Réquiem para meu time de várzea – Por Arthur Tirone

Hoje o Pelota de Trapo traz pela primeira vez um texto do Arthur Tirone, o famoso Favela. Craque com as palavras e craque com a bola nos pés, é com muita honra que o blog abre espaço para o Favela entrar em campo e estrear aqui no Pelota… 

Sinceramente, desisti do Corinthians e do futebol em geral há anos. Só há uma centelha daquela paixão de garoto que ainda me faz ter vontade de assistir ao jogo pela televisão – na arena nova só fui em uma partida da Copa. O último jogo do meu time que estive presente foi no saudoso Pacaembu. Não tenho vontade, nem dinheiro para acompanhar este novo futebol-business com frequência – sou “só” torcedor, não quero ser sócio de nada. Hoje em dia, num jogo, não se pode tirar a camisa, ficar em pé, beber e fumar. Ademais, não sou expectador. Definitivamente, isso aí não é pra mim.

Símbolo do Anhanguera da Barra Funda.

Símbolo do Anhanguera da Barra Funda.

Mas essa questão eu tenho um sentimento de que superei. Muito em parte porque eu tinha a Associação Atlética Anhanguera, meu tradicionalíssimo time da várzea paulistana, glória da Barra Funda, e ali depositei toda a esperança que eu tinha no futebol. Foi lá que meu avô estreou com a camisa 3 do primeiro quadro em 1933, lá onde jogaram meu pai e meus tios e onde fui criado com meus irmãos. Todos os sábados e domingos, ano após ano, lá estávamos nós jogando bola, escalando muros, empinando pipa, soltando balãozinho galinha-preta, alimentando a rivalidade contra a molecada do Bom Retiro, tendo medo de apanhar dos meninos mais velhos, trocando figurinha, apreciando a batucada à beira do campo, assistindo a quebra-paus históricos, convivendo com jogadores de baralho e dominó, participando da vida do bairro e entendendo os mistérios e segredos dessa tradição tão nossa que é o futebol de várzea.

Esse é o Arthur com seus amigos e companheiros de futebol no campo do Anhanguera.

Esse é o Arthur com seus amigos e companheiros de futebol no campo do Anhanguera.

Aos poucos, por vários motivos, essa beleza foi também se acabando. Porque a modernidade, ou pelo menos o discurso dela, chega até no brejo. Os campos foram dando lugar à especulação imobiliária, muita gente mudou do bairro, as crianças não saem mais de casa – ou do condomínio – pra jogar bola, etc. Mas ai, como o que é ruim pode piorar, a nova onda é acabar com o campo e botar um tapete sintético no lugar, é destruir o terreiro de terra batida ou de cimento, onde fica o bar do clube, para por piso frio, é não louvar os pioneiros, é desconsiderar e desconhecer a própria história. É cultivar um simulacro de várzea que mais parece uma reunião de condôminos de um clube de classe média alta para jogar bola entre si aos finais de semana, onde aquela iniciação pela ginga e pela habilidade dá lugar a um “público selecionado”. Abrem-se cada vez mais as portas para um futuro asséptico, moderno e indigno. E o discurso que opera esta lógica domina corações e mentes, tendo raras vozes a se levantar contra.

Enquanto botarmos abaixo o que devia ser tombado pelo patrimônio histórico – material e imaterial -, enquanto não entendermos que uma grama sintética e um piso frio assassinam uma parte importante da conformação social que fundamentou a vida de bairro na nossa cidade, enquanto seguirmos “pra frente” perdendo de vista o que somos, vamos bater cabeça e ter pouco a ensinar e a desencantar as novas gerações. E o terrão, neste caso, é fator primordial. Que outros clubes varzeanos que ainda sobrevivem se atentem a isto.

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A Incrível Volta do Tricolor Suburbano ao Redor do Mundo

Em 1914 foi fundado, por comerciantes do bairro que leva o mesmo nome, o Madureira, clube de futebol da cidade do Rio de Janeiro. Com as cores amarela, azul e grená, a equipe foi apelidada de tricolor suburbano.

Símbolo do Madureira

Símbolo do Madureira

Mas o post é sobre um documentário…

Com produção e direção de Pedro von Krüger e Felipe Nepomuceno, e pouco mais de 20 minutos de duração, o curta “A Incrível Volta do Tricolor Suburbano ao Redor do Mundo” narra a viagem do Madureira pelo planeta em 1961. Naquele período ainda não existia o Campeonato Brasileiro e normalmente as equipes disputavam apenas os estaduais, que aliás era a única coisa que importava para os clubes brasileiros até bem pouco atrás… mas isso é conversa pra outro post. Com essa agenda mais espaçosa sobrava tempo para os times excursionarem pelo mundo e arrecadar um pouco de dinheiro.

Presidido então por José da Gama, um dos primeiros empresários a negociar jogadores no país, o Madureira sai para dar um giro pelo mundo, e aquela não seria uma viagem qualquer, a volta do Tricolor Suburbano se tornaria a maior permanência de um clube brasileiro fora do país até os dias de hoje. Foram 36 jogos em 144 dias. América Central, Europa, Ásia, Oriente Médio e Estados Unidos. Com direito a passagens, em plena guerra fria, por União Soviética, China e Cuba.

Che Guevara recebe a equipe do Madureira.

Che Guevara recebe a equipe do Madureira.

O documentário é singelo. É bonito, simples e muito bem produzido. Emocionante. Através de recortes de jornais e fotografias da época, reconstrói a aventura do Tricolor Suburbano. Com narração dos próprios atletas, como o meio-campista e capitão da equipe Jorge Farah, vamos conhecendo pedaços e lembranças da aventura daqueles atletas. A trilha sonora é outro destaque, serve de moldura para as fotos desgastadas pelo tempo que são apresentadas na tela.

Esse é o primeiro documentário que o Pelota de Trapo indica. E não é por acaso. Trata-se de um belíssimo exemplo da leitura que podemos fazer do nosso futebol. Memórias, vozes frágeis de senhores relembrando, com certa dose de ingenuidade e romantismo, um período do nosso futebol que passou…mas que só será esquecido se a gente deixar.

Assista a “A Incrível Volta do Tricolor Suburbano ao Redor do Mundo”:

A Incrível Volta ao Mundodo Tricolor Suburbano from Nepomuceno Filmes on Vimeo.

Obrigado ao professor Evandro Braga pela dica!

Iugoslávia nos mundiais de futebol

Quem acompanhou a Copa do Mundo de 2014 assistiu a estreia da seleção da Bósnia-Herzegovina e viu a primeira partida da seleção brasileira contra a Croácia. Porém os jogadores de futebol desses novos países, de gerações anteriores, disputavam o mundial com outra camisa, a da seleção da Iugoslávia. As duas seleções, Bósnia e Croácia faziam parte da Iugoslávia ao lado de Sérvia, Montenegro, Eslovênia e Macedônia.

Neste texto tratamos do país enquanto República Socialista Federativa da Iugoslávia, período que vai de 1945 até 1992.

Símbolo da seleção da Iugoslávia.

Símbolo da seleção de futebol da Iugoslávia.

Enquanto República Socialista, a Iugoslávia disputou sete Copas do Mundo*, é sobre essas participações que vamos falar…

A estreia da Iugoslávia socialista no Mundial de 50 e as derrotas frente à Alemanha Ocidental

Após 12 anos sem Copa do Mundo, em virtude da Segunda Guerra Mundial, o torneio voltou a ser organizado em 1950 no Brasil. A seleção iugoslava caiu na mesma chave dos anfitriões brasileiros, e, como só uma seleção por grupo passava para a fase final, os brasileiros acabaram eliminando a seleção do Leste Europeu.

A primeira partida da Iugoslávia socialista em mundiais aconteceu no estádio Independência, em Belo Horizonte, quando venceu a Suíça por 3 a 0 no dia 25 de junho de 1950.

Goleiro da Iugoslávia durante a partida contra a Suiça em Belo Horizonte.

Goleiro da Iugoslávia durante a partida contra a Suiça na Copa de 1950, em Belo Horizonte.

Quatro anos depois, na Copa do Mundo de 1954, disputada na Suíça, os iugoslavos fizeram uma boa primeira fase, garantindo-se (garantindo uma vaga) nas quartas de final após um empate por 1 a 1 contra o Brasil. Na fase seguinte acabaram eliminados pela Alemanha Ocidental, futura campeã do mundo naquela ocasião.

O mesmo cenário se repetiu na Suécia, em 1958. Após uma boa primeira fase dos iugoslavos lá estavam de novo os alemães nas quartas de final para despachar novamente os iugoslavos para casa.

1962, a melhor participação iugoslava em Mundiais

No Mundial do Chile, em 1962, os iugoslavos fizeram sua melhor campanha na história das Copas. Após classificarem-se novamente para as quartas de final, quis o destino que os alemães aparecessem pela frente pela terceira vez consecutiva. Mas, dessa vez, os iugoslavos deram o troco, e com uma vitória de 1 a 0 passaram para as semifinais.

Seleção iugoslava na Copa de 62

Seleção iugoslava na Copa de 62

No entanto, nas semifinais, a Tchecoslováquia bateu a Iugoslávia por 3 a 1 e fez a grande final contra o Brasil. Na decisão do terceiro lugar, contra o Chile, uma nova derrota deixou os iugoslavos com a quarta posição da Copa. Além da boa colocação obtida, os iugoslavos ainda tiveram um dos artilheiros da competição, Dražan Jerković, de origem croata, com 4 gols marcados.

O retorno aos Mundiais em 1974 e a despedida contra a Argentina de Maradona

Após alguns mundiais sem conseguir a classificação, os iugoslavos voltaram a disputar o Mundial em 1974. Depois de uma boa primeira fase, classificando-se em primeiro lugar em um grupo que contava também com o Brasil, a seleção não foi bem na segunda fase e acabou eliminada. O destaque em 1974 ficou por conta da goleada em cima do Zaire por 9 a 0.

Em 1982, na Espanha, a Iugoslávia foi eliminada na primeira fase em um grupo muito equilibrado.

A última vez que os iugoslavos, enquanto regime socialista,disputaram um Mundial, foi em 1990, na Itália. Naquela ocasião a forte seleção iugoslava avançou até as quartas de final. Mas, no caminho, estava a Argentina de Maradona e Caniggia. Após um 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação a partida foi para os pênaltis. Foi então que a estrela do goleiro argentino Goycochea brilhou. Duas defesas garantiram a presença do país sul-americano nas semifinais, mesmo com o craque Maradona desperdiçando sua cobrança.

1990, última participação da República Socialista Federativa da Iugoslávia em uma Copa do Mundo

1990, última participação da República Socialista Federativa da Iugoslávia em uma Copa do Mundo

Dessa forma emocionante terminava a participação da República Socialista Federativa da Iugoslávia na história das Copas do Mundo de futebol. Ainda deu tempo de Robert Prosinečki, nascido na Alemanha, mas filho de croatas, ser eleito como o melhor jovem atleta da competição.

Após a desintegração do país, Eslovênia e Croácia fizeram boas campanhas nos mundiais de 2010 e 1998, respectivamente.

 

*No total, a Iugoslávia contabiliza 9 participações, porém, na primeira participação em 1930, quando terminou entre as quatro melhores, o país ainda vivia sob o regime monárquico – período interrompido entre 1941 e 1945, quando ressurgiu como República Socialista Federativa da Iugoslávia até sua dissolução em 1992. Em 1998, na sua nona participação com o nome Iugoslávia, a República Socialista já tinha se desfeito, e a seleção era composta basicamente por atletas sérvios e montenegrinos.

“Lampions League”: viva o futebol nordestino! – Por Caio Botelho

O baiano Caio Botelho faz hoje sua estréia no Pelota de Trapo, formado em direito, faz boas análises sobre futebol. Caio escreveu sobre a Copa do Nordeste, um campeonato que vem demonstrando nos últimos anos a força dos clubes e dos torcedores daquela região do país. 

O time do nosso novo colaborador  é o Esporte Clube Bahia, que esse ano chegou na final da “Lampions League”, como ficou conhecido o torneio. Mais um craque das palavras veste a camisa e entra em campo no Pelota de Trapo… 

No último dia 29 de março a Arena Castelão, em Fortaleza, recebeu nada menos do que 63.399 pagantes para o último jogo da final da Copa do Nordeste, entre Ceará x Bahia – o maior público do ano no futebol brasileiro¹. No jogo anterior, a Arena Fonte Nova, em Salvador, teve sua carga de ingressos esgotada em menos de 24 horas após o início das vendas. Foi uma final digna de um grande torneio como a Copa do Nordeste, que a irreverência do povo nordestino tratou de apelidar carinhosamente de “Lampions League”, em referência ao líder cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e à Liga dos Campeões da Europa (Champions League).

A equipe cearense levou o título depois de jogar melhor e vencer as duas partidas, inclusive a que foi disputada na Fonte Nova, lotada por apaixonados torcedores do Tricolor da Boa Terra. O primeiro placar foi 1 x 0 e o segundo 2 x 1, sempre favoráveis ao “Vozão”.

Hoje, a Copa do Nordeste é a competição regional mais rentável, de maior sucesso e com a maior média de público do país, superando inclusive os badalados campeonatos paulista, carioca, mineiro e gaúcho. Não à toa que Flamengo (veja aqui) e Goiás (leia aqui) já manifestaram a intenção de participar da competição, tendo, por enquanto, suas solicitações negadas.

Torcida do Bahia durante partida da Copa do Nordeste.

Torcida do Bahia durante partida da Copa do Nordeste.

Mas, além disso, a realização da Lampions League representa também um gesto de resistência e rebeldia da região.

Isso porque a história da Copa do Nordeste não é nada fácil. Criada efetivamente em 1994 (antes havia sido realizada uma edição em 1976), passou para o comando da CBF em 1997, e as edições seguintes colecionaram um sucesso após o outro. A Copa se consolidava, crescia e ganhava robustez, ao ponto de começar a ameaçar os interesses de certos cartolas, preocupados com o novo polo de desenvolvimento que o futebol brasileiro ganhava.

Tais condições fizeram com que a CBF cancelasse o torneio em 2004. Oficialmente, a alegação era de que não havia mais espaço no calendário do futebol para a sua realização. Claro que ninguém caiu no conto da cartolagem e a atitude gerou inúmeras revoltas e protestos dos clubes e torcedores nordestinos. Além disso, a entidade máxima do futebol canarinho buscou de todas as formas inviabilizar a realização da Copa por outros meios. A briga foi parar na justiça e, depois de alguns anos, a CBF se viu obrigada a fazer um acordo para permitir o retorno da competição.

Desse modo, desde 2013 a Copa do Nordeste vem sendo disputada continuamente. A responsabilidade por sua organização pertence à Liga de Futebol do Nordeste, formada por quinze clubes da região², e o campeão garante uma vaga para a Copa Sul-americana.

Grupos da Copa do Nordeste de 2015

Grupos da Copa do Nordeste de 2015

O centro da questão é que a valorização do futebol para além do eixo Sul-Sudeste (ou Rio – São Paulo) é passo indispensável no processo de rediscussão do esporte favorito dos brasileiros. É evidente que um campeonato que se pretende nacional não pode ter dezoito dos vinte clubes da Série A concentrados em duas regiões, ao passo em que o Nordeste conta com apenas um representante, o Centro-Oeste com outro e o Norte com nenhum.

Desde que o sistema de pontos corridos foi adotado, nunca um Clube do Nordeste conseguiu se classificar para a Libertadores da América, e o time da região que ficou por maior tempo consecutivo na elite foi o Bahia, cuja última permanência durou cinco anos, antes de ser rebaixado em 2014.

Mas pudera: no ano passado o Clube baiano contou com uma receita de R$ 75,8 milhões e outro rebaixado, o Vitória, teve R$ 61,8 milhões – foram as duas receitas mais altas de clubes do Nordeste. Por outro lado, os quatro classificados para a Libertadores contaram com um aporte financeiro algumas vezes maior: o Internacional, R$ 221,5 milhões; o Cruzeiro, R$ 223,2 milhões; o São Paulo, R$ 255,3 milhões; e o Corinthians, R$ 258,2 milhões. O Flamengo, mesmo terminando na 10ª posição, teve uma receita de R$ 347 milhões (sobre as receitas leia aqui). Tais valores são turbinados por uma questionável fórmula de distribuição de cotas de televisão, com a Rede Globo na condição de protagonista dessa imoralidade. Nesses termos, os clubes de fora desse eixo ficaram praticamente relegados à disputa pela zona do rebaixamento.

Torcida do Ceará na final da Copa do Nordeste. O maior público do futebol brasileiro desde o final da Copa do Mundo de 2014...

Torcida do Ceará na final da Copa do Nordeste. O maior público do futebol brasileiro desde o final da Copa do Mundo de 2014…

Aliás, o combate à invisibilidade na grande mídia é outro desafio a ser superado. Em 2014, a Globo transmitiu, para Salvador, mais jogos do Flamengo no campeonato brasileiro do que do Bahia e do Vitória juntos, mesmo os dois times baianos tendo maiores torcidas do que o clube carioca na região (o que joga a já falaciosa justificativa da audiência para as cucuias) e todos estarem disputando a Série A. O referido título do Ceará ganhou, quando muito, curtas matérias em alguns sites e programas da mídia hegemônica.

É uma clara demonstração de que a luta pela democratização dos meios de comunicação pertence também ao mundo do futebol, e suas torcidas precisam abraçar essa bandeira, já que nela também está incluída a defesa do conteúdo regional nas programações.

Não se trata, evidentemente, de estimular falsas polarizações regionais, do tipo Nordeste versus Sudeste. Pelo contrário. Os grandes clubes paulistas, cariocas, mineiros e gaúchos possuem imensas e apaixonadas torcidas. São portadores de incontestáveis títulos e carregam fortes tradições. Merecem o respeito e admiração de todos os que gostam de futebol.

Além do mais, a formação histórica do Brasil teve como resultado um povo uno, que não se divide em rivalidades regionais menores e valoriza a unidade de nossa Nação (o que não é contraditório com a defesa e valorização das diversidades nela existentes).

Mas equilibrar o jogo fora das quatro linhas é indispensável para que dentro delas possamos contar com espetáculos ainda mais bonitos. Clubes fortes no Nordeste, Centro-Oeste e Norte interessam a todos os brasileiros, na medida em que nivelarão ainda mais por cima o nosso campeonato (que precisa ser efetivamente do conjunto do país) e o tornarão mais competitivo.

Tenham certeza: torcida e amor ao futebol não faltam por essas bandas.

 

¹ A grande imprensa tem divulgado (propositadamente) a falsa informação de que o maior público do ano teria ocorrido no jogo entre Vasco x Botafogo pela final do Campeonato Carioca. Na verdade, quando contamos apenas com o público pagante (o que é mais coerente), foram 58.446 pessoas presentes no Maracanã, cerca de cinco mil a menos dos que estiveram no Castelão.

² São eles: ABC, América, Confiança, Botafogo-PB, Ceará, CSA, CRB, Náutico, Sergipe, Bahia, Vitória, Fluminense de Feira, Fortaleza, Treze e Santa Cruz.

A integração passa pelas quatro linhas

Noite de quinta-feira, 07 de maio, na cidade de Buenos Aires dois gigantes do futebol mundial entram no estádio Monumental de Nuñez, mítico templo do esporte argentino, onde, entre outras coisas, a seleção local levantou seu primeiro título mundial em 1978. River Plate e Boca Juniors, com suas histórias e suas cores. Para quem gosta de futebol o espetáculo que uma torcida argentina proporciona ao receber sua equipe no gramado é algo único. E durante os 90 minutos não param de cantar.

As cores vermelha e branca do River Plate predominam. Jogam em casa.

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Estádio do River Plate na noite de ontem…

O jogo vale pelas oitavas de final da Taça Libertadores da América. O torneio mais importante e mais conhecido do nosso continente. Cinco clubes brasileiros ainda estão na disputa. O vencedor do super clássico argentino enfrenta quem passar do duelo entre Cruzeiro e São Paulo. Ou seja, a partida, além de ser um dos jogos mais importantes do mundo pela história dos clubes, interessa diretamente ao público brasileiro.

Mas se o debate sobre a integração do nosso continente é mais forte do que nunca nesse começo de século, nossa mídia continua virada de costas para os demais países da América do Sul. Nossa TV aberta tem seus pés fincados em séculos passados e consegue olhar apenas para a Europa. As tardes da Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão da Taça Libertadores, são recheadas de Champions League, o equivalente europeu à Libertadores.

Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Chelsea… clubes cada vez mais íntimos dos brasileiros. Nossos garotos desfilam com as camisas dessas equipes pelas ruas. Assistem ao futebol sul americano apenas quando as equipes do Brasil enfrentam os clubes dos outros países. Somos bombardeados com jogos do futebol europeu.

Camisetas de times sul americanos pelas ruas de São Paulo são raras. Mas facilmente encontradas na feira boliviana da Praça Kantuta, quem mora na cidade e visita a feira com frequência, preste atenção da próxima vez e certamente encontrará além de camisetas de clubes bolivianos e brasileiros, também muitos uniformes de equipes argentinas, uruguaias e eventualmente também de clubes do Paraguai e do Peru.

Lance da partida entre River e Boca

Lance da partida entre River e Boca

River e Boca foi um grande jogo. Muito disputado, por vezes até violento. Mas não passou para os brasileiros. Nossa TV aberta, e vale lembrar que são concessões públicas, não tem e nunca teve interesse na integração cultural do continente. O futebol é elemento formador de nossa identidade e de nossa cultura, assim como aconteceu nacionalmente, poderia ser um forte componente da integração do Brasil com a América do Sul. Mas não é e poderia ser, o futebol não é só o jogo de 90 minutos. São formas de torcer, formas de jogar, a maneira de se vestir e de cantar dos torcedores e por ai vai. Uma rica experiência cultural.

Vem ai a Copa América de seleções, em julho desse ano. O torneio acontece no Chile, e podem anotar, se o Brasil não estiver na final, não assistiremos nem ao jogo decisivo nos canais abertos.

Ah, o River ganhou de 1 a 0. Na próxima semana voltam a se enfrentar na casa do Boca, a temida La Bomboneira.

Drummond e o futebol – Por Wevergton Brito

Hoje o Pelota de Trapo apresenta seu primeiro colaborador. Wevergton Brito é jornalista, editor do Portal Vermelho, carioca e vascaíno. Acredito que mais vascaíno do que carioca. 

Wevergton Brito entra em campo pelo Pelota de Trapo apresentando um texto, produzido em 2003, sobre a relação dos escritos de Carlos Drummond de Andrade e o futebol.

Então entra em campo Wevergton Brito com a camisa 10….

Em uma coluna anterior, ao me referir à Garrincha, citei um texto de Carlos Drummond de Andrade onde ele exaltava, de forma lírica, a magia do “anjo de pernas tortas”.

Recentemente, o camarada José Arnaldo (que ostenta entre seus inumeráveis defeitos o de ser torcedor fanático do Flamengo, mas por outro lado é um excelente amigo) me presenteou com o livro “Quando é dia de futebol”, editado pela Record em 2002, e que reúne textos sobre futebol escritos pelo poeta.

Com prefácio de Pelé, o livro é uma leitura deliciosa (apesar do prefácio, dirá algum maledicente). Além do talento de Drummond, que dispensa comentários, o leitor irá se deliciar com textos curiosos, como “Enquanto os mineiros jogavam”, escrito em 1931, onde Drummond revela seu espanto ao se deparar com conterrâneos ouvindo um jogo de futebol pelo rádio, quando mineiros e cariocas se defrontaram na então capital da república. Escreveu Drummond: “Não posso atinar bem como uma bola, jogada à distância, alcance tanta repercussão no centro de Minas”. Com o passar do tempo, o leitor nota que Drummond passa não só a compreender esse fenômeno, como também se torna parte dele.

Ao ganhar o livro, imediatamente procurei ver se nele havia um texto escrito para o Jornal do Brasil em 1982, após o Brasil ter sido eliminado da Copa do Mundo. Meu pai era assinante do JB e Drummond conseguiu captar, naquele texto, toda a beleza singela que envolve essa paixão nacional, em um texto comovente, que ficou marcado em minha memória, e que, para minha alegria encontrei no livro. O título é “Perder, Ganhar, Viver”. Aí vai um trecho: “Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois os seus corações estavam programados para a alegria”.

Garoto chora a eliminação da seleção de 1982 em foto famosa do Jornal da Tarde.

Garoto chora a eliminação da seleção de 1982 em foto famosa do Jornal da Tarde.

O ponto baixo do livro é que os seus organizadores, Luis Mauricio e Pedro Augusto (netos do poeta), escolheram vários textos onde o futebol não era o assunto principal, e nem ao menos secundário. O critério fica claro: bastava aparecer a palavra futebol, ou alguma outra relacionada ao tema, e o texto era incluído.
De qualquer maneira isso é largamente compensado pelas poesias e por crônicas como “Mané e o Sonho”, citada no início deste artigo.

Quando é Dia de Futebol revela o Drummond torcedor, e torcedor vascaíno ainda por cima. Em diversos textos o poeta exalta, reclama e torce pela seleção e pelo Vasco como se estivesse em uma arquibancada. Como nos versos finais da poesia “A Semana Foi Assim”:

“E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
Vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente”.

Vasco, campeão brasileiro de 1974, clube de coração do Drummond.

Vasco, campeão brasileiro de 1974, clube de coração do Drummond.

1989: A primeira Copa do Brasil

A primeira Copa do Brasil de futebol, em sua essência talvez o torneio mais democrático do país, foi disputada em 1989 (mesmo ano em que os brasileiros voltaram a eleger o presidente nas urnas), mas até chegarmos a um torneio de abrangência nacional foi um longa jornada…

Um pequeno histórico das competições nacionais

Com a criação da Libertadores da América (leia sobre a primeira aqui), o Brasil era obrigado a indicar “o melhor clube do país” para a disputa. A primeira Libertadores aconteceria em 1960, dessa forma, em 1959, a então CBD (atual CBF), institui a Taça Brasil. O que aparentemente seria a mesma coisa que a atual Copa do Brasil, não era igual. O baixo nível de profissionalização do nosso futebol no período dificultava a participação das equipes, sobretudo, do Norte e Nordeste (as longas e dispendiosas viagens sempre foram um impedimento para um torneio nacional no Brasil).

Embora, para surpresa geral, a primeira Taça Brasil tenha sido vencida por um time de fora do eixo Rio-SP, o Bahia, isso só se repetiu mais uma vez na história da Taça, em 1966, quando o Cruzeiro de Tostão sagrou-se campeão. O torneio existiu até 1968 e, recentemente, a CBF passou a considerar os campeões da Taça Brasil os campeões brasileiros de sua época.

Cruzeiro, campeão da Taça Brasil de 1966

Cruzeiro, campeão da Taça Brasil de 1966

Em 1933, aconteceu o primeiro Torneio Rio-São Paulo, que passou a ser disputado anualmente de 1950 até 1966, reaparecendo já nos anos 90. Como o nome já adianta, não é um torneio nacional, apenas dois estados participam. Porém, com o fim da Taça Brasil em 1966, surge em 1967 uma tentativa de expandir o Rio-SP e transformá-lo em uma competição de fato nacional. O campeonato se chamaria Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o popular Robertão. Mas ainda sim, estava longe de ser uma competição que daria chances iguais para todas as partes do país. Na primeira edição, por exemplo, além das equipes do Rio de Janeiro e de São Paulo apenas equipes do sul do país foram chamadas. Para a segunda edição, Bahia e Pernambuco puderam mandar seus respectivos campeões. E nunca passou disso. Apenas 7 estados participaram deste torneio, que também, recentemente, teve seus campeões reconhecidos pela CBF como legítimos campeões brasileiros.

Em 1971, enfim, surge o Campeonato Brasileiro. Ainda privilegiando os clubes do Sul e Sudeste e com um estranho regulamento que além de classificar as equipes por pontos, também classificava por ingressos vendidos. Muitos clubes, segundo acusações da época, compravam seus próprios ingressos para tentar a classificação. Era uma clara tentativa de popularizar a competição, já que os estaduais eram os preferidos dos torcedores.

Jairzinho, do Atlético Mineiro, cabeceia para marcar o gol do título do primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971.

Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro, cabeceia para marcar, contra o Botafogo-RJ, o gol do título do primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971.

Durante 73 e 86, a CBF tentou colocar ao menos um representante de cada federação nos torneios. Até a implosão daquela forma de competição em 1987 com a criação da Copa União (que será tema de outro texto no futuro…) e que contava apenas com 16 clubes. Porém tabelas complicadas, regulamentos injustos e, mais uma vez, as longas distâncias que encareciam as viagens sempre dificultaram o sucesso das equipes de fora do eixo Sul-Sudeste.

O Campeonato Brasileiro é disputado até hoje e apenas dois clubes de fora do eixo Sul-Sudeste disputarão o certame desse ano, Goiás e Sport de Recife.

E chegamos a Copa do Brasil…

Em julho de 1989 foi disputada a Copa América no Brasil. Depois de 40 anos nossa seleção levantava a taça da competição sul-americana. A final entre Brasil e Uruguai aconteceu no dia 16 de julho, no estádio do Maracanã. Apenas 3 dias depois, dia 19 de julho, tinha início a primeira Copa do Brasil. 32 equipes representando 22 estados do país. Sendo 22 campeões estaduais e 10 vices campeões.

Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste em uma competição onde todos tinham as mesmas chances de ser campeões. O campeão seria um dos indicados pelo Brasil para disputar a Libertadores, naquele ano apenas dois clubes iam para a competição continental.

Do dia 19 de julho até o dia 02 de setembro, as equipes se enfrentaram em jogos eliminatórios (confira a tabela aqui). Os estaduais daquele ano foram disputados no primeiro semestre e o Campeonato Brasileiro começou só depois do término da Copa do Brasil.

Após as duas primeiras fases, os confrontos das quartas de finais foram os seguintes: Corinthians x Flamengo, Vitória x Sport, Goiás x Atlético (MG) e Bahia x Grêmio. Com 4 equipes de fora do eixo Sul-Sudeste e apenas dois clubes de Rio e SP, podemos ter uma dimensão da injustiça que foi cometida com as equipes de fora desses centros durante toda a história do futebol brasileiro.

Flamengo e Grêmio de um lado. Goiás e Sport de Recife do outro. Essas eram as semifinais. Após um empate por 2 a 2 no Maracanã, o Grêmio aplicou uma estrondosa goleada no rubro-negro carioca por 6 a 1 no Olímpico e classificou-se para a grande final. No duelo entre Goiás e Sport, os goianos levaram a melhor na primeira partida, no estádio Serra Dourada, e venceram por 2 a 1, com direito a gol do artilheiro Túlio. Na partida de volta na Ilha do Retiro, o time de Recife venceu por 1 a 0 e se credenciou para a final por ter marcado um gol fora.

No vídeo abaixo os gols da goleada por 6 a 1 do Grêmio sobre o Flamengo…

No dia 26 de agosto de 1989, Grêmio e Sport ficaram no 0 a 0. Uma semana depois, no sábado dia 02 de setembro, o Grêmio se tornou o primeiro campeão da Copa do Brasil ao vencer o Sport por 2 a 1. Gols de Assis, irmão do Ronaldinho Gaúcho, que por sua vez ainda era um pequeno garoto, e Cuca, o mesmo que depois virou treinador.

copa do brasil 1989

Assis comemora seu gol na final da Copa do Brasil contra o Sport.

O torneio ainda reservou histórias curiosas, como a equipe do Mixto (MT), que após tomar de 5 em casa do Grêmio, alegou falta de passagens para Porto Alegre e nem viajou para o jogo de volta e foi a primeira vez que foi utilizado no Brasil o sistema de o gol fora de casa valer mais no caso de resultados iguais do que os marcados dentro de casa.

A Copa do Brasil existe até hoje. Santo André (SP) (vencendo o Flamengo na final), Criciúma (derrotando o Grêmio), Paulista de Jundiaí (vitória sobre o Fluminense) e Juventude (RS) (desbancando o Botafogo-RJ na decisão) já romperam o bloqueio dos considerados “grandes” e levantaram a taça de campeão reforçando a equidade de forças que o torneio proporciona.

Grêmio e Cruzeiro, com 4 títulos cada, são os maiores campeões da competição.

Grêmio, campeão da primeira Copa do Brasil em 1989

Grêmio, campeão da primeira Copa do Brasil em 1989

A volta do Novorizontino

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Vice-campeão paulista de 1990, campeão brasileiro da série C em 1994, o Grêmio Novorizontino pode ter poucas conquistas em seu histórico, mas durante o final dos anos 80 e início dos 90 chamou atenção de todos que acompanhavam o futebol brasileiro.

O vice-campeonato de 90

A fase decisiva do Campeonato Paulista de 1990 era composta por dois grupos com 7 clubes cada. O melhor colocado de cada grupo disputaria a final. No grupo A, o Bragantino surpreendeu a todos e chegou a decisão deixando o Corinthians de Neto para trás, do outro lado, Palmeiras, que era o grande favorito para conquistar a vaga, Guarani e Novorizontino chegavam à última rodada com chances matemáticas. Uma vitória simples da equipe de Novo Horizonte diante da Portuguesa colocaria o tigre, como é chamado por seus torcedores, na final. Mas a equipe apenas empatou diante da Lusa.

A chance estava com Palmeiras e Guarani. Embora as equipes tivessem o mesmo número de pontos, os palmeirenses tinham melhor de saldo de gols e uma vitória a mais. Com o empate entre Guarani e XV de Piracicaba, bastava uma vitória simples do Palmeiras diante da Ferroviária de Araraquara, no estádio do Pacaembu, para ficar com a vaga e tentar terminar com o jejum de 14 anos sem título. Mas o inacreditável aconteceu, e o alvi-verde da capital ficou no 0 a 0 com a lanterna do grupo. O Novorizontino estava na final.

Equipe do Novorizontino que chegou a final do Campeonato Paulista de 1990

Equipe do Novorizontino que chegou a final do Campeonato Paulista de 1990 (Foto: Arquivo pessoal do Odair, que jogou no Palmeiras e na seleção, o primeiro em pé da esquerda para a direita)

Na decisão do interior, a primeira da história do futebol paulista, o Bragantino levou a melhor, e após dois empates, por 1 a 1, conquistou o título. O clube de Bragança Paulista jogava por dois resultados iguais por ter obtido melhor campanha durante a competição.

Mas ter disputado a final já era um grande feito. Aquela equipe revelou para o país jogadores como Márcio Santos, zagueiro titular na Copa de 94, Paulo Sérgio, que também fazia parte do elenco canarinho naquela Copa e depois ídolo do Corinthians e do Bayern de Munique, Luiz Carlos Goiano, campeão da Libertadores pelo Grêmio, o goleiro Maurício, campeão paulista pelo Corinthians em 2001 e também, o então novato, treinador Nelsinho Batista, que no final daquele mesmo ano levou o Corinthians ao primeiro título brasileiro de sua história.

marcio santos

Márcio Santos disputa bola com o italiano Roberto Baggio durante a final da Copa do Mundo de 1994

paulo sergio bayern

O atacante Paulo Sérgio, também campeão do mundo pela seleção em 94, comemora gol com a camisa do Bayern de Munique da Alemanha.

A decadência e o retorno

Depois do título do Brasileiro da Série C a equipe despencou. Após uma gestão desastrosa fechou as portas em 1999. Em 2010, Novo Horizonte pode comemorar a volta do “Tigre”. Mesmo que para fins jurídicos trate-se de uma equipe diferente, embora com o mesmo nome a as mesmas cores, para seus torcedores e para sua cidade pouco importa, é o velho Novorizontino de volta aos gramados.

E depois de uma sequência de acessos, partindo do equivalente a quarta divisão do Campeonato Paulista, a equipe sacramentou recentemente seu retorno à primeira divisão. O Novorizontino, em 2016, volta a enfrentar os grandes do estado.

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O escudo do reformulado Novorizontino