, aponta Francis Vale.

Afonsinho e Sócrates tomando uma cerveja

Afonsinho e Sócrates tomando uma cerveja

O diretor ainda comenta que muitas iniciativas dentro do futebol tiveram influência do projeto de Afonsinho, como por exemplo “o movimento do Sócrates no Corinthians, a Democracia Corintiana”. Não por acaso, após a morte do ex-jogador e também médico, Sócrates, Afonsinho substituiu o “doutor” como colunista na revista Carta Capital.

O documentário será exibido na 40ª Mostra de Cinema de São Paulo desse ano na próxima segunda-feira (31), às 15 horas no Cinesesc, localizado na Rua Augusta.

E para quem quiser conferir pessoalmente e jogar uma partida com o Trem da Alegria, Francis dá a dica “no dia primeiro de maio, todos os anos, tem uma festa lá em Paquetá”. Em tempos de luta pela democracia, o Trem continua a rodar!

Entrevista: Emanuel Leite Jr. e as cotas de TV no futebol brasileiro

Batemos um papo com Emanuel Leite Jr., autor do livro “Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro: apartheid futebolístico e risco de espanholização”. O livro aborda a distribuição dos recursos dos contratos de venda dos direitos de transmissão televisiva do Campeonato Brasileiro de futebol – as chamadas “cotas de TV”. O material teve origem durantes os estudos de Emanuel. Foi produzido para sua monografia em Direito e seu conteúdo serviu de base para os projetos de lei 7681/2014 e 755/2015.

cotas livro

Pelota de Trapo: Quando comparamos nosso modelo aos modelos europeus, como lidar com a questão da diferença territorial do Brasil em relação ao tamanho dos países europeus? A comparação mais viável não seria entre os estaduais e os nacionais da Europa?

Emanuel Leite Jr.: Eu entendo que são duas questões que precisam ser pensadas paralelamente. O futebol brasileiro se tornou o que é hoje graças aos campeonatos estaduais e suas rivalidades. Como expressão de manifestação cultural, o futebol mantém uma relação intrínseca com o meio social em que se encontra inserido. Mais do que qualquer outro esporte, o futebol traz em sua essência a capacidade única da representação simbólica, constituindo alicerce na construção de conceitos de nacionalismo, regionalismo e até mesmo bairrismos. O futebol tanto é capaz de reforçar a unidade social, quanto de acirrar as rivalidades.

Foram as rivalidades que ao longo da história fizeram do futebol um esporte tão popular. Foi por questões regionais que Manchester United e Liverpool se tornaram os maiores rivais na Inglaterra. Foi por questões bairristas que o futebol se entranhou nas camadas populares de Londres. O Brasil, naturalmente, não ficou alheio a este fenômeno. Temos o GreNal, o dérbi paulistano, Fla-Flu, Cruzeiro x Atlético, Clássico das Multidões em Pernambuco, BaVi, RePa, para citar apenas algumas das paixões que mais fazem pulsar o nosso futebol.

A questão que precisa ser feita é: acabar com a rivalidade local interessa a quem? Acabar com estaduais é a mesma coisa que extinguir o pequeno comércio, servindo apenas aos interesses de shoppings e hipermercados. Para quem serve ter, no máximo, 10 times com projeção nacional? Pior, a quem interessa ter essencialmente times do Rio e de São Paulo com projeção nacional? A quem interessa acabar com a diversidade cultural do Brasil?

Voltamos, então, à questão de, como expressão de manifestação cultural que é, o futebol manter esta relação intrínseca com o meio social em que se encontra inserido. O futebol reflete, portanto, a sua realidade social, política e econômica. Nós, infelizmente, vivemos em um país de profundas desigualdades sociais, econômicas, raciais e de gênero. Vivemos um país dominado por uma elite excludente, que vê no processo de inclusão de um excluído não algo benéfico ao todo social, mas como uma ameaça aos seus poderes e privilégios estabelecidos.

Nós somos um país com território de dimensões continentais. Qual outro país se assemelha a nós neste sentido? Os Estados Unidos, com seu território continental e dividido em estados. E como se dá a divisão das competições norte-americanas (aqui em sentido amplo, pois os canadenses também participam)? São regionalizadas. O primeiro campeonato nacional do Brasil também era regionalizado: a Taça Brasil.

Todos os campeões estaduais disputavam a Taça Brasil, divididos em etapas regionais. Por conta da força do futebol do Rio de Janeiro e São Paulo, cariocas e paulistas entravam em fases mais avançadas. Porém, os clubes das demais regiões tinham a possibilidade de disputar a semifinal.

Não à toa, o nordestino Bahia foi o primeiro Campeão Brasileiro, batendo o Santos de Pelé em 1959. O tricolor baiano ainda viria a ser vice-campeão duas vezes: 1961 e 1963. O Fortaleza foi vice em 1960 e 1968. O Náutico em 1967. O alvirrubro pernambucano ainda seria terceiro colocado três vezes. O Ceará ficou no pódio uma vez. Por três ocasiões, houve dois semifinalistas nordestinos.

E o que aconteceu depois? Primeiro veio a Taça Roberto Gomes Pedrosa, uma ampliação da Rio-São Paulo: nenhum nordestino disputou a semifinal em suas quatro edições. E, na sequência, o Campeonato Brasileiro em 1971. Desde 1971, o Sport foi campeão em 1987, o Bahia em 1988 e o Vitória vice em 1992. Quantas vezes um clube do N/NE/CO ficou entre os quatro primeiros do Brasileirão? Apenas nove. Contra 12 nos tempos da regionalizada Taça Brasil.

Parece-me, portanto, evidente que houve uma concentração excludente na lógica do futebol brasileiro. Exclusão regional que reflete, por infeliz coincidência, a desigualdade social e regional que assola o nosso país. Algo que abordo no meu livro. A luta por cotas de TV justas como forma de fazer cumprir um princípio fundamental do Estado brasileiro: reduzir as desigualdades sociais e regionais (art. 3º, III, CF/88).

É impossível termos um futebol forte quando se pensa apenas na superestrutura e se esquece de toda a base que deveria dar alicerce à infraestrutura. E a base do futebol brasileiro passa pelos estaduais. E, portanto, são duas causas que devem ser travadas juntas: a manutenção dos estaduais e a luta por cotas de TV justas, como forma de fortalecerem os clubes do país.
O Clube dos 13 foi um primeiro passo no sentido de abrir um abismo estrutural entre os clubes brasileiros?

O Clube dos Treze surgiu como uma ideia de contraposição dos clubes aos desmandos da CBF, que tanto prejudicavam o futebol nacional. Na teoria, uma iniciativa que se apresentava como benéfica, no sentido de procurar quebrar os paradigmas do futebol brasileiro, dominado por uma cúpula institucional que se mostrava incapaz de desenvolver o esporte no país. Era uma tentativa de os clubes tomarem para si as rédeas do futebol. Como uma liga de clubes. Ideia salutar, portanto.

Infelizmente, aquela entidade privada instituída em 1987 já nasceu partindo de uma premissa deturpada. Logo no artigo 1º do seu estatuto a associação se autodenominava “União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro”. Ou seja, já surgia com uma visão elitista e segregadora, procurando separar os seus membros dos demais clubes nacionais a partir do “mérito” da “grandeza”.

O privilégio aos clubes associados ao Clube dos Treze evidenciava este segregacionismo, posto que o seu estatuto, na alínea “a” do art. 6º era expresso: “são atribuições da Associação, para atingir seus objetivos: a) – promover e responsabilizar-se pela defesa dos interesses comuns dos associados.”

Era uma reforma que se propunha a ser feita do topo e para o topo. Quando a reestruturação do futebol nacional só poderá ser conseguida se se der a partir da base. Do todo e não de um seleto grupo.

O Clube dos Treze sempre teve por finalidade precípua a defesa e a promoção dos interesses de seus associados, ou seja, dos vinte clubes que o constituía. Por isso, quando repartia os recursos entre os clubes participantes do campeonato brasileiro, o Clube dos Treze agia sem critérios de equidade, priorizando os seus associados em desproveito das demais associações esportivas as quais não faziam parte de seu seleto grupo. Bem como todas as viradas de mesa que aconteceram após sua constituição, que sempre visavam a resgatar os seus membros (todos fundadores, frise-se, pois internamente havia uma divisão de castas).

Neste sentido, com esta visão oligárquica, o Clube dos Treze teve enorme contributo no aprofundamento do abismo estrutural entre os clubes brasileiros, promovendo o “apartheid futebolístico”, criando um seleto grupo de “incluídos” em detrimento dos milhares de clubes “excluídos”.

O que mudou do tempo das “viradas de mesa” dos Clube dos 13 para os tempos atuais?

O estabelecimento do Estatuto do Torcedor (Lei 10.671/03) trouxe como benefício o fim das viradas de mesa. Mas, por não tratar do tema (que é da esfera da Lei Pelé), não foi capaz de impedir que a implosão do Clube dos Treze se transformasse numa caminhada rumo à adoção de uma lógica mais coletiva e equânime no futebol nacional. O Clube dos Treze deixou de existir, mas no seu vácuo se aprofundou o individualismo. E a disputa egoísta dos grandes pela concentração do poder fere o espírito desportivo em seu âmago. Isso porque a enorme e injustificável desigualdade nas receitas televisivas são o prenúncio do fim da competitividade desportiva. Uma relação que se perfaz injusta. Afinal, devemos entender igualdade como justiça. E, desde os gregos antigos, igualdade se confunde com democracia.
Você acredita que a maior audiência de um determinado clube se dá justamente pela sua maior exposição? Por exemplo, o Corinthians e o Flamengo tem grandes audiências justamente por terem suas partidas exibidas constantemente?

É como eu questionei anteriormente. A quem interessa que existam poucos clubes de projeção nacional? De que forma a exposição maciça e constante de apenas alguns clubes torna invisível todos os outros? E, aí, entramos no ciclo viciante… O clube que é mais exposto, tem maior visibilidade, atinge um público mais abrangente, tem maior renovação de torcedores (hoje tratados como meros consumidores na lógica do mercado).

Não é por acaso que clubes tradicionais ingleses como Tottenham, Newcastle, Aston Villa (estes dois últimos foram rebaixados na temporada 2015/16) tanto reclamam das detentoras dos direitos de transmissão da Premier League, que sempre priorizam Man United, Liverpool, Chelsea, Arsenal e Man City. Principalmente porque lá as transmissões dos jogos são responsáveis pela distribuição de 25% do valor total vendido no mercado interno (os valores do mercado internacional são divididos de forma igualitária entre todos).

Esse é um ponto muito interessante que, em minha opinião, mereceria um estudo exclusivo. Uma pesquisa que procurasse entender de que forma (ou o quão profunda) a relação cíclica desta exposição midiática influencia na manutenção das relações de poder. Pierre Bourdieu já nos ensinou que em um campo se encontram relações de poder, o que implica dizer que há desigualdade e que dentro de cada campo existem lutas entre aqueles que pretendem garantir sua participação e a classe dominante que busca manter a ordem e a sua supremacia.
Para que pudéssemos ter um campeonato realmente competitivo, com igualdade de condições entre todos os clubes participantes, você acredita que uma regulação em relação aos valores de patrocínio devesse existir também? Lembremos que na Alemanha, apesar de um modelo mais justo no que tange as cotas de TV, o Bayern de Munique quase sempre é o campeão do torneio.

No mundo ideal, sim. O problema é que regulamentar os valores do patrocínio feriria o princípio da autonomia da vontade nas relações privadas. Nos esportes norte-americanos, por exemplo, os fornecedores de material esportivo são coletivos. A Adidas fornece para o futebol (MLS) e a NBA. A Nike para a NFL. Todos os patrocínios da liga de futebol americano, por sinal, respeitam o acordo coletivo.

A partir da temporada 2017/18, a NBA vai ser a primeira liga norte-americana com patrocínios na camisa. Vai ser implementado um programa piloto, de três anos. Cada franquia vai ter que vender seu patrocínio, mas só poderá ficar com metade do valor. O restante vai para o plano de distribuição de receitas da própria liga, que movimenta o dinheiro através de uma fórmula que divide parte dos ganhos das grandes marcas para as franquias menos abastadas. Na temporada 2013/14, por exemplo, houve equipes recebendo US$ 16 milhões como parte deste plano.

Vale lembrar, também, que nas ligas norte-americanas o dinheiro das transmissões televisivas é distribuído de forma igualitária entre todas franquias/equipes. Ou seja, nos Estados Unidos prevalece uma lógica coletivista. Eles têm plena noção de que as negociações coletivas tornam a competição mais atrativa, uma vez que as equipes competem em maior igualdade de oportunidades, proporcionando, assim, maior estabilidade financeira para todos, justamente por conta da redistribuição mais equânime de todos os dividendos.

Esta é uma lógica igualitária, justa e que visa a preservar a competitividade. Porém, trata-se de decisão autônoma das equipes – reunidas através de suas respectivas ligas. Não de uma imposição. Respeitando a autonomia da vontade nas relações privadas, as ligas norte-americanas pensam no fortalecimento coletivo como forma de se obter o desenvolvimento do todo. E não no aprofundamento do individualismo, que, como já está provado ao longo dos exemplos históricos, tende a aprofundar a desigualdade e, por conseguinte, gera a perda de competitividade.

Infelizmente, como eu disse, não vejo uma regulamentação dos valores de patrocínio como algo possível dentro de nosso ordenamento jurídico, pois entra em conflito com a Constituição. Impor um limite aos valores que as entidades privadas poderiam negociar seria inconstitucional, por restringir a liberdade de negociação assegurada pela Carta Magna do país. Seria necessário, neste caso, o bom senso de quem comanda o nosso futebol. Algo, lamentavelmente, improvável.

É diferente, faço questão de observar, de uma mera regulamentação da distribuição dos valores obtidos pelas vendas dos direitos de transmissão televisiva do futebol brasileiro. Desde 2001, a Comissão Europeia decidiu tomar parte ativa no assunto, estabelecendo um marco regulatório em que convidava as ligas a adotar o modelo de negociação coletiva – o mesmo que é proposto no projeto de lei 755/2015, que tem como base meus estudos. A iniciativa da Comissão Europeia visava ao cumprimento do artigo 81 de seu Tratado (consolidado em sua versão de Nice), que se preocupa, precisamente, com a preservação da livre concorrência.

Não há uma interferência nas negociações privadas. As ligas negociam livremente negociam com as empresas e pelos valores que o mercado estiver disposto a pagar. Foi na esteira das orientações da Comissão Europeia, inclusive, que a Bundesliga (Alemanha) e a Premier League (Inglaterra) celebraram, em 2005 e 2006 (respectivamente), seus compromissos de manterem as negociações coletivas para as vendas dos direitos de transmissão de seus campeonatos. Aceitando, inclusive, o estabelecimento do tempo máximo de duração de três anos por contrato.

Não custa lembrar que, a partir da próxima temporada, com a entrada em vigor do novo super contrato de TV, todos os clubes da Premier League vão ser ricos ou super ricos. Os clubes ingleses vão dividir £ 1,712 bilhão por temporada (do total de £ 5,136 bilhões pelas próximas três). Assim, o campeão deverá receber algo em torno de £ 150 milhões, enquanto o lanterna entre £ 99 e 100 milhões.

Na Itália e na Espanha, por sua vez, houve a necessidade da intervenção estatal na regulamentação da distribuição dos recursos. Porém, é importante frisar, a regra só determina a forma como o dinheiro vai ser distribuído e não como os clubes – através de suas ligas – devem negociar.

Por fim, é importante lembrar que no Brasil temos o chamado “direito de arena”, previsto no artigo 42 de Lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé): “Pertence às entidades de prática desportiva o direito de arena, consistente na prerrogativa exclusiva de negociar, autorizar ou proibir a captação, a fixação, a emissão, a transmissão, a retransmissão ou a reprodução de imagens, por qualquer meio ou processo, de espetáculo desportivo de que participem.”

Com o “direito de arena”, em uma partida de futebol, os dois clubes intervenientes (“entidades de prática desportiva”) são os detentores dos direitos de transmissão. Ou seja, só pode haver transmissão televisiva se as duas equipes tiverem contratos celebrados com a emissora. Isto exclui, então, o individualismo da negociação, uma vez que um clube, sozinho, não tem o direito de negociar a transmissão de um jogo.

Fica evidente, então, que a legislação brasileira estabelece uma forma de Princípio da Solidariedade, cumprindo o disposto no art. 3º da Constituição Federal. Solidariedade que pressupõe a lógica preconizada por John Rawls e John Nash, a saber, a responsabilidade recíproca e a busca por ajudar os menos favorecidos.

Jornalista Emanuel Leite Jr. e seu livro Cotas de Televisão do campeonato brasileiro.

Jornalista Emanuel Leite Jr. e seu livro sobre cotas de televisão do Campeonato Brasileiro.

Como ocorreria a transmissão na questão de um jogo com diferentes emissoras detendo o direitos dos clubes envolvidos na partida?

É uma pergunta pertinente e cuja resposta os clubes e as emissoras vão precisar encontrar quando os novos contratos – SporTV e Esporte Interativo – entrarem em vigor. Isso porque, como foi falado, no Brasil temos o chamado “direito de arena”, previsto artigo 42 da Lei Pelé. De acordo com este dispositivo, como já expliquei, os dois clubes intervenientes, ou seja, que se enfrentam em uma partida, são ambos detentores dos direitos de transmissão. Isso diferencia o nosso país de como é em Portugal ou como era na Espanha, antes do Real Decreto-Ley 5/2015.

Em Portugal, por exemplo, a BenficaTV transmite os jogos do Benfica no Estádio da Luz (casa dos encarnados), e a SportTV transmite os do Porto no seu Dragão e do Sporting no Estádio de Alvalade. Isso significa que quando o Benfica atravessa a Segunda Circular para encarar o rival da capital ou vai ao Norte do país fazer o maior clássico do país, tem seu jogo transmitido pela SportTV, mesmo não tendo contrato assinado com o canal do grupo Olivedesportos. Enquanto Porto e Sporting têm seus clássicos na casa do Benfica transmitidos pelo canal do rival.

Vale lembrar, também, que os clubes portugueses assinaram, recentemente, contratos de valores surreais para o mercado daquele país e a partir de 2018, os jogos do Porto vão estar vinculados à empresa de TV por assinatura MEO e os do Sporting à NOS. Já os do Benfica passam a ser da NOS a partir de 2019.

No Brasil, entretanto, isso não é possível. Com o “direito de arena”, em uma partida de futebol, os dois clubes intervenientes (“entidades de prática desportiva”) são os detentores dos direitos de transmissão. Portanto, a princípio, só pode haver transmissão televisiva se as duas equipes tiverem contratos celebrados com a emissora.

Por isso que clubes e emissoras, para que o torcedor não fique privado de assistir aos jogos de seu time, vão ter que chegar a uma solução. Isso porque, ao rigor da lei, o Esporte Interativo só vai poder transmitir as partidas entre os clubes com que tem contrato e o mesmo se aplica ao SporTV. Ou seja, poderíamos ficar sem Santos x Corinthians, Internacional x Grêmio, Sport x Santa Cruz. Levando em conta que não haja uma mudança na legislação daqui até lá ou que não flexibilizem o cumprimento da norma, vejo a possibilidade de dois acordos: ambos os canais transmitem os dois confrontos do campeonato ou cada um transmite o jogo do mandante com que tem contrato.

Como a saída do Reino Unido da União Europeia pode interferir na Premier League, além é claro, da restrição aos estrangeiros, e com os europeus, de outros países, sendo contabilizados como estrangeiros também…

A questão da contratação de jogadores estrangeiros (aqui entendidos aqueles que não são da União Europeia/Espaço Econômico Europeu) é uma enorme preocupação para a Premier League (e aqui falo da Liga como instituição mesmo). Tanto é que seu chefe executivo, Richard Scudamore, havia deixado clara sua posição favorável à permanência do Reino Unido na União Europeia e se justificava alegando a “perspectiva do negócio” mesmo.

Em recente levantamento o The Guardian apontou que dois terços (66%) dos 161 jogadores “europeus” que disputaram a Premier League 2015/16 não cumpririam os critérios das novas regras para a obtenção do visto que permite um estrangeiro trabalhar no Reino Unido. Entretanto, como a própria matéria chamava a atenção, o próprio órgão regulador abre exceções “justificadas” e que estão previstas pelas regras. Considerando as normas anteriores, apenas 22% (36 jogadores) não obteriam a permissão. Porém, considerando os novos padrões, o número já passa para 33% (um terço).

Ou seja, mesmo que o Reino Unido só venha a sair da União Europeia em 2019 (e em meados de agosto a imprensa britânica noticiou que ministros do governo Conservador já comentam que a saída só ocorreria no fim de 2019 e não no início, como pretende a Primeira-Ministra Therese May), fica evidente o primeiro grande impacto que a Premier League sofreria: perda de qualidade. A título de exemplo, Riyad Mahrez e N’Golo Kanté, duas das principais estrelas do fenomenal Leicester campeão inglês, dificilmente teriam recebido a permissão de trabalho.

Na matéria do The Guardian, o professor Dr. Rory Miller diretor do MBA de Indústria do Futebol, da Universidade de Liverpool, alerta para o risco de que a perda de “jogadores de qualidade vai reduzir o valor da marca da Premier League, especialmente para o público estrangeiro”. E qual seria a consequência disso? A Premier League seria menos atrativa para as emissoras de todo o mundo – cujos contratos atuais, somados, rendem £ 1 bilhão por temporada.

Por essa razão, Stefan Szymanski, professor de gestão esportiva da Universidade do Michigan e um dos autores do livro “Soccernomics”, acredita que o governo britânico deverá estabelecer uma exceção específica para o mercado de trabalho do futebol. Para o pesquisador seria inimaginável que um governo “seja qual fosse, não importa o quão maluco fosse, iria colocar água na fervura da Premier League, que é um importantíssimo produto de exportação”. Afinal, friso, estamos falando de um mercado extremamente lucrativo, que colocou 17 dos seus 20 clubes na lista dos 30 mais ricos do mundo, de acordo com a Deloitte – e em boa parte graças aos contratos de vendas dos direitos de transmissão.

Porém, mesmo que o governo britânico crie um protocolo de exceção para os jogadores de futebol, existiria ainda outro risco, no que tange ao valor de mercado da marca da Premier League. Em entrevista à France Football, o treinador do Arsenal Arsene Wenger alertou para a possibilidade de a liga inglesa se tornar menos atrativa para estrangeiros, já que a Libra tem perdido valor. A moeda britânica, em julho atingiu seu menor valor dos últimos 31 anos em relação ao dólar dos EUA. Para Wenger, isso poderia, por exemplo, representar uma perda de competitividade com a Alemanha, que na visão dele “teria um poder aquisitivo maior” e assim a Bundesliga poderia vir a ser potencialmente mais atrativa para jogadores.

E aí entra a lógica do mercado das vendas dos direitos de transmissão. Se a Premier League – com a Libra valendo cada vez menos – perder seu poder de atração sobre os jogadores, consequentemente se tornaria, também, menos atrativa, fazendo com que caíssem também os valores oferecidos pelas empresas de televisão. Neste caso, não apenas as estrangeiras, mas até mesmo as que brigam pelos direitos de transmissão para o mercado interno (recordemos que Sky e BT vão pagar £ 5,136 bilhões pelas próximas três temporadas).

Há, por fim, outra questão que prejudicaria os clubes ingleses. O artigo 19 do Regulamento sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores da FIFA impede a contratação de jogadores menores de idade (18 anos). Com três exceções. 1. Jovens que se mudam por questões não relacionadas ao futebol (por exemplo, se a mãe ou o pai consegue um emprego em outro país); 2. Jovens que vivem em região de fronteira; e 3. transferências de menores entre 16 e 18 anos da União Europeia ou do Espaço Econômico Europeu.

Muitos clubes da Premier League têm explorado o mercado da UE/EEA através de um trabalho de prospecção para contratar jovens promessas com menos de 18 anos, a baixo ou mesmo nenhum custo. Foi assim, por exemplo, que o Manchester United contratou Januzaj (Bélgica) e Mensah (Holanda) ou o Arsenal contratou o Cesc Fàbregas quando era apenas uma promessa do Barcelona. Contratações deste gênero vão passar a ser ilegais.

O Brasil de costas para a América do Sul – Por Felipe Bianchi e Thiago Cassis

nacional

Se perguntarmos para qualquer brasileiro que seja torcedor de um clube da série A ou apenas apaixonado por futebol: “Qual o torneio mais importante do continente?” ou “qual torneio você queria muito ver seu time ganhando?”, é quase certo que escutaríamos “Libertadores” [da América] como resposta.

Torcedores de equipes que já disputaram a taça continental com certeza se lembram de grandes embates envolvendo seus clubes de coração. Tristes derrotas ou triunfos históricos.

Então porque a Rede Globo nunca transmite a final do torneio quando não tem um brasileiro? Não exibe nem as semifinais quando está se decidindo o adversário de um brasileiro na final. Mas a final da Champions League, ou Copa dos Campeões como chamava até algum tempo atrás, sempre esteve presente na “telinha” da emissora carioca.

Alguns podem dizer que o contrato com os europeus obriga a transmissão. Então aí o erro também seria da Conmebol que não estaria sabendo vender seu maior “produto”, a Libertadores da América.

Outra argumentação poderia apontar para o fato de que o Ibope para uma final “improvável” como a desse ano, Atlético Nacional (Colômbia) x Independente Del Vale (Equador) seria muito baixo em comparação com o clássico de Madrid, Real x Atlético, partida que definiu o campeão europeu desse ano. Para esses podemos dizer que se não existir a cultura de mostrar a Libertadores, nunca será formado um público para esse torneio. Além disso o Ibope não pode ser o único critério de uma concessão pública. Valores como a integração continental devem ser colocados na mesa. E é certo que algo assim só viria por meio de uma espécie de regulação, nunca por vontade própria de uma empresa que só visa o lucro, e não podemos depender de uma “visão diferente” dentro capitalismo para que aprofundemos os laços culturais com os outros países do continente através também do futebol.

Mesmo se a final da Libertadores fosse River Plate x Peñarol, dois times de maior tradição, não veríamos na TV aberta do Brasil.

Por último, o argumento de que grandes craques, inclusive sul-americanos estão no futebol europeu e de que por isso seria melhor assistir aos jogos do velho continente também não pode ser justificativa, pois nos tempos atuais do futebol, maior tempo de exposição na TV significa mais dinheiro para os clubes, sendo assim, apenas com mais transmissões os clubes sul-americanos se estruturariam melhor para mantermos nossos craques por aqui. O público brasileiro não pode ser excluído das decisões do torneio mais importante de nosso continente quando um clube do país não estiver na final.

Alto alcance da publicação da página "Jogo 10 da noite, NÃO", feita na noite em que a Globo tirou a final da Libertadores dos brasileiros, demonstra a insatisfação dos torcedores do Brasil

Alto alcance da publicação da página “Jogo 10 da noite, NÃO”, feita na noite em que a Globo tirou a final da Libertadores dos brasileiros, demonstra a insatisfação dos torcedores do Brasil

O futebol enlatado

Gosto é gosto, apesar de podermos discuti-lo. Mas para além das preferências de cada um sobre o espetáculo vistoso da finalíssima europeia ou os duelos rústicos e atávicos do certame sulamericano, a forma como a Globo trata o futebol é o que gera indignação no torcedor.

Em São Paulo, por exemplo, além de sequer noticiar o que ocorria na decisão da Libertadores, a Globo optou por passar um filme hollywoodyano ao invés do confronto entre Gama e Santos, em Brasília, pela Copa do Brasil. Seria o futebol apenas um produto que compete, por exemplo, com o cinema comercial?

A resposta, para a emissora que monopoliza os direitos de transmissão do futebol nacional, é sim. No caso da Libertadores, é verdade, esses direitos pertencem à Fox Sports, que os cedem mediante negociação. Mas a Globo também não detém os direitos da Champions League, e transmite a partir da fase que a interessa.

Claro que na visão de mercado é muito mais interessante mostrar craques do quilate de Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi e Gareth Bale desfilando suas imagens multimilionárias pelos gramados perfeitos do velho continente. Mas é bom lembrar: a Globo o faz utilizando uma concessão pública. Sem contrapartida alguma, a emissora dá mostras cada vez mais sólidas de que o futebol, mais um produto em sua prateleira, só lhe serve se e quando for conveniente. Aos torcedores e apaixonados, resta a TV paga.

“Together Stronger (C’mon Wales)”

A banda Manic Street Preachers, durante a gravação do clipe ao lado dos atletas da seleção do País de Gales

A banda Manic Street Preachers, durante a gravação do clipe ao lado dos atletas da seleção do País de Gales

Hoje (06 de julho) a seleção do País de Gales pode fazer história e alcançar a grande decisão da Eurocopa. Basta para isso derrotar a seleção portuguesa de Cristiano Ronaldo, que ainda não perdeu, mas também não venceu nenhuma partida no tempo normal da competição.

Os galeses não participavam de um campeonato com essa importância desde o Mundial de 1958, disputado na Suécia, onde foram eliminados justamente pela seleção brasileira, perdendo por 1 a 0. O detalhe é que esse foi o primeiro gol na história das Copas marcado pelo então garoto, com 17 anos, Pelé.

A banda do País de Gales, Manic Street Preachers, que atingiu grande popularidade no Reino Unido durante os anos 90, no auge do “britpop”, compôs uma música para apoiar o selecionado do país na Euro desse ano. A banda, que já se apresentou em Cuba em 2001, com presença de Fidel Castro, contou com a presença dos jogares da seleção no clipe e a letra conta um pouco de todas as derrotas galesas no futebol de 1958 (a derrota frente ao Brasil), até a conquista da vaga para o torneio continental desse ano.

Confira o clipe da música “Together Stronger (C’mon Wales)”:

Atlanta de Villa Crespo

O bairro de Villa Crespo pintado com as cores do Club Atlético Atlanta - Foto: Thiago Cassis

O bairro de Villa Crespo pintado com as cores do Club Atlético Atlanta – Foto: Thiago Cassis

O Clube Atlético Atlanta foi fundado em 1904, e começou a disputar os campeonatos de futebol em 1906.

Depois de uma longa andança atrás de uma sede fixa, o que valeu ao clube apelido de “bohemios”, por acordar cada dia em um lugar, o Atlanta acabou criando raízes em Villa Crespo. Bairro conhecido por ser o, ou “um dos”, berços do tango, e por abrigar grande parte dos judeus que chegavam à Argentina, provenientes, principalmente, do leste europeu. Por isso também é chamado de “Villa Kreplaj”, em alusão ao prato da culinária asquenaze, que se assemelha ao ravióli italiano.

No período amador do futebol argentino, que durou até 1930, o Atlanta disputou sempre a primeira divisão, chegando a ficar em quarto lugar em 1920. Já no profissionalismo, a equipe repetiu o quarto lugar em 1958 e 1961, porém não disputa a primeira divisão desde 1984. Em 1969 chegou ao vice-campeonato da Copa Argentina, sendo derrotado pelo Boca Juniors na final.

A sede do clube de Buenos Aires na rua Humboldt, 540 (Foto: Thiago Cassis)

A sede do clube de Buenos Aires na rua Humboldt, 540 (Foto: Thiago Cassis)

Após a queda de Perón, o clube passou a ser perseguido pelas autoridades por suas fortes ligações com o justicialismo. Em 1955 o clube teve seu estádio fechado por más condições de manutenção, e segundo dirigentes e torcedores mais antigos do clube, outras equipes com condições semelhantes em suas canchas não sofreram a mesma punição.

O fato do clube estar sediado em um bairro de origem judaica também pode ter sido um dos motivos da perseguição, no mesmo período em que teve seu estádio interditado, eram distribuídos por Buenos Aires panfletos anti semitas por parte de grupos católicos nacionalistas de direita.

Atlanta e seu grande rival Chacarita Jrs. na mesa de pebolim do Café San Bernardo, Av. Corrientes 5436. (Foto: Thiago Cassis)

Atlanta e seu grande rival Chacarita Jrs. na mesa de pebolim do Café San Bernardo, Av. Corrientes 5436. (Foto: Thiago Cassis)

Depois da reforma, o estádio teve permissão para ser reaberto, mas o fechamento reacendeu um antigo sonho do Atlanta, ter um novo e maior estádio. Então em 1956, animado pelo retorno à Primeira Divisão, depois de quatro anos na segunda, o projeto do estádio é retomado. Em 1960 inauguram seu estádio.

Um dos grandes responsáveis pela construção do novo estádio e da nova sede, León Kolbovsky, presidiu o clube durante os principais anos do Atlanta, no final dos anos 50 e durante a década de 60. O presidente, membro da colônia judaica de Villa Crespo, era também um famoso militante comunista da capital argentina.

Partida entre Atlanta e Barracas Central pelo Campeonato Argentino da B Metropolina (Clausura 2016) no Estádio Don León Kolbowsky. Foto: Thiago Cassis

Partida entre Atlanta e Barracas Central pelo Campeonato Argentino da B Metropolina (Clausura 2016) no Estádio Don León Kolbowsky. Foto: Thiago Cassis

Hoje a equipe está na Primeira B Metropolitana, algo como a Série C no Brasil e o estádio hoje em dia se chama Don León Kolbovsky, em homenagem ao lendário presidente comunista do clube.

O Atlanta pelos muros de Vila Crespo

O Atlanta pelos muros de Vila Crespo (Foto: Thiago Cassis)

Andando pelas ruas de “Villa Kreplaj” é perceptível o quanto bairro veste as cores do clube. O que se repete em outros bairros de Buenos Aires, como Boedo com o San Lorenzo ou o Mataderos com o Nueva Chicago. Porque isso não acontece da mesma forma em São Paulo (apenas o Juventus, na Moóca, manteve essa relação com seu bairro de origem) é algo que pensei muito enquanto me deparava com os muros azuis e amarelos de Villa Crespo, mas isso é tema para outro texto.

Para saber mais sobre a história do bairro e do clube, "Los Bohemios de Villa Crespo" é uma ótima dica!

Para saber mais sobre a história do bairro e do clube, “Los Bohemios de Villa Crespo” é uma ótima dica!

E a Eurocopa conheceu a Islândia!

iceland

Nem só de Bjork, bons músicos, gêiseres e Aurora Boreal vive a Islândia.

Halldórsson, Sigurdsson, Sævarsson, Skúlason, Bjarnason, Árnason, Gunnarsson , Gudmundsson, Sigurdsson, Sigthórsson, Bödvarsson e o autor do gol da vitória, Traustason, que entrou no segundo tempo, foram a campo nesta quarta-feira (22) na cidade de Paris dispostos a fazer história.

Representando uma seleção com pouca tradição no futebol internacional, que disputa seu primeiro torneio importante (Copa do Mundo ou Eurocopa) e organizado pela Federação Islandesa de Futebol (KSI nas iniciais em islandês) fundada apenas em 1947, a equipe se classificou em segundo lugar do seu grupo nas eliminatórias, escapando da repescagem e deixando a poderosa Holanda pelo caminho.

Na Eurocopa de 2016, que está sendo disputada na França, a equipe teve a companhia de Portugal, Hungria e Áustria no grupo F. Empatou com a seleção de Cristiano Ronaldo na estreia. Novo empate contra a Hungria, quando estava ganhando e tomou o gol que igualou o marcador já no final da partida, e enfim, sua primeira vitória na história da competição, 2 a 1 sobre a Áustria e a tão sonhada vaga nas oitavas de final.

Difícil para nós brasileiros, que temos 5 estrelas na camisa, entendermos o tamanho da emoção pela conquista do resultado, o gol suado no final do jogo, o lugar na fase final, onde encontrará a tradicional Inglaterra, e para falar de rivalidade local, a única seleção escandinava a alcançar as oitavas na Eurocopa desse ano.

Mas fica fácil entender o tamanho do feito ao escutar a narração completamente emocionada do gol da primeira vitória e garantia da vaga nas oitavas através do narrador da TV islandesa, é impressionante!

Foi uma vitória e tanto para a história do futebol islandês. E a celebração com os islandeses que invadiram a França para assistir ao torneio não poderia ser diferente, no final da partida jogadores e torcedores bateram palmas de forma ritmada em um espetáculo de encher os olhos. (confira na imagem de destaque)

A Islândia vai em frente. Se não sobra habilidade, tem raça, força e disciplina tática o bastante para sonhar em passar pela, até aqui, inconstante Inglaterra.

E já que falamos de bons músicos da Islândia, fechamos com um clipe que une futebol, música e a luta contra a homofobia!

Sigur Rós…

 

A nova ordem do futebol

imagem destaque

A Copa América é a mais antiga competição entre seleções do mundo, iniciada com um torneio disputado entre Argentina, Brasil, Chile e Uruguai em 1916, celebrando o centenário da independência argentina. E para comemorar o centenário dessa tradicional competição, decidiram levá-la para fora da América do Sul pela primeira vez. O torneio “comemorativo” de 2016 será (está sendo) disputado no(s) Estados Unidos.

Não demorou para as criticas aparecerem. E os uruguaios pareceram os mais indignados.

O treinador do uruguaio, Óscar Tabárez, ainda antes do início da Copa América fez críticas a organização da competição, sobretudo as longas distâncias que os atletas precisam viajar dentro do território norte-americano, entre as partidas. O presidente da AUF (Asociación Uruguaya de Fútbol), Wilmar Valdez, afirma que foi um erro da parte da CONMEBOL (portanto da sua parte também) permitir que a Copa fosse nos Estados Unidos, e que este torneio está “armado para o México”.

A declaração do dirigente veio logo após a derrota de sua seleção para os mexicanos, após uma arbitragem no mínimo “polêmica” a favor dos mexicanos. E além da arbitragem, nem o hino da seleção uruguaia foi executado corretamente, acredite se quiser, mas os norte-americanos da organização do torneio tocaram o hino do Chile para o Uruguai.

A declaração pode ter sido feita no calor do momento, ou seja, logo após uma derrota na estreia. De qualquer forma deixa ainda mais claro o erro que é organizar um torneio desse modelo nos EUA, onde o futebol chama soccer, e passa longe de ser uma prioridade do público daquele país.

Errar o hino da seleção que foi campeã da primeira edição da Copa América é simbólico (assista aqui). E outros erros já aconteceram durante a competição. A bandeira boliviana foi apresentada no telão antes da partida contra o Panamá virada de cabeça para baixo, e a fornecedora de material esportivo da seleção colombiana distribuiu cartazes para divulgar a nova camisa da seleção com o nome do país escrito errado, Colômbia virou “Columbia”.

Para as marcas esportivas, que exercem um papel econômico central no atual formato do futebol mundial, é certamente interessante que a Eurocopa, o torneio continental europeu que ocorre desde 1960 uma vez a cada 4 anos, aconteça ao mesmo tempo da Copa América. Podem lançar os novos uniformes das seleções e planejar as ações de marketing de forma conjunta para os principais mercados futebolísticos.

Ao mesmo tempo, não podemos esquecer, que as recentes investigações dos EUA em relação aos negócios da FIFA, também sugerem um interesse maior daquele país no mercado do futebol mundial. Seria ingenuidade acreditar que os norte-americanos literalmente “entraram” na FIFA apenas por estarem preocupados em fazer justiça. Isso nos faz pensar que esse torneio pode ser um tubo de ensaio para uma possível competição mundial que os norte-americanos possam ter intenção de organizar em breve.

Em tempos de aprofundamento da intervenção norte-americana nos assuntos internos da política na América do Sul, não parece coincidência que o dinheiro gerado pelo futebol do continente volte a escorrer para os EUA. A ofensiva imperialista que tenta ressuscitar a derrotada ALCA, ataca também no esporte preferido dos sul-americanos, o futebol.

Plaza Colonia faz história no Uruguai

plaza campeão - foto de destaque

Fundado em 1917 e seguindo como clube amador até o ano 2000, o Plaza Colonia, que disputou a divisão principal pela primeira vez apenas em 2002, com Diego Aguirre como treinador, conquistou neste domingo (29) o título do torneio Clausura no Uruguai.

O Campeonato Uruguaio é dividido em duas partes. O Apertura e o Clausura. Para decidir o campeão, se enfrentam o campeão do Apertura contra o do Clausura. O vencedor desse confronto enfrenta o time que somou maior número de pontos no campeonato inteiro.

A conquista da equipe da cidade de Colonia do Sacramento, no sul do país, fez história no futebol uruguaio. O clube derrotou o tradicional Peñarol, no estádio do adversário, em Montevidéu, por 2 a 1 debaixo de chuva e ficou com a taça com uma rodada de antecipação.

O clube pratica uma política que vai no sentido contrário ao que vemos atualmente no futebol, em relação ao contrato de seus jogadores. Não aceita os famosos “empresários”, os atletas que negociam seus contratos diretamente, sem atravessadores. Dada a condição financeira do clube, alguns jogadores chegam a ter outros empregos para completar sua renda, e outros atletas vão treinar de bicicleta para economizar seus ganhos mensais.

Certamente, uma dessas lendas instantâneas do futebol. No começo do ano, para garantir o dinheiro para seguir com suas atividades o clube organizou uma “pollada”, que foi a preparação de 400 frangos para serem vendidos nas ruas pelos jogadores juvenis à população local.

Sobre o que faz a equipe ser tão unida, o treinador Eduardo Espinel afirmou ser por conta do “mate”. Os jogadores tem o costume de se encontrar para tomar mate, entre eles e também com torcedores e comissão técnica.

Com o título, que veio com um gol de pênalti já nos 15 minutos finais da partida, a equipe garantiu a vaga em um torneio internacional pela primeira vez em sua história. Disputará a Libertadores ou a Sul-Americana, dependendo de como terminar a decisão do campeonato uruguaio dessa temporada.

Villoldo comemora o gol que deu o título ao Plaza Colonia

Villoldo comemora o gol que deu o título ao Plaza Colonia

Chamado rapidamente de “Leicester” da América do Sul, o Plaza Colonia obteve uma conquista, dada as proporções das equipes e o grau de dificuldades que enfrentam, muito maior do que o, também importante, título da equipe inglesa.

Audax de Itápolis ou Velho Oeste do futebol

diniz audax

Desde o começo do “oba oba” em torno do clube empresa (retomando expressão muito usada nos anos 90) Audax Osasco as comparações com outros clubes “pequenos” foram inevitáveis. Inter de Limeira de 86, Bragantino de 90, até com a seleção de Camarões da copa de 90 equipararam a empresa de compra e venda de jogadores instalada na Grande São Paulo.

Bastou terminar o Campeonato Paulista de 2016, com o vice-campeonato, e sim, um bom futebol, apresentado pelo Audax para que esse romantismo em relação à equipe do interior fosse por água abaixo. Normalmente, por não estar na série A, nem B e também fora da série C, o clube de Osasco jogaria a série D. E vai jogar, lá estará o Audax constando na tabela da série D. Mas e os seus principais atletas, que ainda não foram vendidos e seu treinador? Eles não vão para a série D.

Como todo projeto que visa unicamente o lucro, sem preocupação absolutamente nenhuma com a torcida da equipe em Osasco, os empresários que comandam o Audax alojarão todos os seus “valores” em uma vitrine melhor. Sendo assim, em um acordo anunciado essa semana, o treinador Fernando Diniz e seus atletas migram para Itápolis e passam a vestir as cores do Oeste. Clube do interior paulista que disputará a série B esse ano. Torneio que tem transmissão da Sportv e conta com a participação de grandes clubes, como, por exemplo, o atual campeão carioca, Vasco da Gama.

O treinador Fernando Diniz, em entrevista recente, diz que não se trata de uma “manobra” e coloca a culpa na organização do futebol nacional,“no calendário do jeito que ele é feito, o time quase campeão, que foi vice-campeão (paulista) e jogou bem o campeonato para você ter algum atrativo para marca ficar em evidência… disputar a Série D fica muito distante do que foi o Campeonato Paulista”.

Concordo que o futebol brasileiro não está representado em sua diversidade no atual formato de campeonato nacional, que tenta se assemelhar aos padrões europeus, quando na verdade vivemos em um país continental. Mas fica clara outra realidade, que não chega a surpreender quem acompanha os bastidores do futebol brasileiro, quando o treinador revelação fala em “marca ficar em evidência”. É disso que se trata então? Sai abrindo filiais do Audax ou do Red Bull pelo Brasil afora, e rapidamente revender os jogadores para lucrar.

Que qualquer clube que invista na formação de um atleta, espera de alguma forma recuperar o valor investido e com algum lucro, faz parte do jogo. Mas chegamos a um novo patamar com a “locação” do Oeste por parte do Audax, e isso está implícito na fala do próprio treinador que está de malas prontas de Osasco para Itápolis. Resta saber onde isso vai parar e não é surpresa que tanto os novos torcedores e torcedoras de Osasco, Itápolis e tantas outras cidades, prefiram os sonolentos jogos da Champions League na TV, que também fazem parte do mesmo sistema, mas ao menos seus clubes reúnem os melhores atletas do planeta, do que vestir as “camisetas de aluguel” de seus clubes locais.