O primeiro Palmeiras x Corinthian (sem s)

A equipe da Associação Atlética das Palmeiras, em foto sem identificação do ano.

O ano era 1910. O dia era 31 de Agosto. Entrava em campo, o Palmeiras, atual campeão paulista na época, que vinha de uma vitória por 5 a 2 sobre o SPAC e construía então o caminho para o bi campeonato paulista.

O Palmeiras, com seu tradicional uniforme branco e preto, não conseguiu segurar os ingleses do Corinthian F.C, e terminaram o primeiro tempo perdendo por 2 a 0. Apesar de alguma pressão no segundo tempo, não conseguiram se aproximar no placar e a partida terminou com o mesmo score do primeiro tempo.

A forte equipe do bairro de Santa Cecilia, que mandava suas partidas no Parque Antártica, não conseguiu segurar os ingleses, que logo na sua chegada ao país, apenas uma semana antes, tinham passado por cima do Fluminense, no Rio de Janeiro, por 10 a 1.

Um dia depois, da partida entre Associação Atlética das Palmeiras e Corinthian F.C, da Inglaterra, era fundado, no bairro do Bom Retiro, o Sport Club Corinthians Paulista. Pequenos comerciantes influenciados pelo futebol da equipe inglesa, que resolveram batizar o novo clube com o mesmo nome, e que poderia ter se chamado Santos Dumont ou Bandeirantes F.C. Acabou chamando Corinthians e, por ironia do destino, carregando as cores do clube de Santa Cecilia, o Palmeiras.

A equipe inglesa do Corinthian F.C. em foto de 1897.

Hereford x Newcastle em 1972

A partida que era pra ser apenas mais um passo do Newcastle na busca por um título da Copa da Inglaterra,  a equipe já tinha 6 taças, quantidade que possui até hoje, e pegava o modesto Hereford United, que jogava na Southern League (uma espécie de quinta divisão), pela terceira etapa das eliminatórias do torneio mais antigo do mundo.

No dia 24 de janeiro de 1972, as equipes se enfrentaram em Newcastle, e um empate em 2×2, levou a partida para o que os ingleses chamam de “replay”, que é um segundo jogo para desempatar o embate. Mas dessa vez o jogo seria em Hereford, cidade localizada em Herefordshire, em uma região fronteiriça com o País de Galês onde ainda hoje boa parte dos habitantes fala galês.

A partida foi remarcada 3 vezes, e precisou ser cancelada nas 3 ocasiões por conta de fortes chuvas. Finalmente, no dia 5 de fevereiro de 1972, a bola rolou, ou quase isso, por conta do campo cheio de lama, em função das tempestades. O número oficial de público na partida é de 14,313, embora estima-se que mais de 16 mil pessoas estivessem presentes. A capacidade do estádio era 14 mil pessoas. Mas esses números de qualquer forma, não contabilizam as centenas de pessoas que assistiram das árvores e dos telhados ao redor de Edgar Street, como é chamado o campo do Hereford United.

O vídeo do jogo é sensacional. Não foi transmitido ao vivo, e sim em um programa da BBC, chamado “Match of the day”, que apresentava o “compacto”, ou os melhores momentos de algum jogo do final de semana.

O símbolo do Hereford em 1972

O Hereford jogou de camisas brancas e calções pretos, o Newcastle entrou com segundo uniforme da época, todo vermelho. A questão era apenas saber como a equipe do norte resolveria a questão e despacharia os donos da casa. E, apesar da dificuldade para abrir o placar, o atacante Malcolm Macdonald, parecia resolver a questão quando fez 1 a 0 para o Newcastle aos 37 do segundo tempo. Quem poderia acreditar em uma reação do Hereford?

Foi então que Ronnie Radford, aos 42 minutos, acertou de primeira um chute perfeito, e empatou a peleja. A reação dos torcedores locais é impressionante, e em poucos segundos o gramado estava completamente tomado por milhares de pessoas comemorando o gol.

Gol de empate com festa no gramado

Com a situação já controlada a partida seguiu para a prorrogação. No tempo extra, o inacreditável aconteceu aos 13 minutos do primeiro tempo, quando Ricky George, que tinha entrado no final do tempo regulamentar, recebeu uma bola no meio da área e bateu cruzado. Sem chances para o goleiro do Newcastle, Willie McFaul. Hereford 2 a 1. O Newcastle não teve forças para reagir e foi eliminado.

A partida, em 2007, foi eleita por leitores de um jornal britânico como a mais emocionante de todos os tempos na FA CUP, ou a Copa da Inglaterra.

O vídeo é realmente incrível e com direito a narração da época:

A história do pênalti que não foi cobrado

Capa do jornal Folha de SP um dia após o jogo polêmico

O Campeonato Paulista de 1981 tinha um regulamento muito complicado, tão complicado que nem tentarei perder tempo explicando (quem quiser entender melhor essa “pérola” dos regulamentos pode olhar aqui). Mas o jogo que nos interessa fazia parte da fase de classificação do segundo turno, no módulo vermelho daquela fase estavam Corinthians, Juventus, São José e Marília.

Faltavam duas rodadas para terminar o turno e a situação era a seguinte: Juventus em primeiro com 6 pontos, Corinthians em segundo com 5 pontos, São José em terceiro com 3 pontos e Marília na lanterna com 2 pontos. Apenas o primeiro se classificaria para a fase final daquela etapa do confuso campeonato.

Juventus e Corinthians fariam então pela penúltima rodada o que poderia ser o jogo decisivo para o Moleque Travesso, caso vencesse os corintianos no Pacaembu estaria classificado. Para o lado da equipe de Parque São Jorge, apenas a vitória interessava, o empate deixava o Juventus precisando de uma vitória simples na última rodada contra o Marília.

Os alvinegros abriram o placar, Geraldão empatou para os juventinos. Já no segundo tempo, Sócrates coloca o Corinthians de novo na frente. Geraldão, outra vez, faz o gol que manteria o Juventus na liderança. 2 x 2. Foi quando aos 46 minutos do segundo tempo, quando a festa juventina estava por começar e os corintianos já deixavam o estádio, o goleiro grená trombou com Socrátes na área, o jogador então desabou simulando uma falta, e o juiz, Emídio Marques de Mesquita, marca o pênalti inexistente. O gol colocaria então o Corinthians na liderança do grupo.

Os jogadores do Juventus se revoltam com árbitro e não deixam o Corinthians cobrar o pênalti. O capitão juventino, Deodoro informa que os juventinos não sairiam debaixo das traves e não permitiram a cobrança. Após aguardar 10 minutos, o árbitro desiste e encerra a partida. O Juventus não permitiu que a penalidade máxima inventada fosse cobrada. Nos dias seguintes a Federação Paulista deu os pontos pro Corinthians, que na última rodada venceu o São José e se classificou.

Essa história toda está no vídeo abaixo…

Dinamarca de 1992: roteiro de filme ou realidade?

Um time desacreditado, um treinador considerado apenas como quinta ou sexta opção, vítima de toda a antipatia possível da imprensa local e que assumiu a equipe poucos dias antes das eliminatórias para a Eurocopa de 1992. A história toda parece roteiro de filme, nada mais justo que fosse mesmo parar nas telas grandes…

A Dinamarca de 1992

A Dinamarca de 1992

Essa era a Dinamarca do início dos ano 90, que vivia sob a sombra do selecionado que encantou o mundo na Copa do Mundo de 1986 e tentava juntar os cacos para voltar a brilhar. Richard Møller Nielsen, o pragmático treinador, é o protagonista da história que acabou virando filme de tão épica que foi a saga da equipe.

Na fase de qualificação para o torneio, os dinamarqueses tiveram pela frente Ilhas Faroe, Irlanda do Norte, Áustria e Iugoslávia. Com um futebol mediano e muito desentendimento entre as principais estrelas, como os irmãos Laudrup, e o treinador, a seleção não conseguiu a vaga para a Eurocopa. Caiu frente à fortíssima seleção iugoslava.

Enquanto isso estourava e se intensificava o conflito onde depois de algum tempo seria a ex-Iugoslávia. A seleção iugoslava já estava em território sueco, sede da Euro de 92, quando veio a determinação de que a equipe estava proibida de disputar a competição como punição pelo conflito. Nesse momento, a decisão é de que a segunda colocada do grupo da Iugoslávia nas eliminatórias seria convidada. E lá foi a Dinamarca para o país vizinho. Richard Møller Nielsen teve dez dias para convocar sua seleção e se preparar. Michael Laudrup, estrela do Barcelona não quis jogar, seu irmão Brian, decidiu ir. Peter Schmeichel, goleiro do Manchester United na época, era outro grande astro da equipe.

Na estreia um empate de 0 a 0 contra a Inglaterra, e na sequência uma derrota de 1 a 0 para a Suécia, deixaram a Dinamarca precisando de um verdadeiro milagre no último jogo, contra a França, para se classificar. Nesse momento o meio campista titular, Kim Vilfort, ficou sabendo que o câncer de sua filha tinha piorado, abandona a equipe e volta para a Dinamarca. De alguma forma o fato une ainda mais o time, e com uma vitória de 2 a 1, com gol no final, os dinamarqueses conseguiram o que parecia impossível: estavam nas semifinais.

A filha de Vilfort, durante o tratamento, pediu que ele voltasse a jogar, e para atender o desejo da pequena, ele entrou em campo no duelo contra os então campeões europeus, os poderosos holandeses, de Gullit, Van Basten, Koeman, Bergkamp e Rijkaard. Uma seleção praticamente imbatível. Larsen abriu o placar para a Dinamarca, o jovem Bergkamp empatou, Larsen mais uma vez colocou os dinamarqueses na frente. Mas faltando apenas 4 minutos, Rijkaard, deixa tudo igual novamente, a decisão seria por pênaltis. Apenas um jogador desperdiçou sua cobrança, um dos melhores atacantes de todos os tempos, Van Basten. A Dinamarca estava na final!

Pelo caminho a atual campeã do mundo, a Alemanha, a essa altura já unificada. Mas com raça de sobra e muita aplicação em campo, os dinamarqueses bateram os alemães por 2 a 0. Eram campeões, com direito a um gol de Vilfort, que dias depois perdia sua filha para o câncer. Mas no dia o que se viu foi uma das maiores comemorações da história do futebol. A Dinamarca era campeã europeia. (Um detalhe curioso é que durante a final um festival de música na Dinamarca com a participação da banda Nirvana foi interrompido para que os dinamarqueses assistissem a partida em um telão)

Jogadores incrédulos! A Dinamarca acabava de fazer o segundo gol na final contra a Alemanha.

Jogadores incrédulos! A Dinamarca acabava de fazer o segundo gol na final contra a Alemanha.

Para quem quiser assistir a saga, a dica é o filme Verão de 92 (Sommeren’92). Excelente produção, disponível no Netflix, que narra os feitos daquela seleção que conquistou a Europa e certamente a simpatia de todos os que amam o futebol.

Verão de 92, um filme para quem quiser conhecer a épica conquista da Dinamarca.

Verão de 92, um filme para quem quiser conhecer a épica conquista da Dinamarca.

Os donos da bola?

atletiba-foto

No começo eram só homens correndo atrás da bola. Depois dividiram em onze pra cada lado e passaram a usar uniformes pra distinguir seus jogadores. E então vieram federações para organizar o jogo com regras e campeonatos. A torcida, fiéis seguidores dos chutadores de bola, não parava de aumentar e logo, com o passar do tempo, o rádio se tornou um importante difusor das emoções que aconteciam dentro das 4 linhas. E assim o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo.

Mais de 100 anos depois de Charles Miller dar seus primeiros pontapés na redonda em terras brasileiras, nosso povo ainda é apaixonado pelo drible e pela bola estufando a rede. De Norte a Sul do país, a cada final de semana, uma legião de fanáticos lota as arquibancadas, ou os confortáveis e frios assentos das arenas, para esperar por um punhado de bom futebol, ou ao menos um golzinho de seu clube, mesmo que sem uma apresentação vistosa.

Mas no meio do caminho tinha a Rede Globo. Poderoso veículo de comunicação que crava sua marca, na busca por lucros e por seus interesses políticos, em quase todos os âmbitos da vida de nosso país. De eleições e golpes, a criação de identidades e preconceitos, lá está a Globo com suas cordas invisíveis a manipular a história do Brasil como se fossemos um ventríloquo. No futebol não poderia ser diferente.

Através de sua “telinha” ela convenceu grande parte da população de que “Globo e você, tudo a ver!”, e transbordou os aparelhos televisores de nossa gente com o Flamengo de Zico e companhia nos anos 80, de Leste a Oeste do país, não importando se cada estado já tenha seus grandes e tradicionais clubes. Os campeonatos paulista e carioca eram introduzidos à força em cada canto do Brasil.

E tudo seguia seu rumo, a Globo mandando, os clubes obedecendo, as federações sendo praticamente escritórios da poderosa empresa de comunicação. Até que no dia 19 de fevereiro de 2017, Coritiba e Atlético-PR, ambos campeões brasileiros, e as duas maiores forças do futebol paranaense, insatisfeitos com a oferta da Globo para exibir o famoso Atletiba, resolveram exibir o jogo pelo YouTube, de forma gratuita. Um teste, nas palavras de seus dirigentes, para explorar uma nova forma de transmissão disponível.

Mas mesmo com o estádio lotado e a transmissão funcionando normalmente, a Federação Paranaense decide impedir o início do jogo. Estava lá a bola, os onze de cada lado, com seus uniformes distintos, os juízes para que as regras fossem cumpridas e os torcedores – que pagaram caro por seus ingressos. Se estava tudo que é necessário para uma boa partida de futebol, por que a bola não podia rolar? Porque no Brasil, antes da bola, acima dos clubes e jogadores e sem a mínima preocupação com os torcedores, que aliás vivem tendo sua festa criminalizada, existe a Globo. Sem a Globo, não tem futebol. Se a Globo não quer nem democracia temos no país.

O que talvez a emissora não esperasse é que os clubes seriam corajosos, e já que não podiam transmitir sua peleja como bem entendessem, não jogariam e ponto final. E assim foi, com direito a saudações dos atletas para a torcida que berrou “vergonha!” para o circo armado pela Federação.

A bola não rolou, mas quem sabe um tijolo importante tenha sido colocado no muro de resistência contra o Império Global. Afinal, quem construiu o futebol, o povo brasileiro ou a Rede Globo? Que mais clubes tenham força e coragem para se juntar a esta luta.

Os mitos de Tucumán – Por Guadalupe Carniel*

tucuman

Tucumán é uma cidade cheia de lendas e mitos. Alguns mitos e lendas são reais, como no caso da mais famosa cantora nascida lá, Mercedes Sosa. Mas talvez nem ela, patriota que só (afinal nasceu na casa onde foi declarada a Independência da Argentina), conseguiria fazer uma letra que retratasse tão bem o que aconteceu com o Atlético Tucumán.

A Libertadores começou faz duas semanas com o seu formato inchado. E claro, apesar de tentar adotar o modelo europeu, existe algo nessas terras latinas que nos torna únicos: somos os reis do drama. Sabe aquilo de que nada vai dar certo, mas não tem como desistir? Foi assim que o Atlético Tucumán conseguiu epicamente passar pelo Nacional em Quito por 1-0 para a próxima fase quando jogará contra o Junior Barranquilla.

E claro, quem gosta de Libertadores prefere ver os jogos de equipes consideradas menores. É legal ver time grande? Ok. Mas nada como ver um jogo entre Carabobo e Junior Barranquilla. Ou entre Atlético Tucumán e El Nacional. Esse jogo tirou o fôlego de todos e boa parte se passou fora de campo.

Cerca de quatro horas antes da peleja começou o drama. A equipe que estava em Guaiaquil decidiu viajar na hora da partida já que muitos jogadores passam mal devido a altitude de Quito. Só que a empresa chilena que ia levar o time não tinha autorização para realizar voos domésticos. Então, a solução foi arrumar outro avião. E conseguiram, só que 40 minutos antes da partida começar. Mas não couberam todos, cerca de 120 hinchas e até o presidente ficaram de fora.

O estipulado, pelo regulamento do torneio, era para que o Nacional esperasse 45 minutos após o horário previsto para o início do jogo e que, segundo seus dirigentes, deveria ser cumprida já que, por exemplo, a equipe equatoriana chegou três dias antes em Tucumán para a partida de ida. O tempo passou e o avião chegou em Quito 15 minutos antes da partida. Enquanto o Atlético voava, um ônibus escoltado já os esperava na pista. A 130 quilômetros por hora o ônibus foi em direção ao estádio. Ah isso sem contar o embaixador argentino no Equador que clamou que esperassem e que largassem de lado o regulamento “Que no me rompan las bolas! Que jueguen por el pueblo y el gobierno argentino!”.

Mas Mario Avila, dirigente do Tucumán tratou de acalmar os ânimos do Nacional e decidiram esperar já que não foi um problema do clube. Com 54 minutos de atraso a equipe chegou. Só que havia um porém: como não puderam despachar as malas pegaram um uniforme emprestado de ninguém menos do que a seleção. Sim, a da Sub-20, mas e daí? Quando esses jogadores teriam a oportunidade de jogar com a camisa de seu país? E outra, essa era a cor clássica da equipe de Tucumán. Meia hora depois entraram em campo.

Ah, a partida? Diante de 30 mil pessoas em Atahualpa, o Atlético foi copeiro, ditou o ritmo, manteve o controle e estava bem organizado (apesar da total falta de organização fora de campo). Com um gol de cabeça de Zampedri o Atlético se classificou nos temíveis 2.900 metros de Quito. Depois dessa partida, os torcedores que ficaram presos em Guaiaquil e outros lugares pelo caminho, puderam comemorar. Até Maradona, considerado Deus, se rendeu ao feitos da equipe. Inclusive nesse momento la Negrita, Mercedes Sosa, deve estar feliz comemorando e já deve estar tentando escrever uma letra a altura do Tucumán.

*Jornalista, pesquisadora e autora do blog www.mortesubitafc.wordpress.com

 

Cenas do antigo futebol inglês

Em tempos de campeonato inglês com quase nenhum jogador da Inglaterra no campo, clubes que emergem de anos na segunda divisão para figurar entre os maiores do mundo com rios de dinheiro por trás, como o Manchester City, e onde torcedores assistem partidas de futebol da mesma forma que peças de teatro, o livro de fotos “Football – The Golden Age”, apresenta quase um outro esporte. Como a própria publicação traz em sua capa, “imagens extraordinárias de 1900 até 1985”.

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Como o próprio organizador do livro, John Tennant, afirma em sua apresentação, trata-se de um tempo onde fotógrafos iam para o campo com 10 fotos disponíveis para o jogo todo. E acredito que ter a opção de tirar mais de 10 fotos por conta do avanço da tecnologia não seja necessariamente um problema, embora eu realmente ache que assistir futebol da forma como se assiste um filme no cinema realmente não combine. O outro texto de apresentação da obra ficou a cargo de Rodney Marsh, atacante que começou no Fulham, mas que marcou a maior parte de seus gols no Queens Park Rangers.

Tennant ainda aponta em sua breve apresentação que o livro vai além de gols no último minuto e resultados das partidas, as imagens apresentam o futebol inglês do século passado e as pessoas que davam brilho e tornavam o esporte o mais popular do país.

Publicação, com 370 páginas de fotos, mais do que recomendada para quem ama futebol, e sim, sem querer ser romântico, para quem sente falta de arquibancadas de concreto e áreas do goleiro enlamaçadas… Abaixo reproduzo apenas algumas das incríveis imagens do livro.

Webbers, fabricante de bolas de Londres, em 1950.

Webbers, fabricante de bolas de Londres, em 1950.

Torcedores do Arsenal, fevereiro de 1936

Torcedores do Arsenal, fevereiro de 1936

Equipe do Maldon Ladies Football Club entra em campo para mais uma partida em novembro de 1953.

Equipe do Maldon Ladies Football Club entra em campo para mais uma partida em novembro de 1953.

O responsável pelo fardamento do Portsmouth, Bill Wright, prepara as chuteiras da equipe em dezembro de 1952.

O responsável pelo fardamento do Portsmouth, Bill Wright, prepara as chuteiras da equipe em dezembro de 1952.

Torcedores do Tottenham Hotspur protestam contra o reduzido número de ingressos recebidos pela torcida para a final da FA Cup contra Burnley em abril de 1962.

Torcedores do Tottenham Hotspur protestam contra o reduzido número de ingressos recebidos pela torcida para a final da FA Cup contra Burnley em abril de 1962.

Torcedores lotam as arquibancadas para assistir a partida entre Cardiff City e Chelsea em março de 1921.

Torcedores lotam as arquibancadas para assistir a partida entre Cardiff City e Chelsea em março de 1921.

Torcedor do Manchester United escala as paredes do Wembley para tentar assistir a final da European Cup entre sua equipe e o Benfica em maio de 1968.

Torcedor do Manchester United escala as paredes do Wembley para tentar assistir a final da European Cup entre sua equipe e o Benfica em maio de 1968.

Torcedores na fila em busca de ingressos para o amistoso entre Arsenal e Dynamo Moscou que aconteceu no White Hart Lane, estádio do rival do Arsenal o Tottenham. O Highbury, estádio do Arsenal ainda servia para as Forças Armadas do Reino Unido durante a Segunda Grande Guerra. A foto é de maio de 1945.

Torcedores na fila em busca de ingressos para o amistoso entre Arsenal e Dynamo Moscou que aconteceu no White Hart Lane, estádio do rival do Arsenal o Tottenham. O Highbury, estádio do Arsenal ainda servia para as Forças Armadas do Reino Unido durante a Segunda Grande Guerra. A foto é de maio de 1945.

Futebol de rua em Londres. Abril de 1950.

Futebol de rua em Londres. Abril de 1950.

O beatle, Paul MacCartney, chega ao estádio de Wembley para assistir o seu clube, o Everton, enfrentar o West Bromwich Albion pela final da FA Cup. Foto de maio de 1968.

O beatle, Paul MacCartney, chega ao estádio de Wembley para assistir o seu clube, o Everton, enfrentar o West Bromwich Albion pela final da FA Cup. Foto de maio de 1968.

Miss Miller, treinadora de futebol do Crawley Downs Church School, em Surrey, prepara sua equipe. Foto de setembro de 1931.

Miss Miller, treinadora de futebol do Crawley Downs Church School, em Surrey, prepara sua equipe. Foto de setembro de 1931.

Jogadoras da Inglaterra e da França se cumprimentam antes da partida entre as seleções. Maio de 1925

Jogadoras da Inglaterra e da França se cumprimentam antes da partida entre as seleções. Maio de 1925

O futebol brasileiro não cabe em uma arena

O time já estava rebaixado para a Série C. Pela frente a equipe campeã do certame. Essa era a sinopse da partida entre Sampaio Corrêa x Atlético-GO, no último sábado (19), realizada na cidade de São Luís, Maranhão, e válida pela penúltima rodada da Série B de 2016.

Ingresso custando 10 reais. Povo nas arquibancadas. Estádio um tanto vazio, é verdade, assim como seria em qualquer outro jogo de um clube que já está matematicamente rebaixado para a Série C.

Mas o que mais me chama atenção é que o clima no estádio remete a uma experiência já quase extinta nas “arenas” de São Paulo. Quem frequenta jogos de futebol a algum tempo, de preferência de 2003 para trás (ano escolhido um pouco a esmo mas que marca nosso início dos pontos corridos e a inundação de termos como “planejamento” e “gestão” nos nossos noticiários esportivos) vai concordar que algo que costumávamos encontrar, já não encontramos mais. E não são apenas as bandeiras e cores, que começaram a ser caçados no estado de São Paulo em meados dos anos 1990, falo sobre a presença de pessoas que nos faziam torcer ainda mais pelo time dentro do campo, de olhos simples brilhando e de uma certa mística entre esses seres e o jogo lá embaixo.

A camisa já descolorida de 8 anos atrás, que nem sempre era sinal de falta de dinheiro para ter uma nova e muitas vezes era superstição, era o manto que foi usado na conquista de algum título importante, ou em uma virada emblemática, os amendoins arremessados pelos vendedores (pelo menos uma dúzia você conseguia de graça), a cerveja (hoje banida nos estádios nos jogos na capital paulista), os debates acirrados nas arquibancadas acerca daquele lateral que só o técnico entende o que faz ali dentro do campo, aquele senta, levanta, senta, e depois de um determinado momento do jogo, todo mundo em pé até o fim, cabeceando cada bola com o zagueiro ao mesmo tempo que o ouvido estava colado no radinho de pilha para saber se aquele rival estava perdendo para deixar o dia ainda mais feliz. Poderia continuar desfilando nostalgia. Enfileirando memórias românticas sobre um futebol que se transforma rapidamente em outra coisa… Mas fato é que encontrei todos os elementos “escalados” no início do parágrafo lá em São Luís.

Torcedores do River do Piauí

Torcedores do River do Piauí

É fácil encontrarmos termos como “o futebol respira” hoje em dia na imprensa “alternativa” sobre o esporte, sempre que vai se fazer referência a qualquer coisa de fora do mundo das arenas. Mas isso acaba dizendo mais sobre quem escreve a expressão, em relação a que tipo de jogo assiste, do que propriamente ao futebol existente no país. O Brasil é enorme, em cada canto do nosso território tem um time, tem bola rolando nas ruas, tem a criançada com suas camisas do Sampaio Corrêa por exemplo, não deixando que a mídia hegemônica que cada vez mais polariza o futebol brasileiro, se coloque entre sua paixão pelo seu time de coração e pela bola.

Isso não tem a ver com o torneio que o time disputa, isso não tem a ver com o fato de o clube já estar ou não rebaixado como no caso do jogo que inspirou esse texto. Isso tem a ver com o povo brasileiro e o futebol. E ai meus amigos, não tem federação, televisão, arenas com ingressos excludentes de tão caros que vá conseguir acabar. A luta é essa. A luta dos que amam o futebol e se arrepiam ao ver meninas e meninos correndo atrás de uma bola Brasil adentro é fazer com que essas pelotas, nem sempre redondas, continuem levantando poeira pelas ruas não asfaltadas do nosso país, é fazer com que os senhores com seus rádios de pilha continuem discutindo o porque do centroavante não ter batido aquela bola de primeira. É não deixar que uma emissora de TV, por exemplo, consiga colocar toda beleza e diversidade da relação de nosso povo com o futebol em uma caixa que só cabem 20 camisas das capitais mais ricas.

Um Trem de Alegria contra a censura da ditadura

Censura. No dicionário censura é: 1.ato ou efeito de censurar. 2. análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., ger. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.

O Trem da Alegria, seleção de música e futebol.

O Trem da Alegria, seleção de música e futebol.

Com esse substantivo explicado, vamos ao tema central do texto, o documentário “Trem da Alegria – Arte, Futebol e Ofício”, com direção de Francis Vale.

Com pouco mais de 80 minutos o filme conta a história da equipe de futebol idealizada por Afonso Celso Garcia Reis, o ex-jogador de futebol, Afonsinho, 69 anos de idade. O nome, Trem da Alegria, segundo o próprio Afonsinho, neto de ferroviários que hoje é médico na Ilha de Paquetá no Rio de Janeiro, é uma homenagem à Garrincha, a “alegria do povo”. O time misturava músicos, jogadores profissionais (muitas vezes sem clube), “atletas de fim de semana”, poetas e quem mais se aproximasse com disposição para compor o elenco do Trem.

Era futebol com música ou música com futebol? A pergunta não precisa ter resposta. Fato é que a mistura deu certo e os que puderam participar afirmam por mais de uma vez durante o filme que aquele foi o “melhor momento de suas vidas”, embora os tempos fossem difíceis. O diretor Francis Vale conta que “Afonso começou a agregar vários jogadores. Ou porque não tinha clube ou porque estavam em fim de carreira, isso incluiu também o Garrincha”.

A ideia surgiu em 1975, a partir de um show com direito a partida de futebol disputada na USP. Paulinho da Viola conta com detalhes sobre esse evento durante o documentário. Mas a equipe só estreou mesmo com o nome de Trem da Alegria no dia primeiro de maio de 1976, em um jogo organizado por uma Usina em Sertãozinho (interior de São Paulo), e a partir dai começam a rodar o Brasil.

Afonsinho em atividade pelo Santos.

Afonsinho em atividade pelo Santos.

“Era um momento em que estava tudo disperso por conta da ditadura, todo mundo com medo de se aproximar, o time funcionou como um aglutinador. A experiência do Trem deixa essa mensagem de se agregar, de se juntar, para de alguma forma resistir à opressão”, relembra Vale, e continua, “em relação à política não existia uma coisa explícita, estávamos na ditadura, mas aparecia nos papos que rolavam na mesa do bar, depois dos jogos”.

Fagner, Moraes Moreira, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, todos eles jogaram bola com a camisa do time. Afonsinho, Ney Conceição (que também atuou no Botafogo-RJ) e até o Garrincha, todos eles também tentaram arranhar algum instrumento antes e depois das partidas. Registros? Quase nada, a repetição de poucas fotos e recortes de jornal durante o documentário parecem reforçar a todo momento a sombra da censura dos anos de chumbo que pairava sobre a aparente liberdade dos que participavam do Trem da Alegria. “Até o João Gilberto andou por ali”, comenta Francis.

A participação de um dos maiores jogadores de todos os tempos, Garrincha, chama atenção, e sobre isso o diretor conta que “juntou um pessoal e foram lá chamar o Garrincha na casa dele pra ser o técnico, e ai ele falou: ‘técnico não, eu quero jogar, a camisa 7 é minha’ e lá foi ele jogar”. Sobre a organização, um certo improviso é mantido desde o início das atividades, “o Trem, que tem o hino composto pelo João Nogueira, até hoje não tem nenhuma ata, não tem diretoria não tem nada, o Afonso pegava a agenda ligava para quatro pessoas, que ligavam pra mais quatro e de repente estava formado o time”, recorda Francis.

“O filme busca trazer à tona a discussão sobre a estrutura do futebol, temos a herança da ditadura ainda muito presente no futebol brasileiro. Ainda são os mesmos dirigentes, foram buscar um presidente militar para a CBF durante a Copa”, aponta Francis Vale.

Afonsinho e Sócrates tomando uma cerveja

Afonsinho e Sócrates tomando uma cerveja

O diretor ainda comenta que muitas iniciativas dentro do futebol tiveram influência do projeto de Afonsinho, como por exemplo “o movimento do Sócrates no Corinthians, a Democracia Corintiana”. Não por acaso, após a morte do ex-jogador e também médico, Sócrates, Afonsinho substituiu o “doutor” como colunista na revista Carta Capital.

O documentário será exibido na 40ª Mostra de Cinema de São Paulo desse ano na próxima segunda-feira (31), às 15 horas no Cinesesc, localizado na Rua Augusta.

E para quem quiser conferir pessoalmente e jogar uma partida com o Trem da Alegria, Francis dá a dica “no dia primeiro de maio, todos os anos, tem uma festa lá em Paquetá”. Em tempos de luta pela democracia, o Trem continua a rodar!

Entrevista: Emanuel Leite Jr. e as cotas de TV no futebol brasileiro

Batemos um papo com Emanuel Leite Jr., autor do livro “Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro: apartheid futebolístico e risco de espanholização”. O livro aborda a distribuição dos recursos dos contratos de venda dos direitos de transmissão televisiva do Campeonato Brasileiro de futebol – as chamadas “cotas de TV”. O material teve origem durantes os estudos de Emanuel. Foi produzido para sua monografia em Direito e seu conteúdo serviu de base para os projetos de lei 7681/2014 e 755/2015.

cotas livro

Pelota de Trapo: Quando comparamos nosso modelo aos modelos europeus, como lidar com a questão da diferença territorial do Brasil em relação ao tamanho dos países europeus? A comparação mais viável não seria entre os estaduais e os nacionais da Europa?

Emanuel Leite Jr.: Eu entendo que são duas questões que precisam ser pensadas paralelamente. O futebol brasileiro se tornou o que é hoje graças aos campeonatos estaduais e suas rivalidades. Como expressão de manifestação cultural, o futebol mantém uma relação intrínseca com o meio social em que se encontra inserido. Mais do que qualquer outro esporte, o futebol traz em sua essência a capacidade única da representação simbólica, constituindo alicerce na construção de conceitos de nacionalismo, regionalismo e até mesmo bairrismos. O futebol tanto é capaz de reforçar a unidade social, quanto de acirrar as rivalidades.

Foram as rivalidades que ao longo da história fizeram do futebol um esporte tão popular. Foi por questões regionais que Manchester United e Liverpool se tornaram os maiores rivais na Inglaterra. Foi por questões bairristas que o futebol se entranhou nas camadas populares de Londres. O Brasil, naturalmente, não ficou alheio a este fenômeno. Temos o GreNal, o dérbi paulistano, Fla-Flu, Cruzeiro x Atlético, Clássico das Multidões em Pernambuco, BaVi, RePa, para citar apenas algumas das paixões que mais fazem pulsar o nosso futebol.

A questão que precisa ser feita é: acabar com a rivalidade local interessa a quem? Acabar com estaduais é a mesma coisa que extinguir o pequeno comércio, servindo apenas aos interesses de shoppings e hipermercados. Para quem serve ter, no máximo, 10 times com projeção nacional? Pior, a quem interessa ter essencialmente times do Rio e de São Paulo com projeção nacional? A quem interessa acabar com a diversidade cultural do Brasil?

Voltamos, então, à questão de, como expressão de manifestação cultural que é, o futebol manter esta relação intrínseca com o meio social em que se encontra inserido. O futebol reflete, portanto, a sua realidade social, política e econômica. Nós, infelizmente, vivemos em um país de profundas desigualdades sociais, econômicas, raciais e de gênero. Vivemos um país dominado por uma elite excludente, que vê no processo de inclusão de um excluído não algo benéfico ao todo social, mas como uma ameaça aos seus poderes e privilégios estabelecidos.

Nós somos um país com território de dimensões continentais. Qual outro país se assemelha a nós neste sentido? Os Estados Unidos, com seu território continental e dividido em estados. E como se dá a divisão das competições norte-americanas (aqui em sentido amplo, pois os canadenses também participam)? São regionalizadas. O primeiro campeonato nacional do Brasil também era regionalizado: a Taça Brasil.

Todos os campeões estaduais disputavam a Taça Brasil, divididos em etapas regionais. Por conta da força do futebol do Rio de Janeiro e São Paulo, cariocas e paulistas entravam em fases mais avançadas. Porém, os clubes das demais regiões tinham a possibilidade de disputar a semifinal.

Não à toa, o nordestino Bahia foi o primeiro Campeão Brasileiro, batendo o Santos de Pelé em 1959. O tricolor baiano ainda viria a ser vice-campeão duas vezes: 1961 e 1963. O Fortaleza foi vice em 1960 e 1968. O Náutico em 1967. O alvirrubro pernambucano ainda seria terceiro colocado três vezes. O Ceará ficou no pódio uma vez. Por três ocasiões, houve dois semifinalistas nordestinos.

E o que aconteceu depois? Primeiro veio a Taça Roberto Gomes Pedrosa, uma ampliação da Rio-São Paulo: nenhum nordestino disputou a semifinal em suas quatro edições. E, na sequência, o Campeonato Brasileiro em 1971. Desde 1971, o Sport foi campeão em 1987, o Bahia em 1988 e o Vitória vice em 1992. Quantas vezes um clube do N/NE/CO ficou entre os quatro primeiros do Brasileirão? Apenas nove. Contra 12 nos tempos da regionalizada Taça Brasil.

Parece-me, portanto, evidente que houve uma concentração excludente na lógica do futebol brasileiro. Exclusão regional que reflete, por infeliz coincidência, a desigualdade social e regional que assola o nosso país. Algo que abordo no meu livro. A luta por cotas de TV justas como forma de fazer cumprir um princípio fundamental do Estado brasileiro: reduzir as desigualdades sociais e regionais (art. 3º, III, CF/88).

É impossível termos um futebol forte quando se pensa apenas na superestrutura e se esquece de toda a base que deveria dar alicerce à infraestrutura. E a base do futebol brasileiro passa pelos estaduais. E, portanto, são duas causas que devem ser travadas juntas: a manutenção dos estaduais e a luta por cotas de TV justas, como forma de fortalecerem os clubes do país.
O Clube dos 13 foi um primeiro passo no sentido de abrir um abismo estrutural entre os clubes brasileiros?

O Clube dos Treze surgiu como uma ideia de contraposição dos clubes aos desmandos da CBF, que tanto prejudicavam o futebol nacional. Na teoria, uma iniciativa que se apresentava como benéfica, no sentido de procurar quebrar os paradigmas do futebol brasileiro, dominado por uma cúpula institucional que se mostrava incapaz de desenvolver o esporte no país. Era uma tentativa de os clubes tomarem para si as rédeas do futebol. Como uma liga de clubes. Ideia salutar, portanto.

Infelizmente, aquela entidade privada instituída em 1987 já nasceu partindo de uma premissa deturpada. Logo no artigo 1º do seu estatuto a associação se autodenominava “União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro”. Ou seja, já surgia com uma visão elitista e segregadora, procurando separar os seus membros dos demais clubes nacionais a partir do “mérito” da “grandeza”.

O privilégio aos clubes associados ao Clube dos Treze evidenciava este segregacionismo, posto que o seu estatuto, na alínea “a” do art. 6º era expresso: “são atribuições da Associação, para atingir seus objetivos: a) – promover e responsabilizar-se pela defesa dos interesses comuns dos associados.”

Era uma reforma que se propunha a ser feita do topo e para o topo. Quando a reestruturação do futebol nacional só poderá ser conseguida se se der a partir da base. Do todo e não de um seleto grupo.

O Clube dos Treze sempre teve por finalidade precípua a defesa e a promoção dos interesses de seus associados, ou seja, dos vinte clubes que o constituía. Por isso, quando repartia os recursos entre os clubes participantes do campeonato brasileiro, o Clube dos Treze agia sem critérios de equidade, priorizando os seus associados em desproveito das demais associações esportivas as quais não faziam parte de seu seleto grupo. Bem como todas as viradas de mesa que aconteceram após sua constituição, que sempre visavam a resgatar os seus membros (todos fundadores, frise-se, pois internamente havia uma divisão de castas).

Neste sentido, com esta visão oligárquica, o Clube dos Treze teve enorme contributo no aprofundamento do abismo estrutural entre os clubes brasileiros, promovendo o “apartheid futebolístico”, criando um seleto grupo de “incluídos” em detrimento dos milhares de clubes “excluídos”.

O que mudou do tempo das “viradas de mesa” dos Clube dos 13 para os tempos atuais?

O estabelecimento do Estatuto do Torcedor (Lei 10.671/03) trouxe como benefício o fim das viradas de mesa. Mas, por não tratar do tema (que é da esfera da Lei Pelé), não foi capaz de impedir que a implosão do Clube dos Treze se transformasse numa caminhada rumo à adoção de uma lógica mais coletiva e equânime no futebol nacional. O Clube dos Treze deixou de existir, mas no seu vácuo se aprofundou o individualismo. E a disputa egoísta dos grandes pela concentração do poder fere o espírito desportivo em seu âmago. Isso porque a enorme e injustificável desigualdade nas receitas televisivas são o prenúncio do fim da competitividade desportiva. Uma relação que se perfaz injusta. Afinal, devemos entender igualdade como justiça. E, desde os gregos antigos, igualdade se confunde com democracia.
Você acredita que a maior audiência de um determinado clube se dá justamente pela sua maior exposição? Por exemplo, o Corinthians e o Flamengo tem grandes audiências justamente por terem suas partidas exibidas constantemente?

É como eu questionei anteriormente. A quem interessa que existam poucos clubes de projeção nacional? De que forma a exposição maciça e constante de apenas alguns clubes torna invisível todos os outros? E, aí, entramos no ciclo viciante… O clube que é mais exposto, tem maior visibilidade, atinge um público mais abrangente, tem maior renovação de torcedores (hoje tratados como meros consumidores na lógica do mercado).

Não é por acaso que clubes tradicionais ingleses como Tottenham, Newcastle, Aston Villa (estes dois últimos foram rebaixados na temporada 2015/16) tanto reclamam das detentoras dos direitos de transmissão da Premier League, que sempre priorizam Man United, Liverpool, Chelsea, Arsenal e Man City. Principalmente porque lá as transmissões dos jogos são responsáveis pela distribuição de 25% do valor total vendido no mercado interno (os valores do mercado internacional são divididos de forma igualitária entre todos).

Esse é um ponto muito interessante que, em minha opinião, mereceria um estudo exclusivo. Uma pesquisa que procurasse entender de que forma (ou o quão profunda) a relação cíclica desta exposição midiática influencia na manutenção das relações de poder. Pierre Bourdieu já nos ensinou que em um campo se encontram relações de poder, o que implica dizer que há desigualdade e que dentro de cada campo existem lutas entre aqueles que pretendem garantir sua participação e a classe dominante que busca manter a ordem e a sua supremacia.
Para que pudéssemos ter um campeonato realmente competitivo, com igualdade de condições entre todos os clubes participantes, você acredita que uma regulação em relação aos valores de patrocínio devesse existir também? Lembremos que na Alemanha, apesar de um modelo mais justo no que tange as cotas de TV, o Bayern de Munique quase sempre é o campeão do torneio.

No mundo ideal, sim. O problema é que regulamentar os valores do patrocínio feriria o princípio da autonomia da vontade nas relações privadas. Nos esportes norte-americanos, por exemplo, os fornecedores de material esportivo são coletivos. A Adidas fornece para o futebol (MLS) e a NBA. A Nike para a NFL. Todos os patrocínios da liga de futebol americano, por sinal, respeitam o acordo coletivo.

A partir da temporada 2017/18, a NBA vai ser a primeira liga norte-americana com patrocínios na camisa. Vai ser implementado um programa piloto, de três anos. Cada franquia vai ter que vender seu patrocínio, mas só poderá ficar com metade do valor. O restante vai para o plano de distribuição de receitas da própria liga, que movimenta o dinheiro através de uma fórmula que divide parte dos ganhos das grandes marcas para as franquias menos abastadas. Na temporada 2013/14, por exemplo, houve equipes recebendo US$ 16 milhões como parte deste plano.

Vale lembrar, também, que nas ligas norte-americanas o dinheiro das transmissões televisivas é distribuído de forma igualitária entre todas franquias/equipes. Ou seja, nos Estados Unidos prevalece uma lógica coletivista. Eles têm plena noção de que as negociações coletivas tornam a competição mais atrativa, uma vez que as equipes competem em maior igualdade de oportunidades, proporcionando, assim, maior estabilidade financeira para todos, justamente por conta da redistribuição mais equânime de todos os dividendos.

Esta é uma lógica igualitária, justa e que visa a preservar a competitividade. Porém, trata-se de decisão autônoma das equipes – reunidas através de suas respectivas ligas. Não de uma imposição. Respeitando a autonomia da vontade nas relações privadas, as ligas norte-americanas pensam no fortalecimento coletivo como forma de se obter o desenvolvimento do todo. E não no aprofundamento do individualismo, que, como já está provado ao longo dos exemplos históricos, tende a aprofundar a desigualdade e, por conseguinte, gera a perda de competitividade.

Infelizmente, como eu disse, não vejo uma regulamentação dos valores de patrocínio como algo possível dentro de nosso ordenamento jurídico, pois entra em conflito com a Constituição. Impor um limite aos valores que as entidades privadas poderiam negociar seria inconstitucional, por restringir a liberdade de negociação assegurada pela Carta Magna do país. Seria necessário, neste caso, o bom senso de quem comanda o nosso futebol. Algo, lamentavelmente, improvável.

É diferente, faço questão de observar, de uma mera regulamentação da distribuição dos valores obtidos pelas vendas dos direitos de transmissão televisiva do futebol brasileiro. Desde 2001, a Comissão Europeia decidiu tomar parte ativa no assunto, estabelecendo um marco regulatório em que convidava as ligas a adotar o modelo de negociação coletiva – o mesmo que é proposto no projeto de lei 755/2015, que tem como base meus estudos. A iniciativa da Comissão Europeia visava ao cumprimento do artigo 81 de seu Tratado (consolidado em sua versão de Nice), que se preocupa, precisamente, com a preservação da livre concorrência.

Não há uma interferência nas negociações privadas. As ligas negociam livremente negociam com as empresas e pelos valores que o mercado estiver disposto a pagar. Foi na esteira das orientações da Comissão Europeia, inclusive, que a Bundesliga (Alemanha) e a Premier League (Inglaterra) celebraram, em 2005 e 2006 (respectivamente), seus compromissos de manterem as negociações coletivas para as vendas dos direitos de transmissão de seus campeonatos. Aceitando, inclusive, o estabelecimento do tempo máximo de duração de três anos por contrato.

Não custa lembrar que, a partir da próxima temporada, com a entrada em vigor do novo super contrato de TV, todos os clubes da Premier League vão ser ricos ou super ricos. Os clubes ingleses vão dividir £ 1,712 bilhão por temporada (do total de £ 5,136 bilhões pelas próximas três). Assim, o campeão deverá receber algo em torno de £ 150 milhões, enquanto o lanterna entre £ 99 e 100 milhões.

Na Itália e na Espanha, por sua vez, houve a necessidade da intervenção estatal na regulamentação da distribuição dos recursos. Porém, é importante frisar, a regra só determina a forma como o dinheiro vai ser distribuído e não como os clubes – através de suas ligas – devem negociar.

Por fim, é importante lembrar que no Brasil temos o chamado “direito de arena”, previsto no artigo 42 de Lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé): “Pertence às entidades de prática desportiva o direito de arena, consistente na prerrogativa exclusiva de negociar, autorizar ou proibir a captação, a fixação, a emissão, a transmissão, a retransmissão ou a reprodução de imagens, por qualquer meio ou processo, de espetáculo desportivo de que participem.”

Com o “direito de arena”, em uma partida de futebol, os dois clubes intervenientes (“entidades de prática desportiva”) são os detentores dos direitos de transmissão. Ou seja, só pode haver transmissão televisiva se as duas equipes tiverem contratos celebrados com a emissora. Isto exclui, então, o individualismo da negociação, uma vez que um clube, sozinho, não tem o direito de negociar a transmissão de um jogo.

Fica evidente, então, que a legislação brasileira estabelece uma forma de Princípio da Solidariedade, cumprindo o disposto no art. 3º da Constituição Federal. Solidariedade que pressupõe a lógica preconizada por John Rawls e John Nash, a saber, a responsabilidade recíproca e a busca por ajudar os menos favorecidos.

Jornalista Emanuel Leite Jr. e seu livro Cotas de Televisão do campeonato brasileiro.

Jornalista Emanuel Leite Jr. e seu livro sobre cotas de televisão do Campeonato Brasileiro.

Como ocorreria a transmissão na questão de um jogo com diferentes emissoras detendo o direitos dos clubes envolvidos na partida?

É uma pergunta pertinente e cuja resposta os clubes e as emissoras vão precisar encontrar quando os novos contratos – SporTV e Esporte Interativo – entrarem em vigor. Isso porque, como foi falado, no Brasil temos o chamado “direito de arena”, previsto artigo 42 da Lei Pelé. De acordo com este dispositivo, como já expliquei, os dois clubes intervenientes, ou seja, que se enfrentam em uma partida, são ambos detentores dos direitos de transmissão. Isso diferencia o nosso país de como é em Portugal ou como era na Espanha, antes do Real Decreto-Ley 5/2015.

Em Portugal, por exemplo, a BenficaTV transmite os jogos do Benfica no Estádio da Luz (casa dos encarnados), e a SportTV transmite os do Porto no seu Dragão e do Sporting no Estádio de Alvalade. Isso significa que quando o Benfica atravessa a Segunda Circular para encarar o rival da capital ou vai ao Norte do país fazer o maior clássico do país, tem seu jogo transmitido pela SportTV, mesmo não tendo contrato assinado com o canal do grupo Olivedesportos. Enquanto Porto e Sporting têm seus clássicos na casa do Benfica transmitidos pelo canal do rival.

Vale lembrar, também, que os clubes portugueses assinaram, recentemente, contratos de valores surreais para o mercado daquele país e a partir de 2018, os jogos do Porto vão estar vinculados à empresa de TV por assinatura MEO e os do Sporting à NOS. Já os do Benfica passam a ser da NOS a partir de 2019.

No Brasil, entretanto, isso não é possível. Com o “direito de arena”, em uma partida de futebol, os dois clubes intervenientes (“entidades de prática desportiva”) são os detentores dos direitos de transmissão. Portanto, a princípio, só pode haver transmissão televisiva se as duas equipes tiverem contratos celebrados com a emissora.

Por isso que clubes e emissoras, para que o torcedor não fique privado de assistir aos jogos de seu time, vão ter que chegar a uma solução. Isso porque, ao rigor da lei, o Esporte Interativo só vai poder transmitir as partidas entre os clubes com que tem contrato e o mesmo se aplica ao SporTV. Ou seja, poderíamos ficar sem Santos x Corinthians, Internacional x Grêmio, Sport x Santa Cruz. Levando em conta que não haja uma mudança na legislação daqui até lá ou que não flexibilizem o cumprimento da norma, vejo a possibilidade de dois acordos: ambos os canais transmitem os dois confrontos do campeonato ou cada um transmite o jogo do mandante com que tem contrato.

Como a saída do Reino Unido da União Europeia pode interferir na Premier League, além é claro, da restrição aos estrangeiros, e com os europeus, de outros países, sendo contabilizados como estrangeiros também…

A questão da contratação de jogadores estrangeiros (aqui entendidos aqueles que não são da União Europeia/Espaço Econômico Europeu) é uma enorme preocupação para a Premier League (e aqui falo da Liga como instituição mesmo). Tanto é que seu chefe executivo, Richard Scudamore, havia deixado clara sua posição favorável à permanência do Reino Unido na União Europeia e se justificava alegando a “perspectiva do negócio” mesmo.

Em recente levantamento o The Guardian apontou que dois terços (66%) dos 161 jogadores “europeus” que disputaram a Premier League 2015/16 não cumpririam os critérios das novas regras para a obtenção do visto que permite um estrangeiro trabalhar no Reino Unido. Entretanto, como a própria matéria chamava a atenção, o próprio órgão regulador abre exceções “justificadas” e que estão previstas pelas regras. Considerando as normas anteriores, apenas 22% (36 jogadores) não obteriam a permissão. Porém, considerando os novos padrões, o número já passa para 33% (um terço).

Ou seja, mesmo que o Reino Unido só venha a sair da União Europeia em 2019 (e em meados de agosto a imprensa britânica noticiou que ministros do governo Conservador já comentam que a saída só ocorreria no fim de 2019 e não no início, como pretende a Primeira-Ministra Therese May), fica evidente o primeiro grande impacto que a Premier League sofreria: perda de qualidade. A título de exemplo, Riyad Mahrez e N’Golo Kanté, duas das principais estrelas do fenomenal Leicester campeão inglês, dificilmente teriam recebido a permissão de trabalho.

Na matéria do The Guardian, o professor Dr. Rory Miller diretor do MBA de Indústria do Futebol, da Universidade de Liverpool, alerta para o risco de que a perda de “jogadores de qualidade vai reduzir o valor da marca da Premier League, especialmente para o público estrangeiro”. E qual seria a consequência disso? A Premier League seria menos atrativa para as emissoras de todo o mundo – cujos contratos atuais, somados, rendem £ 1 bilhão por temporada.

Por essa razão, Stefan Szymanski, professor de gestão esportiva da Universidade do Michigan e um dos autores do livro “Soccernomics”, acredita que o governo britânico deverá estabelecer uma exceção específica para o mercado de trabalho do futebol. Para o pesquisador seria inimaginável que um governo “seja qual fosse, não importa o quão maluco fosse, iria colocar água na fervura da Premier League, que é um importantíssimo produto de exportação”. Afinal, friso, estamos falando de um mercado extremamente lucrativo, que colocou 17 dos seus 20 clubes na lista dos 30 mais ricos do mundo, de acordo com a Deloitte – e em boa parte graças aos contratos de vendas dos direitos de transmissão.

Porém, mesmo que o governo britânico crie um protocolo de exceção para os jogadores de futebol, existiria ainda outro risco, no que tange ao valor de mercado da marca da Premier League. Em entrevista à France Football, o treinador do Arsenal Arsene Wenger alertou para a possibilidade de a liga inglesa se tornar menos atrativa para estrangeiros, já que a Libra tem perdido valor. A moeda britânica, em julho atingiu seu menor valor dos últimos 31 anos em relação ao dólar dos EUA. Para Wenger, isso poderia, por exemplo, representar uma perda de competitividade com a Alemanha, que na visão dele “teria um poder aquisitivo maior” e assim a Bundesliga poderia vir a ser potencialmente mais atrativa para jogadores.

E aí entra a lógica do mercado das vendas dos direitos de transmissão. Se a Premier League – com a Libra valendo cada vez menos – perder seu poder de atração sobre os jogadores, consequentemente se tornaria, também, menos atrativa, fazendo com que caíssem também os valores oferecidos pelas empresas de televisão. Neste caso, não apenas as estrangeiras, mas até mesmo as que brigam pelos direitos de transmissão para o mercado interno (recordemos que Sky e BT vão pagar £ 5,136 bilhões pelas próximas três temporadas).

Há, por fim, outra questão que prejudicaria os clubes ingleses. O artigo 19 do Regulamento sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores da FIFA impede a contratação de jogadores menores de idade (18 anos). Com três exceções. 1. Jovens que se mudam por questões não relacionadas ao futebol (por exemplo, se a mãe ou o pai consegue um emprego em outro país); 2. Jovens que vivem em região de fronteira; e 3. transferências de menores entre 16 e 18 anos da União Europeia ou do Espaço Econômico Europeu.

Muitos clubes da Premier League têm explorado o mercado da UE/EEA através de um trabalho de prospecção para contratar jovens promessas com menos de 18 anos, a baixo ou mesmo nenhum custo. Foi assim, por exemplo, que o Manchester United contratou Januzaj (Bélgica) e Mensah (Holanda) ou o Arsenal contratou o Cesc Fàbregas quando era apenas uma promessa do Barcelona. Contratações deste gênero vão passar a ser ilegais.