A primeira camisa de futebol

(Texto produzido em 27 de fevereiro de 2015…)

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Pedrinho está feliz! No alto de seus 10 anos o garoto de São Paulo ganha sua primeira camisa de um clube de futebol. Uma camiseta do Barcelona. O avô de Pedrinho, o Seu Nelson, é palmeirense.

Seu Nelson, se recorda muito bem do grande esquadrão alvi-verde dos anos 70, quando Ademir da Guia e a “academia” brilhavam nos gramados brasileiros, se recorda também, e isso foi bem pouco antes do seu neto nascer, da equipe que tirou seu Palestra da fila, e com uma goleada sobre seu maior rival, o Corinthians, conquistou o paulista de 1993 e que contava com craques como Edmundo e Evair.

Mas já faz tempo que Seu Nelson anda insatisfeito com o verdão. Seu time já não ostenta uma grande equipe há alguns anos. Seu neto, Pedrinho, nasceu em 2005. De lá pra cá o Palmeiras foi campeão só duas vezes, e foi rebaixado para série B uma vez.

Pedrinho só fala em clubes europeus. Ao chutar uma pedra na rua, como todo garoto que ama futebol desde pequeno faz – sim garotos apaixonados por futebol transformam pedras em bola e pedestres em zagueiros adversários – o menino imagina Messi no Camp Nou lotado marcando mais um gol contra o, contra o… Real Madrid! Pedro não conhece muitos outros clubes espanhóis.

Tampouco sabe qual é a atmosfera do Camp Nou, estádio do Barça.

Não sabe como são as ruas de Barcelona e nem imagina quais são os cantos da torcida catalã. Não sabe que, além do Real Madrid, o Espanyol é outro grande rival da equipe. E que por trás dessas duas rivalidades existe a questão do “orgulho” catalão. Certamente a maioria dos garotos de 10 anos que moram em Barcelona e torcem para o clube, sabem todas essas questões.

Pedrinho está errado? Está errado por torcer para um clube que está na mídia a todo momento, que licencia todos os produtos imagináveis que ele vê no mercado, que contrata os principais craques da Copa do Mundo e enfrenta equipes que, por sua vez, contam com craques de outras seleções também?

Seu Nelson, como sempre, tenta tornar o neto tão palmeirense quanto ele. O avô acompanha todas as notícias do Palestra e aguarda ansioso o próximo jogo de sua equipe, que será contra o Capivariano. E ai Pedrinho pensa em silêncio, “contra quem?”.

Com todo respeito ao futebol do interior paulista, e aos demais torneios regionais, mas os clubes atualmente já não conseguem montar boas equipes, são apenas depósitos de jogadores de empresários. O empresário chega a um clube menor, “aluga” as 11 posições e as utiliza para tentar vender os atletas para qualquer mercado que possa pagar. E ai vale Ucrânia, Bélgica, China, vale o que for pra fazer dinheiro. Não importa a tradição futebolística do país que importará o jogador.

E assim, os regionais perderam espaço. Não interessa mais para os grandes clubes e nem para a TV. Já foi o tempo que Novorizontino e Bragantino chegavam a final de um Campeonato Paulista forte. Mas os grandes clubes do Brasil também não conseguiram formar uma liga forte para concorrer com as europeias e a TV, que parece não se importar em transmitir jogos com arquibancadas vazias, escolhe o horário das partidas, e os torcedores que se arriscam a ir ao estádio não conseguem voltar pra casa com transporte público, e o Pedrinho, acaba dormindo porque no outro dia precisa acordar cedo para ir à escola.

Domingo retrasado, Seu Nelson resolveu acompanhar o garoto, sintonizou o televisor no campeonato espanhol e lá foi ele assistir ao Barcelona… mas para surpresa do esforçado avô, antes do final do primeiro tempo o garoto já não queria saber da peleja. O Barcelona que o Pedrinho conhece, e veste a camisa, é o do videogame. Aquele Messi imaginário que tabela com o garoto chutando pedras nas ruas não é aquele que entra em campo lá na Espanha, mas sim o que o pequeno movimenta com seus controles.

Algo está se perdendo no bom e velho futebol brasileiro e a próxima camisa que Pedrinho pedirá em seu aniversário é a da seleção da Alemanha.

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A primeira vez da Libertadores no Brasil

(Texto produzido em 10 de dezembro de 2014…)

A equipe do Bahia em 1959.

A equipe do Bahia em 1959.

Ao analisarmos os momentos atuais do Bahia no Brasil e do San Lorenzo, na Argentina, percebemos que as equipes atravessam momentos opostos. Enquanto o Bahia acaba de ser rebaixado no Campeonato Brasileiro da primeira divisão, os portenhos se preparam para estrear no Mundial de Clubes da FIFA no próximo dia 17.

Mas a história guarda algo em comum entre essas equipes, além do azul e vermelho em suas cores.

No dia 03 de maio de 1960, as duas equipes pisaram no gramado da Fonte Nova em Salvador para disputar a primeira partida de Libertadores da América em território nacional.

Mas o caminho para o tricolor baiano chegar lá não foi nada fácil…

Em 1959 a CBD, atual CBF, organizou o primeiro torneio nacional com o intuito de indicar uma equipe para a nova competição sul-americana, a Taça Libertadores da América, que começaria a ser disputada em 1960.

Para chegar à grande final da Taça Brasil (como se chamava o Campeonato Brasileiro naquela época), o Bahia precisou enfrentar o grupo do Nordeste, e nessa fase deixou pelo caminho o CSA de Alagoas e enfrentou uma difícil batalha contra o Ceará. A equipe baiana eliminou os cearenses com um gol na prorrogação da partida de desempate, após os dois primeiros jogos terminarem empatados.

Nas quartas de final a vítima do Bahia foi o Sport de Recife, que tinha disputado a fase anterior no grupo do Norte, apesar de ser um clube nordestino.

As equipes de São Paulo e do Rio de Janeiro já entravam direto nas semifinais. Dessa forma o Vasco da Gama pintava como o grande favorito frente ao Bahia. E mais uma vez, após três confrontos, o tricolor nordestino conquistou uma inesperada vaga na grande decisão.

A sensação era de que tinha ido longe demais. Na final o adversário seria o poderoso Santos de Coutinho, Pelé e Pepe. A primeira partida era na Vila Belmiro, e apesar de jogar desfalcado por conta de uma prova que o goleiro Nadinho precisava fazer na faculdade de Direito justamente no mesmo dia, o Bahia venceu por 3 a 2 de virada. O milagre já não parecia tão distante. Mas na partida de volta, dia 30 de dezembro de 1959, na Fonte Nova, a equipe do Santos venceu por 2 a 0. Gols de Pelé e Pepe. Mais uma vez uma partida de desempate seria necessária.

E ai surgiu o problema. O Santos já tinha marcada uma excursão pela Europa e só poderia disputar a terceira partida no dia 29 de Março de 1960. Seriam 4 meses de espera.

O Bahia aceitou as condições e foi ao Maracanã enfrentar o Santos sem o seu treinador, Geninho, que era delegado e só podia acompanhar a equipe quando estava de licença. Um argentino foi convocado em seu lugar. O desfalque do lado santista ficou por conta do jovem Pelé, que voltou com problemas nas amígdalas da turnê europeia e precisou ser operado.

Início da partida entre Bahia e Santos.

Início da partida entre Bahia e Santos.

Coutinho abriu o placar para o Santos. Mas Vicente, Léo e Alencar viraram para o Bahia. Em uma partida marcada pela violência, com mais de quatro expulsões, o Bahia sagrava-se o primeiro campeão nacional.

Estava então credenciado para disputar a primeira Libertadores da América. No dia 20 de Abril perdeu por 3 a 0 do San Lorenzo em Buenos Aires. E na volta, dia 03 de Maio, na Fonte Nova, venceu os argentinos por 3 a 2 na primeira partida da competição sul-americana disputada no Brasil, sendo, mesmo com a vitória, eliminado da competição.

San Lorenzo, campeão argentino de 1959.

San Lorenzo, campeão argentino de 1959.

Em 2015 a realidade tricolor será outra. Precisará mais uma vez ressurgir e lutar para voltar a Série A. E que ninguém duvide disso!

Futebol, política e democracia em três períodos na Argentina

(Texto produzido em julho de 2014, durante a Copa do Mundo…) 

1978: Vencer ou vencer

Logotipo da Copa do Mundo de 1978.

Logotipo da Copa do Mundo de 1978.

Quando o golpe militar se deu na Argentina, em 1976, a Copa do Mundo de 1978 já estava confirmada para o país. Ou seja, a organização do evento não foi obra da ditadura. Mas sem dúvida nenhuma o regime apropriou-se do torneio para, dentro do que acreditavam, obter apoio da população para suas ações.

Eis três objetivos da ditadura argentina naquele período: A vitória na Copa de 78 no futebol, título até então inédito para os argentinos; fazer retroceder a decisão judicial, através de conflito armado, que atribuía a posse do Canal de Beagle* para o Chile; e expulsar os ingleses das Ilhas Malvinas.

A Copa do Mundo de 1978 seria utilizada, no plano dos militares, para abafar o Estado de terror imposto por eles. As notícias de torturas e perseguições seriam sufocadas por gritos de gols nos estádios. A unidade dos 25 milhões de argentinos em torno de sua seleção era o objetivo do regime.

Após uma primeira fase apenas mediana, os argentinos entraram na etapa decisiva da competição e tinham pela frente um de seus maiores rivais, o Brasil.

Quando estiveram frente a frente, Brasil e Argentina, proporcionaram uma verdadeira batalha de nervos recheada de lances violentos, mas ficaram no 0 x 0. Na última rodada daquela fase, que definiria um finalista do Mundial, no dia 21 de Junho de 1978, os argentinos entraram em campo na cidade de Mendoza tendo que vencer os peruanos por no mínimo 4 gols de diferença para alcançarem a final do torneio. O Brasil levava vantagem no saldo de gols.

Vale lembrar que o então presidente da FIFA, João Havelange, tinha relação próxima com a ditadura argentina. E que todos os investimentos feitos pelo governo local em infraestrutura não haviam sido realizados em vão.

A seleção argentina não fez apenas os 4 gols necessários, fez 6. Bateu os peruanos por 6 a 0. Talvez a partida mais discutida da história das Copas, pela suposta falta de vontade dos atletas peruanos, que teriam sido forçados a entregar o jogo para os argentinos. A noite ainda contou com a explosão de uma bomba na casa do Secretário da Fazenda da Nação, Juan Alemann, que se opunha à organização da Copa no país, no momento do quarto gol.

Vencer a Holanda na final e conquistar a taça era o único desfecho possível para os militares. A comemoração nos balcões da Casa Rosada, cercada por milhares de pessoas aplaudindo o General Videla era o objetivo desde quando o regime levou adiante a organização da Copa.

Mario Kempes comemora gol na final contra os holandeses.

Mario Kempes comemora gol na final contra os holandeses.

 

O desgaste do regime e a “mão de Deus”

Em abril de 1982 o desgastado regime argentino, agora sob o comando do General Leopoldo Galtieri decide levar a cabo o conflito que ficou conhecido como a Guerra das Malvinas. A intenção era desviar o foco da profunda crise econômica que o país atravessava através do enaltecimento do sentimento de nacionalismo dos argentinos, que seriam aflorados pelo combate.

Para a ditadura os resultados foram catastróficos. Em 14 de junho, dois meses depois do início do conflito e um dia depois da estreia da Argentina na Copa do Mundo de 82, os ingleses já tinham retomado a posse das Malvinas e a ditadura argentina teve selado o seu fim.

Com a morte de aproximadamente 650 argentinos, jovens soldados mal preparados e mal equipados, que tombaram lutando contra um exército inglês muito superior, a opinião publica já não aceitava mais a ditadura. A manutenção do regime tornou-se insustentável.

Em 1983 a democracia era restabelecida no país com a eleição do presidente Raul Alfonsín. E nesse momento o futebol mais uma vez cruza a história política da Argentina.

Em 1986, a seleção argentina vai ao México disputar o Mundial. Buscando se recuperar do fracasso da Copa de 1982 e, acima de tudo, elevar a auto estima de milhões de argentinos. A equipe tinha em Diego Armando Maradona sua grande esperança de voltar a levantar a taça e apagar a imagem da possível manipulação que havia ofuscado a conquista de 1978 perante à opinião pública internacional.

Após uma boa primeira fase, os argentinos batem os uruguaios nas oitavas de final e avançam para o tão esperado confronto contra os ingleses. Seria o reencontro após o sangrento episódio das Malvinas. Em campo, ao lado de Diego Maradona e seus companheiros, a memória de 650 jovens (como o próprio Maradona na época), entrava para a “guerra” contra a Inglaterra. Sem armas e sem bombas. Com chuteiras e camisas azuis os atletas foram a campo na ensolarada tarde da Cidade do México, no dia 22 de Junho de 1986, para, dessa vez em igualdade de condições, vingar na bola os compatriotas que tombaram quatro anos antes.

O primeiro tempo termina 0 a 0. Um jogo nervoso. Entradas duras por parte das duas equipes. Durante os dias que antecederam a partida a possibilidade do duelo nem mesmo terminar, por conta do ânimo exaltado dos atletas, era debatida pela imprensa mundial.

Foi quando aos seis minutos do segundo tempo, Maradona, com um sutil toque com a mão, sem que o juiz percebesse, desvia a bola para o fundo da meta inglesa. Para os argentinos, o gol não foi feito com a mão de Maradona e sim com ajuda da “mão de Deus”. Era o começo da redenção.

Maradona e a "mão de Deus".

Maradona e a “mão de Deus”.

Quando os ingleses julgavam injusta a forma como a Argentina tinha aberto o placar, apenas 3 minutos depois do primeiro gol, Maradona pega a bola no meio do campo, dribla metade do time inglês e faz um gol histórico. Talvez o mais belo gol da história das Copas. A Inglaterra ainda achou tempo para descontar, mas já era tarde. As Malvinas estavam vingadas, ao menos no campo simbólico do futebol. As lágrimas por parte de torcedores, jogadores e até mesmo de narradores argentinos que transmitiam o jogo davam a dimensão do tamanho da conquista.

A Argentina venceria a Copa de 1986 sete dias depois, batendo os alemães por 3 a 2 na grande final.

Assista o segundo gol de Maradona contra a Inglaterra na transmissão da TV argentina, uma das narrações mais emocionadas que já vi….

 

Copa para todos, a mídia democratizada: Argentina 2014

E em 2014, o que representa a Copa do Mundo para a Argentina?

Dentro das quatro linhas, a equipe luta para conquistar o tri campeonato, tendo Lionel Messi como sua grande esperança para obter este feito, 28 anos depois do último título, em 1986.
Caso a Argentina vença o torneio, o grito de campeão será anunciado por dezenas de rádios e TVs espalhadas por todo o território do país. E por quê?

Com a aprovação da Lei de Meios Audiovisuais, promulgada em 2009, pela presidenta Cristina Kirchner, e declarada constitucional em 2013, estão limitadas o número de concessões de rádios e emissoras de TV que o mesmo grupo de comunicação pode concentrar. Dessa forma o monópolio por partes das empresas que contavam com maior poder aquisitivo, simbolizado principalmente pelo grupo Clarín, foi quebrado.

Os muros da capital argentina, quando estive lá em 2013, estampavam a revolta popular contra o Clárin...

Os muros da capital argentina, quando estive lá em 2013, estampavam a revolta popular contra o Clárin…

Rádios de comunidades indígenas, de pequenos munícipios ou até mesmo organizações de rádios cooperativas podem transmitir as partidas do mundial.

Não apenas a própria realização da Copa no continente aponta o fortalecimento da região. Também suas leis avançadas, que embora ainda não seja o caso de todos os países sul-americanos, demonstram que vivemos um período de crescimento das forças progressistas na América do Sul.

A luta contra as grandes corporações ganha muita força com a democratização dos meios de comunicação na Argentina. As contradições de nosso continente ainda são evidentes. Mas mesmo que não levantem a taça dessa vez, cada grito de “gol da Argentina” representará uma vitória de seu povo e de sua democracia.

E levando em consideração este fato, concluímos que nem sempre quem fica com a taça é o verdadeiro vencedor.

 

*Conflito resolvido posteriormente pelo Vaticano

O primeiro título do Brasil na partida que parecia não ter fim

(Texto produzido em abril de 2014…)

Seleção brasileira de 1919.

Seleção brasileira de 1919.

Em 1919 aconteceu em nosso país a terceira edição da Copa América de futebol, que naquela época ainda se chamava Campeonato Sul-Americano, as duas primeiras edições, em 1916 e 1917 foram vencidas pelo Uruguai. Apenas o Rio de Janeiro, e mais especificamente o Estádio das Laranjeiras, do Fluminense, recebeu partidas da competição.

O Campeonato Sul-Americano em suas primeiras edições era disputado por quatro equipes. Jogavam todos contra todos e quem somasse mais pontos era o campeão.

Nas quatro primeiras edições, incluindo a de 1919, o campeonato foi disputado por Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. Apenas na quinta edição em 1921 o Paraguai quebrou a hegemonia de participação das outras quatro seleções, participando do torneio.

O torneio estava marcado para 1918, mas uma epidemia de gripe na cidade carioca fez com que fosse adiado para 1919. Com a situação normalizada, no dia 11 de maio, na primeira partida, o Brasil goleou os chilenos por 6 a 0. Na segunda partida da nossa seleção, dia 18, vencemos os argentinos por 3 a 1. No dia 26 de Maio uma vitória frente os uruguaios nos garantiria o título, mas o jogo terminou 2 a 2 e lá fomos nós para mais uma partida.

Naquele tempo não existiam critérios de desempate por saldo de gols ou gols marcados. Dessa forma, mesmo o Brasil tendo um saldo melhor, tivemos que disputar a partida de desempate no dia 29 de Maio.

No dia em que foi decretado feriado na cidade do Rio de Janeiro, dada a importância do jogo, brasileiros e uruguaios protagonizaram uma partida emocionante. 26 mil pessoas acompanharam o Uruguai na busca do tri campeonato e o Brasil buscando seu primeiro título jogando em casa. Porém ao fim dos 90 minutos o placar marcava 0 a 0.

Seria disputada então uma prorrogação de 30 minutos. Após mais meia hora de bola rolando o resultado ainda era de igualdade sem gols. Foi disputado então outro tempo extra de 30 minutos. Logo no começo da segunda prorrogação o atacante do Corinthians, Neco, fez boa jogada pela linha de fundo e cruzou para área. Heitor, que atuava no Palestra Itália cabeceou para defesa do goleiro uruguaio Saporiti. No rebote Friedenreich, que defendia o Paulistano, chutou para marcar o gol que daria o primeiro título para nossa
seleção.

Depois do gol, a seleção brasileira apenas administrou a vantagem e após 150 minutos de futebol, na que até hoje é a partida de maior duração da história da Copa América, pode comemorar seu primeiro título. Erámos campeões continentais pela primeira vez para delírio da torcida brasileira que lotou as Laranjeiras.

Os artilheiros da competição foram Neco e Friedenreich (que marcou 1.329 tentos em sua carreira) com 4 gols cada. E vale lembrar que naquele tempo a camisa da seleção brasileira era branca e assim foi até a Copa do Mundo de 1950, quando perdemos a Copa em casa para o Uruguai e mudamos nossa camisa para amarela, para afastar o branco, que teria dado “azar” no mundial.

A torcida faz o time

(Texto produzido em fevereiro de 2014…)

Torcida do Racing demonstra seu apoio ao clube.

Torcida do Racing demonstra seu apoio ao clube.

Um dos clubes mais tradicionais da Argentina, campeão da Libertadores da América e do Mundial Interclubes de 1967, estava afundado em dívidas de mais de US$ 30 milhões. O ano era 1999…

No dia 7 de março de 1999 o Racing Club, da cidade de Avellaneda, província de Buenos Aires, deveria estrear no Campeonato Argentino contra o Talleres de Córdoba, mas um anúncio da Justiça argentina, feito na semana da partida, decretava que o clube estava falido e que “não existia mais”. O clube dono de uma das mais fanáticas torcidas do continente não mais existia. As dívidas acumuladas geraram a punição ao clube.

A comoção entre sua torcida foi enorme. O que se seguiu foram muitos protestos pelas ruas e uma torcida indignada com a notícia.

Justamente no dia da punição acontece uma das maiores demonstrações de paixão de uma torcida por seu time. A partida não aconteceu, mas 35 mil torcedores lotaram o estádio do clube e cantaram sem parar por 90 minutos. O tempo de um jogo.

Ali não existia bola, não existiam jogadores e nem troféus.

Mas ali estavam garotos, bandeiras e cantos apaixonados.

Ali não existiam grandes dribles, nem goleiros e nem belos gols.

Mas ali estavam torcedores, pessoas comuns que saíram de suas casas apenas para cantar por um clube.

Esse fato demonstra que a torcida faz o time. É a paixão do torcedor e o que essa ligação representa que faz o futebol ser o que é.

A história de uma torcida que vai ao estádio sem que seu clube entre em campo apenas reforça que o futebol acontece a partir das arquibancadas.

Por isso precisamos lutar contra a elitização em curso no futebol. Que nossos clubes joguem em estádios modernos e mais confortáveis. Sim! Mas de nada adianta grandes estádios vazios por causa de preços abusivos de ingressos. De nada adianta jogos em horários que afastam os torcedores dos estádios apenas porque uma emissora de televisão faz o que quer com a tabela do campeonato.

Jogos que acabam depois da meia-noite, quando o transporte público já parou de funcionar, apenas fazem com que cada vez mais nossos grandes jogos aconteçam quase sem torcida.

O Racing Club, naquela ocasião, não estava certo ao ficar sem pagar suas dívidas por anos, mas sabemos o quanto dirigentes podem prejudicar o esporte que gostamos. O clube conseguiu negociar sua dívida e não fechou suas portas. No entanto, sua torcida mostrou o que é esse esporte. O futebol é a paixão da torcida pelo seu clube e pelo que a história de seu clube representa.

Que tenhamos sim melhores estruturas para assistir nossos clubes. Mas que o povo possa continuar lotando e colorindo nossas arenas. É por isso que devemos lutar!

Veja a música que os torcedores do Racing cantam em homenagem ao dia em que lotaram o estádio sem que a partida acontecesse:

A batalha de Hamburgo na Copa de 74

(Texto produzido em outubro de 2013…)

Seleção da Alemanha Oriental antes da partida contra os rivais ocidentais.

Seleção da Alemanha Oriental antes da partida contra os rivais ocidentais.

O sorteio de grupos para a Copa do Mundo de 1974, disputada na Alemanha Ocidental, reservou um clássico inédito e que não se repetiu mais na história dos mundiais. Caíram na mesma chave, o grupo A, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental.

As duas seleções tinham a companhia de Chile e Austrália na chave.

Em um Mundial cercado de preocupações com a segurança após os traumáticos eventos* dos Jogos Olímpicos de Munique, apenas dois anos antes, os anfitriões estrearam contra a seleção chilena, que havia se classificado com a desistência da União Soviética. Os alemães ocidentais levaram a melhor vencendo o jogo por 1 a 0. Na mesma rodada os alemães do leste venceram os australianos por 2 a 0.

Na segunda rodada a Alemanha Ocidental venceu a Austrália por 3 a 0 e os orientais empataram com os chilenos por 1 a 1. Com isso as duas Alemanhas chegavam à última rodada, onde se enfrentariam, já classificadas.

A partida, que foi esperada com muita tensão por ambos os lados, foi marcada para o dia 22 de Junho e seria realizada no Volksparkstadion na cidade de Hamburgo.

Estava em jogo muito mais do que apenas quem ficaria em primeiro e em segundo lugar do grupo. A rivalidade que vinha do campo político fez com que a partida fosse extremamente nervosa com duas equipes muito preocupadas em não sairem de campo derrotadas. A marcação dos dois lados foi muito forte.

Mais de 60 mil pessoas lotaram o estádio. Sendo que, desses, apenas 1,5 mil, aproximadamente, vinham do lado leste do Muro de Berlim.

A torcida da Alemanha Ocidental empurrava o time da casa o tempo todo. Em determinados momentos isso pareceu fazer a diferença a favor dos anfitriões. O atacante ocidental Gerd Müller chegou a acertar a trave dos orientais.

Vale lembrar que a Alemanha Ocidental já tinha um título mundial e era a atual campeã européia, enquanto os orientais faziam sua primeira, e única, aparição em Copas do Mundo.

Aos 32 minutos do segundo tempo, quando o jogo se encaminhava para um empate sem gols, dada a preocupação das duas equipes em não perder, o jogador da Alemanha Oriental Erich Hamann, que era reserva e tinha acabado de entrar na partida, superou a marcação do craque ocidental, Franz Beckenbauer, e cruzou para Jürgen Sparwasser. O atacante dominou a bola de forma estranha, usando até os ombros, e com isso conseguiu deixar para trás os dois zagueiros ocidentais e aparecer livre na frente do goleiro para fazer o gol que deixou o mundo do futebol surpreso. Era o gol da Alemanha Oriental! Era a vitória que parecia impossível mais perto do que nunca.

Bola do jogo autografada pelo autor do gol,  Jürgen Sparwasser.

Bola do jogo autografada pelo autor do gol, Jürgen Sparwasser.

Dai pra frente a Alemanha Oriental segurou com raça o resultado, para no final comemorar muito a vitória.

Pouco importa para os orientais se na continuação do mundial a Alemanha Ocidental se deu melhor e ficou com o título, a batalha de Hamburgo foi vencida pelos orientais e isso nunca seria esquecido.

O autor do gol, Jürgen Sparwasser, declarou alguns anos depois que se em sua lápide escreverem apenas “Hamburgo 1974” todos na Alemanha saberão quem está enterrado ali.

Assista ao jogo completo na transmissão da TV da Alemanha Oriental:

 

*Integrantes do grupo chamado Setembro Negro sequestraram e assassinaram onze membros da equipe olímpica de Israel.

 

A vitória moral da União Soviética na Copa de 74

(Texto produzido em 11 de setembro de 2013…)

Estádio da partida era utilizado pelo ditador Pinochet como campo de concentração.

Estádio da partida era utilizado pelo ditador Pinochet como campo de concentração.

Dizia o regulamento para a Copa do Mundo de 1974, disputada na Alemanha, que uma das últimas vagas para aquele Mundial seria disputada entre uma seleção da América do Sul, que sairia do confronto entre Chile e Peru, e uma seleção europeia.

Após uma disputada fase de grupos, a União Soviética foi definida como a representante da Europa na repescagem.

Depois de um confronto que precisou de três jogos para ser definido, o Chile eliminou o Peru e se credenciou para enfrentar a forte União Soviética, que havia deixado pelo caminho as seleções da Irlanda e da França.

Se durante as partidas decisivas contra o Peru a seleção chilena tinha como presidente Salvador Allende, não foi o que aconteceu quando chegou à repescagem contra a URSS. O jogo decisivo contra os peruanos foi disputado no dia 05 de agosto de 1973 e no dia 11 de setembro do mesmo ano um golpe, com apoio norte-americano, derrubava o então presidente eleito democraticamente.

Enquanto isso, a FIFA marcava a data para a disputa da vaga entre soviéticos e chilenos para os dias 26 de setembro na União Soviética e 21 de novembro no Chile.

Na partida de ida, apitada pelo árbitro brasileiro Armando Marques, as seleções empataram em 0 a 0 na capital Moscou.

A partida de volta, que definiria a seleção que iria disputar a Copa do Mundo, estava marcada para o Estádio Nacional. Após o golpe de Pinochet, esse estádio estava sendo utilizado para torturas e assassinatos a mando do ditador golpista. Após tomar conhecimento do fato, a federação de futebol soviética solicitou a alteração do local da partida aos organizadores chilenos.

Com a negativa chilena de alterar o local do jogo decisivo, os soviéticos não entraram em campo, desistindo de disputar a Copa do Mundo de 1974 em protesto às torturas e assassinatos realizados no Estádio Nacional. No telegrama enviado pela Agência Estatal de Notícias, os soviéticos, entre outras coisas, afirmavam que não poderiam disputar a partida em um estádio “salpicado com sangue de patriotas chilenos”.

A federação do Chile manteve a partida e os atletas chilenos foram a campo apenas para legitimar a desistência dos soviéticos. Em menos de 30 segundos, após uma rápida troca de passes, o jogador Valdés chutou para o gol vazio, já que a URSS não foi a campo, e decretou a vaga dos chilenos no mundial de 1974. (Veja o vídeo do gol abaixo)

O governo do ditador Pinochet, porém, pensou em um “plano B” para a ocasião e a equipe brasileira do Santos foi convidada a participar da “festa” pela classificação chilena. Um amistoso entre as duas equipes foi marcado para a mesma data. Com cerca de 20 mil ingressos já vendidos, os chilenos preferiram realizar outro jogo no lugar da partida contra os desistentes soviéticos.

Para tristeza dos organizadores o Santos, sem Pelé, que estava machucado, goleou a seleção chilena por 5 a 0 em pleno Estádio Nacional.

A União Soviética só voltou a disputar uma Copa do Mundo em 1982. Estreou justamente contra o Brasil de Socrátes e companhia e foi derrotada por 2 a 1.

O Chile foi à Copa do Mundo de 1974 onde caiu no grupo de Austrália, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental. Os chilenos foram eliminados na primeira fase. Esse grupo ainda contou com a vitória da Alemanha Oriental sobre a Ocidental em plena casa dos ocidentais, mas essa já é outra história…

Assista ao vídeo do gol: