E o Brasil não viu a Recopa….

A América do Sul possui muitos torneios nacionais e regionais extremamente importantes e tradicionais. Porém dois certames se destacam por reunir clubes de todo o continente, um é a Taça Libertadores da América, e o outro, criado mais recentemente, a Copa Sul-Americana. Até ai, nada de novo para quem acompanha futebol…

Acontece que, além dessas duas competições, desde 1989, temos também na América do Sul a Recopa Sul-Americana, que reúne o campeão da Libertadores para enfrentar o vencedor do outro torneio importante do continente (Supercopa, Copa Conmebol, e hoje em dia a Copa Sul-Americana).

Na primeira edição, em 89, o Nacional do Uruguai foi campeão, venceu o Racing da Argentina. De lá pra cá, os brasileiros São Paulo, Grêmio, Cruzeiro, Internacional, Santos, Corinthians e Atlético Mineiro já conquistaram a taça da Recopa, ou seja, trata-se de uma disputa que interessa ao torcedor do Brasil.

Na noite da última quarta-feira (14), o Grêmio, atual campeão da Libertadores, entrou em campo para enfrentar o campeão da Sul-Americana, o Independiente, ou seja, entravam no gramado de Avellaneda, nada mais, nada menos, do que 10 títulos da Libertadores se somarmos os dois. Clássico para ninguém botar defeito. Quer dizer, quase ninguém. Porque a TV responsável por exibir o confronto, a Rede Globo, simplesmente não mostrou a partida para todo o Brasil. E não para por aí, na tarde de ontem, a mesma emissora colocou seu principal narrador e alterou sua “intocável” grade de programação para que os brasileiros de Norte a Sul do mapa acompanhassem Real Madrid x Time do Neymar (conhecido na Europa como PSG), partida válida pelas oitavas de final da Champions League.

Apesar de alguns jogadores brasileiros importantes estarem em campo, não dá para entender a razão de preterir uma partida da envergadura de Grêmio x Independiente para todo o Brasil e apresentar o, tradicional, Real Madrid contra o PSG (quem mesmo?). Por mais que nossas ruas estejam repletas de camisas azuis e vermelhas da equipe francesa, por causa do marketing em torno do jogador Neymar e não da história do time parisiense, é virar as costas demais para nossa América do Sul. É como simplesmente privar o torcedor brasileiro de assistir um dos maiores clássicos do nosso continente.

Já não causa surpresa quando nossos garotos e garotas, apaixonados por futebol, respondem que torcem por Barcelona, PSG ou Real Madrid, ao invés dos nossos grandes clubes que deram de Pelé a Zico, passando por Rivaldo e Rivelino ao futebol mundial. É triste. Mas o processo de globalização do futebol europeu avança como um trator no esporte mais popular do mundo. E aí, quem tem dinheiro, sempre levará vantagem, e esses não somos nós, sul-americanos.

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Um retrato, ainda atual, do futebol brasileiro

O Campeonato Brasileiro da Série B nem sempre foi realizado. A sua primeira edição data de 1971, ano do primeiro Campeonato Brasileiro no formato atual. Naquele ano o Villa Nova de Minas Gerais foi o campeão. No ano seguinte, 1972, o torneio voltou a ser realizado com o maranhense Sampaio Corrêa levantando a taça. Depois disso, apenas em 1980 o certame voltou a acontecer.

Com diversas mudanças de calendários, regulamentos e formatos, e principalmente, com o aumento de clubes na Série A, que eventualmente tinha suas vagas decididas nos estaduais, o que valorizava ainda mais os torneios regionais, a Série B foi deixada de lado, só retornando, sob a alcunha de Taça de Prata, em 1980. Acontece que a Taça de Prata não era exatamente uma segunda divisão, pois alguns clubes subiam no mesmo ano para a Série A (Taça de Ouro na época) e outras piores colocadas nas fases iniciais da Taça de Ouro, caiam no mesmo ano para a versão de prata do torneio.

Após uma década muito confusa, incluindo o episódio Copa União em 1987, quando dois torneios nacionais foram realizados, no ano de 1989, com o Brasil às portas de sua primeira eleição para presidente depois da ditadura e no ano da realização da primeira Copa do Brasil (saiba mais aqui), a CBF decide organizar o que chamaria de Divisão Especial, o que seria equivalente a Série B do Campeonato Brasileiro.

Para a disputa da competição foram relacionados 96 clubes. Times do país todo disputando duas vagas na divisão principal de 1990. A revista Placar, edição 1011, de 27 de outubro de 1989, trouxe uma reportagem especial sobre a competição, destacando 16 equipes de diversas partes do Brasil, e os contrastes são inacreditáveis, mesmo que saibamos que se um torneio com essas dimensões fosse repetido hoje em dia, os mesmos desníveis apareceriam novamente.

Jogadores do Princesa do Solimões em seu local de treino

Entre as primeiras equipes destacadas está o Princesa do Solimões, clube da cidade de Manacapuru, no estado do Amazonas, única equipe do interior amazonense a disputar a Série B do nacional até hoje. Os atletas do clube apontavam na matéria da Placar, a sua localização geográfica como grande arma para surpreender os adversários, e os treinos, como demonstra a imagem acima, aconteciam nas margens do próprio Rio Solimões.

As histórias inacreditáveis, e não em um bom sentido, se repetem na reportagem a cada nova equipe que era apresentada. O Nacional, da cidade de Patos na Paraíba, não podia treinar diariamente no estádio municipal onde realizava seus jogos, o clube procurava então, nas palavras de seu atacante no período, campos de pelada para praticar o futebol. O Capelense, de Alagoas, reclamava que na viagem para Caruaru, para enfrentar a equipe local, o Central, seu ônibus foi invadido por assaltantes que levaram todo o dinheiro e até as roupas dos atletas, isso sem contar que a equipe mandava seus jogos em Viçosa, distante 25Km de Capela, a cidade do time.

Já o Ubiratan, de Mato Grosso do Sul, realizava seus treinamentos em um campo localizado em uma reserva, e vez ou outra a seleção indígena local queria participar da peleja também, segundo a matéria, o gramado ficava em uma área cercada por “gigantescas perobas com mais de 100 anos”. Da tríplice fronteira, Brasil/Paraguai/Argentina, vinha o Foz do Iguaçu (não confundir com a equipe atual de mesmo nome), e no trecho que apresenta esse clube o fato de receberam apoio de duas fontes de dinheiro bem diferentes chama a atenção. Um fonte era a estatal Itaipu, a outra era o dinheiro de bicheiros cariocas, e tudo isso convivendo em perfeita harmonia nas contas do clube paranaense.

Partida entre o Ubiratan (MS) e a seleção indígena local

Rio Branco do Acre, Itaperuna do Rio de Janeiro, que tinha apenas três meses e já estava no torneio, o Blumenau-SC, que tinha uma ótima estrutura e contava com vários patrocinadores, o gigante Santa Cruz-PE, o vice-campeão paulista daquele ano, São José, e que conseguiu uma das duas vagas pra Série A, ao lado do campeão do torneio que foi o Bragantino, treinado então por Vanderlei Luxemburgo, (que também conquistou a primeira divisão do campeonato paulista do ano seguinte e que no caminho pro título nacional eliminou nas fases finais o Juventus-SP, Criciúma-SC, Remo-PA, até chegar na final contra o São José), a matéria é uma grande compilação de equipes que como maior problema, além da falta de dinheiro, tinham a falta de apoio em suas próprias cidades e nenhuma condição nem para realizar treinos e jogos, são muitos os casos nesse torneio de equipes que mandavam suas partidas fora de suas cidades.

Tinha até zagueiro-mecânico, caso do Aroldo, do Colatina-ES (foto abaixo), que suava por um salário mínimo arrumando ônibus, para seguir jogando seu futebol, e lutando por uma sonhada vaga na Série A, do então futebol tri campeão do mundo.

O zagueiro-mecânico, Aroldo, do Colatina-ES

O que tudo isso pode nos fazer pensar é que certamente as dificuldades para equipes fora dos grandes centros, que são na verdade 4 ou 5 cidades, seguem existindo, pegando carona em uma reflexão de Hilário Franco Júnior, em seu texto “Brasil, país do futebol?”, podemos nos perguntar se somos o país desse esporte, ou se somos apenas uma nação que produz grandes futebolistas. As pessoas gostam de torcer para quem vence, ou existe mesmo uma ligação entre a comunidade e equipes locais, seja lá em que divisão a equipe que ostente a camisa da cidade, ou do bairro, esteja?

Fomos todos afastados desse enraizamento com o futebol local pelo grande poder da mídia (rádio e depois TV), ou as grandes mídias na verdade formaram esse peculiar gosto pelo futebol do brasileiro, que de outra forma nem existiria? E digo peculiar, porque não me lembro de outro país onde tantas pessoas torçam para clubes tão distantes de suas cidades enquanto os times locais vivem as mínguas, atolados em estaduais cada vez mais desvalorizados…

Não é a intenção desse texto responder todas essas questões, mas apenas apresentar um retrato de um país de praticantes de futebol que teimam em tentar a sorte chutando uma bola, mesmo que nem seus conterrâneos estejam lá muito preocupados com suas jogadas e suas camisas.

Sobre geopolítica e Eurocopa

União Soviética, campeã da Euro de 1960

Quem acompanha futebol, e mais especificamente o futebol europeu, sabe que a Eurocopa acaba por refletir ao extremo as transformações geopolíticas do continente, e do mundo. Desde a primeira edição, disputada em 1960, na França, disputas políticas e ideológicas marcam o percurso do torneio, e na próxima edição não será diferente…

Criado em 1960, o então chamado Campeonato Europeu das Nações, teve que lidar com a desistência de grandes seleções como Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália. Ainda na fase eliminatória do torneio, que teria apenas 4 seleções na sua fase final, a Espanha de Franco desistiu também, por se negar a enfrentar a União Soviética, em território soviético.

A França acabou sediando a primeira edição, que foi vencida pela URSS que bateu os iugoslavos por 2 a 1. Com um gol na prorrogação.

Em 1964, a UEFA leva o torneio justamente para a Espanha de Franco, e a URSS não desiste e disputa o torneio, ao lado da Dinamarca e da Hungria. Na final, os espanhóis evitam o bi campeonato soviético e vencem por 2 a 1. Em 1968, o certame passa a se chamar Campeonato Europeu de Futebol.

A competição teve a participação de 4 equipes até 1976, quando foi realizada, pela primeira vez, em um país do chamado “bloco socialista”, na Iugoslávia. Mas apesar de normalmente ir bem nos torneios de seleções, montando grandes equipes, os iugoslavos não levantaram a taça em casa. O título ficou com outro país na época socialista, a Tchecoslováquia.

Em 1980, a “Euro” começa a receber 8 seleções para a fase decisiva. Mas aquela batalha que marcava a disputa europeia desde 1960, entre seleções socialistas do leste, contra seleções ocidentais, estava prestes a mudar. Mesmo que a Europa ainda não soubesse, 1988, na Alemanha Ocidental, marca a última aparição da União Soviética no campeonato. A primeira campeã e equipe que sempre chegava nas fases decisivas, disputou sua última final, sendo derrotada pela Holanda por 2 a 0, e não existiria mais em 1992…

A primeira Euro dos anos 90, em 1992, foi realizada na Suécia e seria a última com 8 seleções. A URSS, que obteve vaga, foi substituída pela CEI, Comunidade dos Estados Independentes, que na prática trazia boa parte da seleção da URSS, mas agora como um conglomerado de pequenas nações. Por conta do início da Guerra da Bósnia, a Iugoslávia, que também estaria na Suécia para a fase final, foi eliminada pela UEFA, em seu lugar foi chamada a Dinamarca, que tinha sido batida pelos iugoslavos nas eliminatórias. Para surpresa geral, os dinamarqueses convidados, foram campeões no final.

O alemão Klinsmann, recebe a taça da Euro de 1996 realizada na Inglaterra

Em 1996, um continente com um número muito maior de nações independentes, resultado da queda do Muro de Berlim e consequente dissolução de nações como URSS e Iugoslávia, precisava de um torneio com mais equipes também. A solução foi dobrar a quantidade de vagas para a fase final da Euro. Teríamos, no torneio sediado na Inglaterra, 16 países. República Tcheca, Rússia e Croácia aparecem entre os classificados, apontando o novo momento do continente europeu. E quase os tchecos levam o título, perdendo de virada na final para a Alemanha.

De lá pra cá, poucas coisas mudaram, a novidade de dois países sediarem um mesmo torneio foi uma das poucas alterações, Holanda e Bélgica em 2000, Áustria e Suíça em 2008 e Polônia e Ucrânia em 2008 organizaram suas próprias competições conjuntas. A edição de 2016 contou com um novo aumento de participantes, agora são 24.

Um novo episódio da política da região aparece mais uma vez refletido na história da competição. Em 2020, pela primeira vez, a competição será sediada por toda a Europa. O plano da UEFA, era que 13 cidades, de 13 diferentes países, recebessem as partidas da Euro, acontece que a Inglaterra estava nos planos, e com o resultado recente do chamado Brexit, plebiscito que apontou a vontade dos britânicos pela saída da ilha da União Europeia, a relação poderia ter ficado estremecida.

Mas ao que parece, a competição, que acontecerá justamente um ano após a formalização da saída do Reino Unido da União Europeia servirá de certa forma para demarcar que as portas da ilha continuam abertas para os europeus. O prefeito de Londres, cidade que receberá as semifinais e a final do torneio, Sadiq Khan, afirmou que a cidade está aberta para receber todos.

Outro ponto a ser destacado é que Londres, de última hora, ganhou um número maior de partidas da Euro, justamente pela saída de Bruxelas, capital belga e cidade que abriga o Parlamento Europeu. O motivo da saída de Bruxelas foi a falta de garantias para a construção de um novo estádio para a ocasião.

Faltam dois anos para a próxima Eurocopa, Portugal de Cristiano Ronaldo é o atual campeão, mas é certo que a cada quatro anos o torneio seguirá sendo um forte reflexo da política europeia e de suas consequências.

Jogadores de Portugal comemoram o gol do título em 2016

Geopolítica e futebol: Neymar no PSG e o soft power do Catar – Por Emanuel Leite Jr.*

A informação antecipada pelo jornalista Marcelo Bechler em 18 de julho se confirmou na primeira semana de agosto. Neymar vai trocar o Barcelona pelo Paris Saint-Germain (PSG). A transferência do craque brasileiro vai se tornar a mais cara da história do futebol mundial: assombrosos € 222 milhões (valor da cláusula de rescisão). É mais do que o dobro dos € 105 milhões que o Manchester United pagou à Juventus por Paul Pogba.

Dinheiro, contudo, não é problema para o clube francês desde que foi adquirido, em 2011, pelo Qatar Sports Investments, subsidiário da Autoridade de Investimento do Catar. A contratação de Neymar pelo PSG vai muito além dos limites das quatro linhas. Trata-se de uma declaração política do Catar, que reafirma seus propósitos de afirmação internacional através do esporte como instrumento de soft power.

Ao longo do século 20, o esporte, como fenômeno cultural e espetáculo de massas que representa, foi se consolidando como uma manifestação de caráter internacional. Eric Hobsbawm afirma que foi no período entre as duas grandes guerras mundiais que o esporte se tornou “uma expressão de luta nacional, com os esportistas representando seus Estados ou nações, expressões fundamentais de suas comunidades imaginadas”. Por isso, é impossível dissociar a história do esporte moderno de elementos como orgulho nacional, prestígio internacional e diplomacia. Na esfera da disputa internacional, o esporte de alta competição tem a capacidade de reafirmar a identidade nacional, ao mesmo tempo em que pode ser utilizado como ferramenta de promoção da imagem do país – tanto na busca da aceitação e afirmação internacionais, como no estabelecimento de relações internacionais: o chamado soft power.

Soft power é um conceito introduzido por Joseph Nye que, ao descrever as relações de poder, definiu que “poder é a habilidade de influenciar as outras pessoas para se conseguir os resultados que se deseja, o que pode ser feito através da coerção, do pagamento ou da atração”. Em contraponto ao “poder duro”, que se caracterizaria pela coerção (força militar) ou do pagamento (força econômica), haveria o soft power (poder brando). “Um país pode obter os resultados que deseja na política internacional porque outros países – admirando seus valores, emulando seu exemplo e aspirando ao seu nível de prosperidade – vai querer segui-lo”, descreveu Nye.

O Catar é um emirado. Ou seja, é uma monarquia absolutista e hereditária governada por um Emir. Desde que se declarou independente do Reino Unido em 1971, recorreu ao esporte como um elemento de construção de sua identidade nacional. Ainda em 1971, Muhammad Ali participou de uma luta de exibição em Doha, capital do emirado. Já em 1973, o Santos de Pelé disputou um amistoso com o Al-Ahli SC, clube mais antigo do país. Mas foi através da criação do Comitê Olímpico do Catar em 1979 e o seu reconhecimento pelo Comitê Olímpico Internacional em 1980 que o país viu fortalecida sua imagem como uma nação independente.

Em 2008, o emirado lançou o Qatar National Vision 2030, um plano estratégico do país que visa mudar sua imagem no contexto internacional (bastante associada ao terrorismo, com suspeitas de financiamento de grupos terroristas como Estado Islâmico e a Irmandade Muçulmana) e, a partir da construção desta nova imagem, a busca por se estabelecer como uma referência de modernidade em sua região e de competitividade no mercado global. A abordagem da Visão Nacional 2030 inclui políticas de relações exteriores como mediação e resolução de conflitos; a criação de uma rede de televisão de referência mundial – Al Jazeera (e sua subsidiária beIN Sports); uma empresa aérea de classe mundial (Qatar Airways) e de um aeroporto que sirva de ponto de passagem entre continentes. É nesta estratégia mais ampla de soft power que se inserem as políticas desportivas do Catar.

No entendimento de Richard Giulianotti, os “megaeventos desportivos podem ser considerados uma das mais poderosas manifestações contemporâneas da globalização”. Em termos econômicos, Giulianotti alude às cifras bilionárias envolvidas nestes torneios e a possibilidade de quem sedia o evento “se vender”, além da exposição a bilhões de pessoas em todo o planeta. Por fim, o aspecto político, uma vez que “estes eventos atraem políticos de todo o mundo, particularmente nas cerimônias de abertura”, frisa Giulianotti. Por esta razão, a organização de megaeventos desportivos podem servir como instrumento de ‘soft power’.

Não por acaso, o Catar já sediou os Jogos Asiáticos (2006), o Mundial de Handebol masculino em 2015, recebe anualmente o Masters de Golfe, Abertos da ATP e WTA, etapa do Mundial de MotoGP e em 2019 Doha vai ser palco do Mundial de Atletismo. O culminar desta estratégia de persuasão internacional e da promoção de uma nova imagem do país perante a comunidade internacional se encontra, naturalmente, na conquista do direito de sediar a Copa do Mundo FIFA 2022, que colocou o emirado, definitivamente, no centro das atenções.

O exercício do soft power através do esporte não ocorre apenas na organização de eventos esportivos. É possível aliar os mecanismos de soft power com técnicas de marketing para a criação de uma marca (“branding”) de uma nação, e assim mudar a visão da opinião pública internacional: “nation branding”. E é isso o que o Catar tem feito. Primeiro, através da Fundação do Qatar que pagou € 170 milhões para se tornar o primeiro patrocínio comercial da história na camisa do Barcelona (marca que foi substituída posteriormente pela Qatar Airways, empresa estatal, detida em sua integralidade pelo Fundo Soberano do Catar).

Em 2011, a Autoridade de Investimento do Catar, através do Qatar Sports Investments, comprou o PSG, com a intenção de transformar o clube parisiense numa marca de referência no mercado global. O Qatar Sports Investments foi criado em 2005 pelo xeique Tamim Bin Hamad Al Thani, que é atualmente o Emir do Catar, tendo sucedido seu pai, o xeique Hamad bin Khalifa Al Thani (que, por sua vez, ascendeu ao poder após dar um golpe de estado sobre seu progenitor, Khalifa bin Hamad Al Thani).

Desde a aquisição pelos cataris, o PSG gastou mais de € 720 milhões em contratações (sem contar os € 222 milhões por Neymar). De acordo com relatório da Sporting Intelligence (que analisou não apenas campeonatos de futebol, mas também a NFL, NBA, MLB, liga indiana de críquete, dentre outros), graças ao PSG, na temporada 2016/17, a Ligue 1 francesa fora a liga esportiva com maior desigualdade na razão entre o clube com maior orçamento salarial e o menor: 21,5:1. A diferença entre o salário médio anual de um jogador do time titular do PSG para um titular do campeão Monaco foi de € 3,3 milhões.

O PSG, que não ganhava a Ligue 1 desde 1994 (e só tinha dois títulos nacionais em seu palmarés), conquistou o tetracampeonato entre 2013 e 2016. Em 2017, perdeu o título para o Monaco. Mas, enquanto o sucesso doméstico foi conquistado com enorme facilidade, o clube não conseguiu se firmar no topo do futebol europeu, fazendo com que sua marca não tenha se estabelecido como uma referência mundial.

Ainda no campo do soft power, quem não se lembra da visita do xeique Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani à cidade de Chapecó em dezembro de 2016? Em sua visita ao interior do estado de Santa Catarina, o xeique Al Thani convidou o time sub-17 da Chapecoense para disputar um torneio no Catar e disponibilizou a Academia Aspire, que é um centro de referência na formação de atletas (e também um instrumento de persuasão, com a promoção de atividades que atrai atletas de todo o mundo), para os jovens jogadores da Chapecoense.

Neymar: uma jogada esportiva, financeira e política

Richard Giulianotti, entretanto, chama a atenção para o risco do que ele denominou por soft disempowerment. Segundo o autor, soft disempowerment ocorre quando “a tentativa de obter ‘soft power’ sai pela culatra, a influência e o prestígio são abalados ao invés de ampliados”.

É o que tem ocorrido com o Catar, principalmente depois da conquista do direito de sediar a Copa do Mundo 2022. As denúncias de compra de votos de membros do Comitê da FIFA que elegeu o emirado como sede da Copa do Mundo; acusações de violação dos direitos humanos; más condições de trabalho para os operários que atuam nas construções dos projetos relacionados ao Mundial (inclusive, condições análogas à escravidão moderna); as altas temperaturas no país durante o período em que, tradicionalmente, a Copa do Mundo acontece, que forçou a mudança de datas, prejudicando o calendário do futebol mundial, em particular dos clubes europeus (principais fornecedores de atletas para o evento), etc.

Além de tudo isso, o Catar não conseguiu se livrar das acusações de financiar grupos extremistas islâmicos. Foi sob essa alegação, inclusive, que seus vizinhos Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Bahrein utilizaram para cortar relações diplomáticas com o Catar em junho deste ano.

E é precisamente em meio a este conflito diplomático que o país se vê, mais do que nunca, na necessidade de trabalhar a promoção de uma nova imagem de si mesmo. A construção de uma marca que seja associada à modernidade, segurança, desenvolvimento, competitividade e paz. É neste contexto geopolítico que se insere a contratação de Neymar. Inclusive, não por acaso, alega-se que o PSG pretende recorrer às empresas do Catar para pagar o atacante e, assim, tentar se livrar de eventuais punições por quebra do fair play financeiro da UEFA.

Ao mesmo tempo em que representaria um ganho técnico e de valorização financeira da marca do PSG (que tem na conquista da Liga dos Campeões o grande objetivo desportivo para reforçar sua imagem no mercado global e, finalmente, tornar-se um clube/produto de referência internacional), Neymar serviria como “garoto-propaganda” do grande plano estratégico do Catar de promover a marca revigorada do país no cenário geopolítico, comercial e financeiro internacional.

Enquanto seus vizinhos, em especial a Arábia Saudita, tenta manchar a sua imagem perante o mundo, o Catar faz uma afirmação contundente com a contratação de Neymar pelo PSG. O país busca se (re)afirmar no cenário mundial, ao mesmo tempo em que manda um recado aos seus vizinhos. O futebol, mais do que nunca, serve de instrumento político e de mecanismo de soft power.

*Emanuel Leite Jr. é doutorando em Políticas Públicas na Universidade de Aveiro (Portugal), bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pelo Centro Universitário Maurício de Nassau. Autor do livro “Cotas de televisão do campeonato brasileiro: apartheid futebolístico e risco de espanholização”, que serviu de base para o PL 755/

A importância dos torneios regionais

Muitos temas inerentes ao futebol tem sido constantemente debatidos, questões extremamente urgentes e necessárias, como o machismo, a homofobia, maior visibilidade para o futebol feminino, a elitização, ou “arenização do esporte”, monopólio da grande mídia e por ai vai… esses debates têm sido levados adiante por muitos coletivos e movimentos de arquibancada que aparecem aos montes e preenchem uma lacuna essencial no futebol brasileiro. Cumprem um papel de formação, já que a grande mídia deforma, esses e essas verdadeiras militantes da bola, tentam, muitas vezes, quase sempre, com estrutura bem reduzida comprar batalhas gigantes em defesa das pautas que se propõe a discutir.

Em muitos desses debates, felizmente, existe uma grande concordância, nem que seja aparente, acerca da maioria dos temas, e ai poderíamos pensar se essa uniformidade de opiniões não se dá porque muitas dessas pautas ainda estão restritas a um determinado tipo de pessoa, que tende a ter um determinado tipo de opinião. Provavelmente sim. Salvo em alguns casos onde a pauta se mostra um pouco mais ampla, como a torcida do Palmeiras mostrou ao combater os gritos homofóbicos nas cobranças de tiro de meta, ou a verdadeira batalha contra os jogos às 22h impostos pela Rede Globo, normalmente as mesmas pessoas, frequentam os mesmos debates, acerca dos mesmos, ou quase mesmos, temas.

Tenho tido oportunidade de participar de muitas dessas atividades, debatendo, assistindo ou até ajudando a organizar, e percebo que existe um tema, na minha opinião, muito importante para o futebol brasileiro, que não consegue criar coesão por parte do público interessado. E esse tema é o modelo de organização dos campeonatos no Brasil, sendo mais específico, como resolver a questão dos estaduais.

Sabemos que o Brasil é um país continental, o que já torna qualquer analogia com países da Europa Ocidental um grave erro. Se alguém pega um campeonato da Inglaterra, da Alemanha ou até da Bélgica como comparativo, além do eminente erro de ignorar a questão econômica envolvida, estamos passando por cima também, com esse tipo de comparação, da história da própria formação local do futebol. O Manchester United é um grande rival do Manchester City, e por que? Porque são da mesma cidade, porque desde sempre os moradores da cidade dividiram sua paixão entre esses dois clubes e isso fez com que o futebol ocupasse um importante espaço cultural naquele território. O Grêmio é o rival do Inter, e por que? Exatamente pelo mesmo motivo. Ou seja, não podemos desterritorializar o futebol. Não podemos desenraizar o futebol do elemento que constituiu a forte ligação do povo com o esporte mais popular do planeta.

A história dos estaduais remonta ao início do século XX, não por coincidência o mesmo período em que as ligas nacionais europeias se formaram também. E com isso, a história dos clubes, suas rivalidades e identidades. Quando se apresenta o argumento de que um Campeonato Brasileiro nos moldes atuais é o ideal, com 20 clubes, sendo que apenas 4 não são do Sul e do Sudeste, apenas 3 do Nordeste, e nenhum da Região Norte, se faz uma defesa justamente da elitização do futebol brasileiro. Um país com a diversidade do futebol brasileiro, com rivalidades que escrevem páginas ricas da história do nosso esporte, como Fortaleza e Ceará, Sergipe e Confiança, Remo e Paysandu, não cabe dentro de um torneio que dura quase todo o ano e reúne apenas 20 clubes, quase todos da mesma região.

Da mesma forma que a pujança econômica faz com que os grandes craques de todo mundo escorram para o mercado europeu, em um movimento similar, o que sobra de jogadores por aqui, são atraídos pelas cifras do eixo Sul e Sudeste, e mesmo dentro dessas duas regiões, outro nível se abre, e ai quem leva vantagem são Rio e São Paulo. É contraditório ver quem apoia diversas questões relevantes em outros âmbitos do futebol, defender que com esse modelo atual, os grandes clubes conseguem se estruturar melhor para disputar Libertadores ou segurar mais craques por aqui.

Muitas vezes, dentre os contrários aos estaduais, um outro argumento aparece, o de que os “clubes grandes”, ou hegemônicos como prefiro dizer, poderiam disputar apenas a fase final dos torneios de seus estados, e os “pequenos” poderiam dessa forma jogar o ano todo entre eles mesmos. Acontece que historicamente o que fez com que clubes de cidades do interior, por exemplo, montassem times competitivos, foi justamente a chance de enfrentar durante boa parte do ano os clubes de maior exposição na mídia.

E o que acontece quando se aposta em um modelo de estaduais enfraquecidos como agora? Os clubes do interior ou de capitais de regiões mais pobres do país não conseguem, por exemplo, patrocinadores e cotas de TV justas para disputar e igual para igual contra os hegemônicos e com isso revelam menos jogadores. Óbvio né? Pois é, parece que não é óbvio não. As vozes contra os estaduais são enormes. Muitos parecem não compreender o sentido de identidade regional que construiu o futebol e encaram com normalidade camisetas do Flamengo e do Corinthians, por exemplo, tomando cada vez mais as ruas de regiões que já possuem seus grandes clubes locais. Ora, seguindo nessa lógica, devemos achar natural que Barcelona e Real Madrid conquistem cada vez mais adeptos aqui, do outro lado do oceano, onde nem a mesma língua se fala. Se o que vale é abrir um abismo elitista em nome de estruturar, ainda mais, os hegemônicos, não devemos nos surpreender se nossos netos responderem a tradicional pergunta, “que time você torce?”, com um frio: “Bayern de Munique!”.

Três anos depois dos sete gols da Alemanha

Todos que gostam muito de futebol, e principalmente, os que gostam das histórias em torno do futebol, já ouviram muito falar do fatídico dia 16 de julho de 1950. Dia de Maracanã lotado, Brasil vindo de bons resultados e precisando apenas empatar com o Uruguai para levantar a taça pela primeira vez, mas…

Mas o que se viu foi uma grande tragédia. No Maracanã, que foi alvo de tantos debates no período de sua construção, algo bem parecido com o nosso “Não vai ter Copa” X “Vai ter Copa” de 2014, os uruguaios viraram de forma improvável uma partida que perdiam por 1 a 0. Ghiggia, já com a partida se encaminhando para o final, sacramentou a virada vencendo o goleiro Barbosa. Em um Brasil que dentro e fora das quatro linhas, ainda tentava se encontrar e lutar contra o “complexo de vira-latas”, e que mesmo no futebol não tinha ainda levantado nenhuma taça, aquele gol teve o poder devastador de uma bomba. Não como as bombas que devastaram a Europa apenas alguns anos antes, na segunda grande guerra, conflito esse que inclusive fez a Copa do Mundo ficar 12 anos sem ser realizada, mas uma bomba que fez com que esse esporte por aqui perdesse um pouco o rumo nos anos posteriores.

O Brasil perdeu. E foi triste. Talvez a maior tristeza do nosso futebol.

Sofremos em 1954, com atletas instáveis emocionalmente e voltamos a perder, para em 1958 encontrarmos o caminho das conquistas e dai pra frente, 12 anos depois, em 1970 já sermos aclamados como o “país do futebol”, salvo exageros na afirmação, de fato os 11 em campo na final contra a Itália no Mundial do México elevaram o futebol ao status de arte, segundo o historiador Hobsbawm em seu “Era dos Extremos”.

O tempo passou, e o futebol seguiu mudando, a Holanda de 74 mudou a forma de jogar, o Brasil de 82 encantou também, mas nenhuma dessas seleções venceram a Copa. O Brasil voltou a vencer em 1994, jogando de forma pragmática como nunca antes, e depois assistiu outra geração de grandes jogadores, como Rivaldo e Ronaldo, vencer outra Copa, em 2002.

No canto do cisne de um período de governos, que apesar de necessárias auto críticas, mudaram os padrões de consumo dos brasileiros, elevando o acesso aos postos de trabalho, as universidades, entre outros importantes avanços, uma Copa do Mundo aconteceria no país. Um torneio que antecederia uma eleição que se mostrava difícil para as forças progressistas, sobretudo após a derrota nas ruas em 2013. Quando a mídia transformou legítimas manifestações contra a carestia nos transportes públicos em grandes atos contra a política em geral e contra “tudo que está ai”. Milhares de pessoas gritando por mais saúde e educação, e ajudando a fomentar o caminho para um novo intento neoliberal, que tão bem estamos assistindo agora, exatamente 3 anos depois da segunda grande derrota “em casa” do futebol brasileiro.

A receita da tragédia de 8 de julho de 2014 é complexa. Mas passa por uma CBF e federações locais que ainda vivem nos tempos da ditadura. Uma emissora de televisão privada que se apropriou do esporte mais popular do país e decide desde tabelas até horários de jogos, além de abrir de uma vez por todas o abismo entre os clubes com suas cotas “diferenciadas”. Um treinador que, apesar de grandes serviços para a própria seleção em 2002, passagens históricas por Grêmio e Palmeiras, talvez não estivesse em seu melhor momento para ocupar aquele cargo. E uma geração de atletas vestindo a camisa da seleção brasileira, que talvez fosse a pior desde o Mundial de 1930. Nesse último quesito, podemos debater se um outro treinador (Tite?), que conquistou o mundial de clubes com o Corinthians em 2012, teria conseguido tirar água de pedra e levar uma equipe melhor para o campo. Mas essa discussão não nos levaria muito longe…

Entre xingamentos vergonhosos contra a então presidenta da República, Dilma Rousseff, vindos de um público que estava pagando muito caro em seus ingressos, para sentar em Arenas novinhas em folha (e aqui sempre vou pensar na oportunidade que perdemos de realizar uma Copa de fato para nosso povo, em nossos templos do futebol. Quem não gostaria de ter visto um Argentina e Holanda, por um preço justo no belo Pacaembu? Mais isso é tema pra outro texto…) a seleção estreou sem convencer. Mas venceu a Croácia de virada. Na sequência um empate contra o México, que já deveria ter ligado o alerta do Brasil, e uma vitória contra a fraquíssima e conturbada seleção de Camarões, colocaram a seleção canarinho nas oitavas.

A partir dai, o que se viu foi uma seleção completamente desestabilizada, ainda mais. As lágrimas de alívio por uma vitória contra o Chile nos pênaltis diziam claramente que nem todos nasceram pra ostentar aquela camisa e ainda mais, que talvez exista um buraco na compreensão de toda uma geração, incluindo atletas de futebol, sobre o que representa o futebol para o brasileiro, e mais, sobre o que representa o futebol brasileiro para o mundo.

Na sequência, uma vitória contra a Colômbia e, ao menos para mim, um surpreendente lugar entre os quatro melhores da Copa para aquela limitada seleção brasileira.

Veio a semifinal, em um 8 de julho, assim como hoje, e um, dois, três, quatro, cinco, seis… sete gols da Alemanha. A mesma quantidade que o “furacão” da Copa de 1970, Jairzinho, levou seis difíceis jogos para marcar naquele mundial. Toda aquela receita de alguns parágrafos acima estava exposta. E tivemos que descobrir e encontrar todos esses erros de uma só vez. Aliás, em sete vezes.

Naquela lista, ainda podemos juntar motivos como a formação do jogador brasileiro por exemplo… e após tamanho desastre, que jornalistas, estudiosos, atletas e demais interessados no esporte, ainda no máximo tateiam explicações, é inevitável perguntar: O que mudou de lá pra cá? A resposta é fácil: nada mudou.

A tal emissora de TV ampliou seu domínio, tornando os clubes cada vez mais dependentes, um Campeonato Brasileiro com atletas ou muito novos pra ir embora, ou mais velhos retornando do exterior, com outros com qualidade discutível até para ter escolhido essa profissão, e uma CBF comandada pelos mesmos, os mesmos de sempre. Tudo isso, atualmente, muito bem “escondido” por uma seleção, treinada por Tite, que, pasmem, tem apresentado ao menos um futebol razoável e de bons resultados.

É improvável que outra vergonha aconteça em 2018. Podemos até ganhar a sexta estrela na camisa na Rússia ano que vem. Mas uma oportunidade de rever toda a estrutura do futebol brasileiro foi, e ainda está sendo, desperdiçada.

O primeiro Palmeiras x Corinthian (sem s)

A equipe da Associação Atlética das Palmeiras, em foto sem identificação do ano.

O ano era 1910. O dia era 31 de Agosto. Entrava em campo, o Palmeiras, atual campeão paulista na época, que vinha de uma vitória por 5 a 2 sobre o SPAC e construía então o caminho para o bi campeonato paulista.

O Palmeiras, com seu tradicional uniforme branco e preto, não conseguiu segurar os ingleses do Corinthian F.C, e terminaram o primeiro tempo perdendo por 2 a 0. Apesar de alguma pressão no segundo tempo, não conseguiram se aproximar no placar e a partida terminou com o mesmo score do primeiro tempo.

A forte equipe do bairro de Santa Cecilia, que mandava suas partidas no Parque Antártica, não conseguiu segurar os ingleses, que logo na sua chegada ao país, apenas uma semana antes, tinham passado por cima do Fluminense, no Rio de Janeiro, por 10 a 1.

Um dia depois, da partida entre Associação Atlética das Palmeiras e Corinthian F.C, da Inglaterra, era fundado, no bairro do Bom Retiro, o Sport Club Corinthians Paulista. Pequenos comerciantes influenciados pelo futebol da equipe inglesa, que resolveram batizar o novo clube com o mesmo nome, e que poderia ter se chamado Santos Dumont ou Bandeirantes F.C. Acabou chamando Corinthians e, por ironia do destino, carregando as cores do clube de Santa Cecilia, o Palmeiras.

A equipe inglesa do Corinthian F.C. em foto de 1897.

Hereford x Newcastle em 1972

A partida que era pra ser apenas mais um passo do Newcastle na busca por um título da Copa da Inglaterra,  a equipe já tinha 6 taças, quantidade que possui até hoje, e pegava o modesto Hereford United, que jogava na Southern League (uma espécie de quinta divisão), pela terceira etapa das eliminatórias do torneio mais antigo do mundo.

No dia 24 de janeiro de 1972, as equipes se enfrentaram em Newcastle, e um empate em 2×2, levou a partida para o que os ingleses chamam de “replay”, que é um segundo jogo para desempatar o embate. Mas dessa vez o jogo seria em Hereford, cidade localizada em Herefordshire, em uma região fronteiriça com o País de Galês onde ainda hoje boa parte dos habitantes fala galês.

A partida foi remarcada 3 vezes, e precisou ser cancelada nas 3 ocasiões por conta de fortes chuvas. Finalmente, no dia 5 de fevereiro de 1972, a bola rolou, ou quase isso, por conta do campo cheio de lama, em função das tempestades. O número oficial de público na partida é de 14,313, embora estima-se que mais de 16 mil pessoas estivessem presentes. A capacidade do estádio era 14 mil pessoas. Mas esses números de qualquer forma, não contabilizam as centenas de pessoas que assistiram das árvores e dos telhados ao redor de Edgar Street, como é chamado o campo do Hereford United.

O vídeo do jogo é sensacional. Não foi transmitido ao vivo, e sim em um programa da BBC, chamado “Match of the day”, que apresentava o “compacto”, ou os melhores momentos de algum jogo do final de semana.

O símbolo do Hereford em 1972

O Hereford jogou de camisas brancas e calções pretos, o Newcastle entrou com segundo uniforme da época, todo vermelho. A questão era apenas saber como a equipe do norte resolveria a questão e despacharia os donos da casa. E, apesar da dificuldade para abrir o placar, o atacante Malcolm Macdonald, parecia resolver a questão quando fez 1 a 0 para o Newcastle aos 37 do segundo tempo. Quem poderia acreditar em uma reação do Hereford?

Foi então que Ronnie Radford, aos 42 minutos, acertou de primeira um chute perfeito, e empatou a peleja. A reação dos torcedores locais é impressionante, e em poucos segundos o gramado estava completamente tomado por milhares de pessoas comemorando o gol.

Gol de empate com festa no gramado

Com a situação já controlada a partida seguiu para a prorrogação. No tempo extra, o inacreditável aconteceu aos 13 minutos do primeiro tempo, quando Ricky George, que tinha entrado no final do tempo regulamentar, recebeu uma bola no meio da área e bateu cruzado. Sem chances para o goleiro do Newcastle, Willie McFaul. Hereford 2 a 1. O Newcastle não teve forças para reagir e foi eliminado.

A partida, em 2007, foi eleita por leitores de um jornal britânico como a mais emocionante de todos os tempos na FA CUP, ou a Copa da Inglaterra.

O vídeo é realmente incrível e com direito a narração da época:

A história do pênalti que não foi cobrado

Capa do jornal Folha de SP um dia após o jogo polêmico

O Campeonato Paulista de 1981 tinha um regulamento muito complicado, tão complicado que nem tentarei perder tempo explicando (quem quiser entender melhor essa “pérola” dos regulamentos pode olhar aqui). Mas o jogo que nos interessa fazia parte da fase de classificação do segundo turno, no módulo vermelho daquela fase estavam Corinthians, Juventus, São José e Marília.

Faltavam duas rodadas para terminar o turno e a situação era a seguinte: Juventus em primeiro com 6 pontos, Corinthians em segundo com 5 pontos, São José em terceiro com 3 pontos e Marília na lanterna com 2 pontos. Apenas o primeiro se classificaria para a fase final daquela etapa do confuso campeonato.

Juventus e Corinthians fariam então pela penúltima rodada o que poderia ser o jogo decisivo para o Moleque Travesso, caso vencesse os corintianos no Pacaembu estaria classificado. Para o lado da equipe de Parque São Jorge, apenas a vitória interessava, o empate deixava o Juventus precisando de uma vitória simples na última rodada contra o Marília.

Os alvinegros abriram o placar, Geraldão empatou para os juventinos. Já no segundo tempo, Sócrates coloca o Corinthians de novo na frente. Geraldão, outra vez, faz o gol que manteria o Juventus na liderança. 2 x 2. Foi quando aos 46 minutos do segundo tempo, quando a festa juventina estava por começar e os corintianos já deixavam o estádio, o goleiro grená trombou com Socrátes na área, o jogador então desabou simulando uma falta, e o juiz, Emídio Marques de Mesquita, marca o pênalti inexistente. O gol colocaria então o Corinthians na liderança do grupo.

Os jogadores do Juventus se revoltam com árbitro e não deixam o Corinthians cobrar o pênalti. O capitão juventino, Deodoro informa que os juventinos não sairiam debaixo das traves e não permitiram a cobrança. Após aguardar 10 minutos, o árbitro desiste e encerra a partida. O Juventus não permitiu que a penalidade máxima inventada fosse cobrada. Nos dias seguintes a Federação Paulista deu os pontos pro Corinthians, que na última rodada venceu o São José e se classificou.

Essa história toda está no vídeo abaixo…

Dinamarca de 1992: roteiro de filme ou realidade?

Um time desacreditado, um treinador considerado apenas como quinta ou sexta opção, vítima de toda a antipatia possível da imprensa local e que assumiu a equipe poucos dias antes das eliminatórias para a Eurocopa de 1992. A história toda parece roteiro de filme, nada mais justo que fosse mesmo parar nas telas grandes…

A Dinamarca de 1992

A Dinamarca de 1992

Essa era a Dinamarca do início dos ano 90, que vivia sob a sombra do selecionado que encantou o mundo na Copa do Mundo de 1986 e tentava juntar os cacos para voltar a brilhar. Richard Møller Nielsen, o pragmático treinador, é o protagonista da história que acabou virando filme de tão épica que foi a saga da equipe.

Na fase de qualificação para o torneio, os dinamarqueses tiveram pela frente Ilhas Faroe, Irlanda do Norte, Áustria e Iugoslávia. Com um futebol mediano e muito desentendimento entre as principais estrelas, como os irmãos Laudrup, e o treinador, a seleção não conseguiu a vaga para a Eurocopa. Caiu frente à fortíssima seleção iugoslava.

Enquanto isso estourava e se intensificava o conflito onde depois de algum tempo seria a ex-Iugoslávia. A seleção iugoslava já estava em território sueco, sede da Euro de 92, quando veio a determinação de que a equipe estava proibida de disputar a competição como punição pelo conflito. Nesse momento, a decisão é de que a segunda colocada do grupo da Iugoslávia nas eliminatórias seria convidada. E lá foi a Dinamarca para o país vizinho. Richard Møller Nielsen teve dez dias para convocar sua seleção e se preparar. Michael Laudrup, estrela do Barcelona não quis jogar, seu irmão Brian, decidiu ir. Peter Schmeichel, goleiro do Manchester United na época, era outro grande astro da equipe.

Na estreia um empate de 0 a 0 contra a Inglaterra, e na sequência uma derrota de 1 a 0 para a Suécia, deixaram a Dinamarca precisando de um verdadeiro milagre no último jogo, contra a França, para se classificar. Nesse momento o meio campista titular, Kim Vilfort, ficou sabendo que o câncer de sua filha tinha piorado, abandona a equipe e volta para a Dinamarca. De alguma forma o fato une ainda mais o time, e com uma vitória de 2 a 1, com gol no final, os dinamarqueses conseguiram o que parecia impossível: estavam nas semifinais.

A filha de Vilfort, durante o tratamento, pediu que ele voltasse a jogar, e para atender o desejo da pequena, ele entrou em campo no duelo contra os então campeões europeus, os poderosos holandeses, de Gullit, Van Basten, Koeman, Bergkamp e Rijkaard. Uma seleção praticamente imbatível. Larsen abriu o placar para a Dinamarca, o jovem Bergkamp empatou, Larsen mais uma vez colocou os dinamarqueses na frente. Mas faltando apenas 4 minutos, Rijkaard, deixa tudo igual novamente, a decisão seria por pênaltis. Apenas um jogador desperdiçou sua cobrança, um dos melhores atacantes de todos os tempos, Van Basten. A Dinamarca estava na final!

Pelo caminho a atual campeã do mundo, a Alemanha, a essa altura já unificada. Mas com raça de sobra e muita aplicação em campo, os dinamarqueses bateram os alemães por 2 a 0. Eram campeões, com direito a um gol de Vilfort, que dias depois perdia sua filha para o câncer. Mas no dia o que se viu foi uma das maiores comemorações da história do futebol. A Dinamarca era campeã europeia. (Um detalhe curioso é que durante a final um festival de música na Dinamarca com a participação da banda Nirvana foi interrompido para que os dinamarqueses assistissem a partida em um telão)

Jogadores incrédulos! A Dinamarca acabava de fazer o segundo gol na final contra a Alemanha.

Jogadores incrédulos! A Dinamarca acabava de fazer o segundo gol na final contra a Alemanha.

Para quem quiser assistir a saga, a dica é o filme Verão de 92 (Sommeren’92). Excelente produção, disponível no Netflix, que narra os feitos daquela seleção que conquistou a Europa e certamente a simpatia de todos os que amam o futebol.

Verão de 92, um filme para quem quiser conhecer a épica conquista da Dinamarca.

Verão de 92, um filme para quem quiser conhecer a épica conquista da Dinamarca.