Quando o futebol é muito mais que um jogo

Em um momento de aumento da imigração e dos pedidos de asilo em países da União Europeia, algumas torcidas de futebol mandaram uma forte mensagem de apoio aos imigrantes nesse final de semana.

Com as tentativas de desestabilização de governos não alinhados às políticas dos EUA, sobretudo a Síria, e também da própria União Europeia, a quantidade de pessoas tentando atravessar o mar em direção à Europa para fugir da pobreza e da violência causada por conflitos armados atinge um número muito maior dos que os últimos anos.

A travessia ocorre de formas absolutamente arriscadas em botes, pequenos barcos de madeira e até mesmo nadando. A Europa recebe de volta, através da imigração, o resultado de suas ações de pilhagens de matéria-prima e tráfico de pessoas que empreendeu ao redor do planeta por séculos.

Muitos governos dão respostas “pouco humanitárias”, para dizer o mínimo, para a questão da imigração. A Hungria, uma das principais portas de entrada de pessoas em busca de melhores condições chega a propor a construção de um muro em suas fronteiras.

Mas das arquibancadas dos estádios europeus, surge uma atitude humana e de apoio aos refugiados e imigrantes.

Se por um lado temos, e a imprensa mundial gosta muito de destacar isso, os gritos xenófobos e racistas que também estão presentes entre os os frequentadores de estádios europeus, o exemplo das faixas abaixo apresenta o outro tipo de torcedor. O detalhe é que as mensagens de apoio às pessoas que se veem obrigadas a abandonar sua terra natal e suas casas e tentar viver em outro continente, vêm em grande parte de torcidas organizadas.

Veja algumas das faixas e de que clube são os torcedores:

Torcida do Spielvereinigung Greuther Fürth (Alemanha)

Torcida do Spielvereinigung Greuther Fürth (Alemanha)

Torcida do Borussia Dortmund. (Alemanha)

Torcida do Borussia Dortmund. (Alemanha)

Torcida do Bayern de Munique. (Alemanha)

Torcida do Bayern de Munique. (Alemanha)

Torcida do Celtic. (Escócia)

Torcida do Celtic. (Escócia)

Torcida do Werder Bremen. (Alemanha)

Torcida do Werder Bremen. (Alemanha)

Torcida do Fortuna Dusseldorf. (Alemanha)

Torcida do Fortuna Dusseldorf. (Alemanha)

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O futebol brasileiro não é sobre ir à Libertadores

Programa de TV. Tradicional conversa de futebol na hora do almoço.

Neto, que tem como seu grande título no futebol o Campeonato Brasileiro de 1990, que foi metade dele e outra metade do Corinthians, conversa com Tonhão, ex-zagueiro do Palmeiras, que traz em seu histórico de títulos no alviverde o campeonato paulista de 1993. Quando o Palestra mandou 4 a 0 no Corinthians, que ainda tinha Neto, e saiu da fila de títulos que durava desde 1976.

O ex-camisa 10 pergunta para o zagueiro:

– Com 12 pontos atrás do líder no Brasileiro, o Palmeiras agora só pensa na Copa do Brasil?

Tonhão responde.

– Sim. É melhor o Palmeiras apostar na Copa do Brasil, porque é o caminho mais rápido para a Libertadores.

A Copa do Brasil é o caminho mais rápido para a Libertadores? Sim. É importante conquistar a Copa do Brasil só por esse motivo? Na minha opinião, não.

Com todo respeito à Taça Libertadores da América, grande e importante torneio sul-americano, conquistar qualquer campeonato que seja é importante por si só.

Neto, do Corinthians, disputa bola com o zagueiro do Palmeiras, Antônio Carlos, em partida do Campeonato Paulista de 1993

Neto, do Corinthians, disputa bola com o zagueiro do Palmeiras, Antônio Carlos, em partida do Campeonato Paulista de 1993

O pensamento de que um torneio, com a participação de clubes de todas as regiões do país, que se eliminam até que sobram dois para a grande final, ser importante apenas porque garante a vaga para outro torneio impõe uma espécie de escala de valores dos campeonatos. Dessa forma a Copa do Brasil vale mais do que Paulista, porque leva pra Libertadores. O Brasileiro é importante, mas só se ficar até o quarto, porque ai vai pra Libertadores. E a Libertadores? Essa é importante só se você vencer, porque ai vai pro Mundial. (pra ganhar o mundial e no fim dessa escalada toda ouvir alguém dizer: Os europeus não se importam com isso…. mas esse é um debate pra outra texto)

E toda essa ordem, que segue uma regra do menor para o maior, em termos geográficos (estado, depois país, ai o continente e por ai vai…), reflete no dinheiro que os clubes recebem por cada torneio. Paulista vale menos. Libertadores vale mais. A imprensa em geral constrói, consequentemente, essa hierarquia entre os torneios no senso comum dos torcedores.

O Campeonato Paulista é importante porque… é o Campeonato Paulista! Certame mais antigo do país, disputado desde 1902. Isso basta. O Torneio Rio-SP só foi existir em 1933, e mesmo assim ficou sem ser disputado por praticamente toda a década de 40.

São Paulo Athletic Club, com Charles Miller no time, primeiro campeão paulista da história.

São Paulo Athletic Club, com Charles Miller no time, primeiro campeão paulista da história.

A Taça Brasil, irmã bem reduzida da Copa do Brasil e que hoje, segundo a CBF, equivale a um título do Campeonato Brasileiro, só foi criada em 1959.

Dessa forma são praticamente 57 anos com o Campeonato Paulista, e os regionais que foram aparecendo no início do século passado, sendo o único campeonato que existia. A única taça possível para todos os clubes do Brasil. (tirando, é claro, eventuais torneios amistosos)

O Campeonato Brasileiro, criado em 1971, com o passar dos anos também ganhou seu espaço e passou a dividir as atenções com os estaduais.

A, em sua essência, democrática Copa do Brasil, por sua vez, que teve sua primeira edição em 1989 (leia sobre aqui), também sempre arrastou multidões para suas partidas, e após o início do Brasileiro por pontos corridos, em 2003, acaba por saciar o desejo do torcedor brasileiro pelo formato mata-mata. Que corintiano não se lembra do título com Ronaldo e companhia em 2009 e de 95 contra o Grêmio e que gremista não se lembra do troco em cima dos paulistas em 2001?

O que dizer então do Santo André, que levantou a Copa do Brasil em 2004 contra o Flamengo no Maracanã? E do bravo Criciúma, de Jairo Lenzi e Felipão, que em 1991 também conquistou o país através da competição?

Juventude, campeão da Copa do Brasil de 1999.

Juventude, campeão da Copa do Brasil de 1999.

Vamos dizer para todos esses torcedores que aquelas emocionantes partidas em mata-mata não valeram para levantar a taça, era tudo só pra ter acesso a outro campeonato, no caso, a Libertadores?

Para o verdadeiro torcedor, com taça ou sem taça, no campeonato que for, todos os jogos do seu clube são importantes. Pelo menos eu penso assim.

Golaço do Falcão

Lance da partida entre Corinthians x Inter-RS pelo Brasileiro de 1976

Lance da partida entre Corinthians x Inter-RS pelo Brasileiro de 1976

Faz anos que ouço falar desse gol…

No último domingo, o seguinte diálogo entre eu, meu pai e meu tio (dois corintianos fanáticos):

– Foi um jogão

– Verdade, aquele Corinthians e Inter foi um jogão.

– E o Corinthians ganhou? (eu perguntei, mas eu já sabia, porque já tinha ouvido falar daquele gol, mas sempre tem uma nova história de um grande jogo pra saber)

– Ganhou sim. Mas o que valeu mesmo foi o gol do Falcão.

– Podíamos ter saído e pago outro ingresso pra voltar!

Bom, ai fiquei curioso, dois corintianos fanáticos falando que o gol do adversário foi o melhor da partida…

Fui pesquisar.

O Corinthians e Inter-RS em questão foi disputado pelo Campeonato Brasileiro de 1976.

A segunda fase da competição era formada por dois grupos de 9 equipes. Se classificariam os dois primeiros de cada chave pra final. O Corinthians tinha ainda 3 jogos pela frente. Ponte Preta e Inter-RS em casa e o Santa Cruz fora.

Com uma vitória no Pacaembu sobre a Ponte, o Corinthians ultrapassou a equipe de Campinas e assumiu a segunda colocação. O Inter era o líder.

Com os colorados e o Santa pela frente, bastavam duas vitórias para colocar o time do Parque São Jorge nas semifinais. (vale lembrar que o Timão já estava, então, há 22 anos sem título).

E ai chegamos ao dia 21 de Novembro de 1976. Domingo. Mais de 100 mil pessoas no Morumbi (pelas imagens do vídeo abaixo dá pra perceber quanta gente tinha no estádio).

O Corinthians abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo. Mas ai vem o gol do Falcão. E foi mesmo um golaço! Um cruzamento, que nem cruzamento foi direito, para a entrada da área e surge o camisa 5 da equipe gaúcha. De primeira. No ângulo.

Vale a pena ver o gol:

(ai estão todos os gols da partida com narração da época e tudo mais…o gol do Falcão está no 1:47 do vídeo, logo na hora que os comentaristas já escolhiam os melhores jogadores do Corinthians em campo…)

No fim, o Corinthians e o Inter-RS foram se enfrentar na final, que ao contrário das semifinais, teve só um jogo. Em Porto Alegre, no Beira-Rio. Uma pena, porque se tivesse sido ida e volta o campeonato teria ganho muito em emoção. O time do Falcão foi campeão.

Eu lembro desse jogo: Liverpool x Arsenal (1989)

Thomas chuta para marcar o segundo gol do Arsenal!

Thomas chuta para marcar o segundo gol do Arsenal!

Esse jogo eu lembro, mas não vi… Pelo menos não vi no dia, assisti muitos anos depois pesquisando nas redes. No dia vi apenas os gols no noticiário da TV. O suficiente para me deixar impressionado com o desfecho do campeonato inglês.

Última rodada do Campeonato Inglês da temporada 88/89. Quando esse torneio era chamado só de Campeonato Inglês na TV aqui do Brasil, ainda não existia Premier League… O jogo era Liverpool x Arsenal. Em Anfield Road. No tempo em que os gramados ingleses não pareciam tapetes e sempre tinha um enorme espaço sem grama e cheio de terra na frente dos goleiros. Eu gostava muito daquela espécie de futebol que se jogava na Inglaterra, quando os clubes em sua maioria era formado por atletas… britânicos!

Hoje seus clubes são quase todos formados por estrangeiros e a seleção local não consegue formar um time pra para passar da primeira fase da Copa do Mundo. Coincidência?

O time londrino não conquistava o título desde o que ficou conhecido como o “Boring Arsenal”, devido à grande quantidade de partidas vencidas pelo placar simples de 1 a 0, na temporada 70/71.

O Liverpool era o atual campeão inglês e bi-campeão da Copa da Inglaterra. Jogava em casa e podia perder até por um gol de diferença. O Arsenal entrava em campo com o peso dos anos sem conquistar o título e precisando ganhar por 2 gols de diferença.

A vitória já valia 3 pontos por lá. Novidade implementada mundialmente apenas em 1994. O Liverpool tinha 76, o Arsenal 73. Ou seja, se o Arsenal vencesse, empatavam em pontos. O time de Londres precisava vencer por dois gols de diferença, pois nesse caso empatariam em pontos, em saldo de gols, mas levaria a taça por mais gols feitos.

O primeiro tempo terminou 0 x 0. E tudo indicava que o Liverpool conquistaria o “double” pela segunda vez consecutiva. (double = ganhar a Copa da Inglaterra e o Campeonato Inglês no mesmo ano. O feito ainda é inédito no Brasil até porque nossos torneios nacionais são jovens e por muito tempo quem ia para a Libertadores não jogava a Copa do Brasil)

Mas logo aos 7 minutos do segundo tempo, Allan Smith de cabeça fez 1 a 0 para os gunners. O Arsenal estava na frente, mas a taça ainda era do Liverpool.

Aos quarenta e cinco minutos de jogo a bola estava com o craque do Liverpool e da seleção local, John Barnes. Com bom controle de bola ele leva até a linha de fundo e tenta invadir a área do Arsenal driblando. Mas é desarmado.

O goleiro Lukic começa a jogada e após rápida troca de passes alguns segundos depois o meio-campista Michael Thomas sai sozinho no meio da zaga do Liverpool, tenta dar um chapéu que dá errado, a bola rebate no zagueiro e volta aos seus pés. Na cara do gol.

Um dos momentos mais emocionantes do futebol inglês, Thomas dá um toque sútil para marcar o gol do título do Arsenal. Comemora de forma descontrolada. É impressionante também a explosão por parte dos torcedores da equipe de Londres.

Vale a pena assistir ao gol, com narração original da TV inglesa:

É o tipo de momento do futebol que não vou me cansar nunca de assistir. O gol de Thomas em Anfield Road.

A partida marcou um ponto de virada para o futebol inglês que na época tinha poucas partidas transmitidas na TV, o jogo foi exibido ao vivo e o final histórico fez com que o interesse por jogos televisionados voltasse a crescer para os ingleses.

Abaixo uma pequena reportagem sobre o jogo entrevistados alguns dos jogadores…