Um retrato, ainda atual, do futebol brasileiro

O Campeonato Brasileiro da Série B nem sempre foi realizado. A sua primeira edição data de 1971, ano do primeiro Campeonato Brasileiro no formato atual. Naquele ano o Villa Nova de Minas Gerais foi o campeão. No ano seguinte, 1972, o torneio voltou a ser realizado com o maranhense Sampaio Corrêa levantando a taça. Depois disso, apenas em 1980 o certame voltou a acontecer.

Com diversas mudanças de calendários, regulamentos e formatos, e principalmente, com o aumento de clubes na Série A, que eventualmente tinha suas vagas decididas nos estaduais, o que valorizava ainda mais os torneios regionais, a Série B foi deixada de lado, só retornando, sob a alcunha de Taça de Prata, em 1980. Acontece que a Taça de Prata não era exatamente uma segunda divisão, pois alguns clubes subiam no mesmo ano para a Série A (Taça de Ouro na época) e outras piores colocadas nas fases iniciais da Taça de Ouro, caiam no mesmo ano para a versão de prata do torneio.

Após uma década muito confusa, incluindo o episódio Copa União em 1987, quando dois torneios nacionais foram realizados, no ano de 1989, com o Brasil às portas de sua primeira eleição para presidente depois da ditadura e no ano da realização da primeira Copa do Brasil (saiba mais aqui), a CBF decide organizar o que chamaria de Divisão Especial, o que seria equivalente a Série B do Campeonato Brasileiro.

Para a disputa da competição foram relacionados 96 clubes. Times do país todo disputando duas vagas na divisão principal de 1990. A revista Placar, edição 1011, de 27 de outubro de 1989, trouxe uma reportagem especial sobre a competição, destacando 16 equipes de diversas partes do Brasil, e os contrastes são inacreditáveis, mesmo que saibamos que se um torneio com essas dimensões fosse repetido hoje em dia, os mesmos desníveis apareceriam novamente.

Jogadores do Princesa do Solimões em seu local de treino

Entre as primeiras equipes destacadas está o Princesa do Solimões, clube da cidade de Manacapuru, no estado do Amazonas, única equipe do interior amazonense a disputar a Série B do nacional até hoje. Os atletas do clube apontavam na matéria da Placar, a sua localização geográfica como grande arma para surpreender os adversários, e os treinos, como demonstra a imagem acima, aconteciam nas margens do próprio Rio Solimões.

As histórias inacreditáveis, e não em um bom sentido, se repetem na reportagem a cada nova equipe que era apresentada. O Nacional, da cidade de Patos na Paraíba, não podia treinar diariamente no estádio municipal onde realizava seus jogos, o clube procurava então, nas palavras de seu atacante no período, campos de pelada para praticar o futebol. O Capelense, de Alagoas, reclamava que na viagem para Caruaru, para enfrentar a equipe local, o Central, seu ônibus foi invadido por assaltantes que levaram todo o dinheiro e até as roupas dos atletas, isso sem contar que a equipe mandava seus jogos em Viçosa, distante 25Km de Capela, a cidade do time.

Já o Ubiratan, de Mato Grosso do Sul, realizava seus treinamentos em um campo localizado em uma reserva, e vez ou outra a seleção indígena local queria participar da peleja também, segundo a matéria, o gramado ficava em uma área cercada por “gigantescas perobas com mais de 100 anos”. Da tríplice fronteira, Brasil/Paraguai/Argentina, vinha o Foz do Iguaçu (não confundir com a equipe atual de mesmo nome), e no trecho que apresenta esse clube o fato de receberam apoio de duas fontes de dinheiro bem diferentes chama a atenção. Um fonte era a estatal Itaipu, a outra era o dinheiro de bicheiros cariocas, e tudo isso convivendo em perfeita harmonia nas contas do clube paranaense.

Partida entre o Ubiratan (MS) e a seleção indígena local

Rio Branco do Acre, Itaperuna do Rio de Janeiro, que tinha apenas três meses e já estava no torneio, o Blumenau-SC, que tinha uma ótima estrutura e contava com vários patrocinadores, o gigante Santa Cruz-PE, o vice-campeão paulista daquele ano, São José, e que conseguiu uma das duas vagas pra Série A, ao lado do campeão do torneio que foi o Bragantino, treinado então por Vanderlei Luxemburgo, (que também conquistou a primeira divisão do campeonato paulista do ano seguinte e que no caminho pro título nacional eliminou nas fases finais o Juventus-SP, Criciúma-SC, Remo-PA, até chegar na final contra o São José), a matéria é uma grande compilação de equipes que como maior problema, além da falta de dinheiro, tinham a falta de apoio em suas próprias cidades e nenhuma condição nem para realizar treinos e jogos, são muitos os casos nesse torneio de equipes que mandavam suas partidas fora de suas cidades.

Tinha até zagueiro-mecânico, caso do Aroldo, do Colatina-ES (foto abaixo), que suava por um salário mínimo arrumando ônibus, para seguir jogando seu futebol, e lutando por uma sonhada vaga na Série A, do então futebol tri campeão do mundo.

O zagueiro-mecânico, Aroldo, do Colatina-ES

O que tudo isso pode nos fazer pensar é que certamente as dificuldades para equipes fora dos grandes centros, que são na verdade 4 ou 5 cidades, seguem existindo, pegando carona em uma reflexão de Hilário Franco Júnior, em seu texto “Brasil, país do futebol?”, podemos nos perguntar se somos o país desse esporte, ou se somos apenas uma nação que produz grandes futebolistas. As pessoas gostam de torcer para quem vence, ou existe mesmo uma ligação entre a comunidade e equipes locais, seja lá em que divisão a equipe que ostente a camisa da cidade, ou do bairro, esteja?

Fomos todos afastados desse enraizamento com o futebol local pelo grande poder da mídia (rádio e depois TV), ou as grandes mídias na verdade formaram esse peculiar gosto pelo futebol do brasileiro, que de outra forma nem existiria? E digo peculiar, porque não me lembro de outro país onde tantas pessoas torçam para clubes tão distantes de suas cidades enquanto os times locais vivem as mínguas, atolados em estaduais cada vez mais desvalorizados…

Não é a intenção desse texto responder todas essas questões, mas apenas apresentar um retrato de um país de praticantes de futebol que teimam em tentar a sorte chutando uma bola, mesmo que nem seus conterrâneos estejam lá muito preocupados com suas jogadas e suas camisas.

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