Especial: Álbuns da Copa, de 1970 a 1998 – PARTE 3, os anos 90

Chegamos a terceira e última parte do “Especial: Álbuns da Copa, de 1970 a 1998”. Dessa vez falaremos das edições produzidas nos anos 90. Naquela década tivemos os torneios de 1990, na Itália, de 1994, nos EUA e 1998, na França. De 2002 em diante, os álbuns seguiram sendo produzidos normalmente, mas deixamos para outro momento a história das edições mais recentes.

1990

A capa nacional para o álbum de 1990

A outra capa do álbum da Copa do Mundo de 1990

A Copa do Mundo de 1990 ganhou uma capa diferente no Brasil, veja acima o modelo nacional e o modelo internacional da Panini. Na edição brasileira, abre o álbum uma página com uniformes das seleções que até o certame de 86 já tinham conquistado títulos, já na edição oficial da fabricante, vamos direto para as figurinhas das cidades e estádios, também presente na edição nacional.

Como nas últimas edições, a primeira seleção é a Itália. Mas dessa vez, o fato se justifica por ser o retorno da anfitriã abrindo o álbum. Uma geração de grandes jogadores que não conseguiu levantar a taça em casa. No mesmo grupo A, dos italianos, estava a Tchecoslováquia, em sua última aparição em álbum de Copa. A queda do Muro de Berlim em 1989, e as transformações que ocorriam no leste europeu fizeram com que não fosse apenas a despedidas dos tchecos, mas também da tradicional seleção da União Soviética. Que está apenas algumas páginas depois no álbum.

O jovem Roberto Baggio, da seleção italiana

Tchecoslováquia, faz sua despedida em 1990

Antes dos soviéticos, estava a seleção que despachou brasileiros e italianos, a Argentina de Maradona e Caniggia. Outra equipe que chamou a atenção do mundo naquela edição da Copa, foi a seleção de Camarões, que divide a página com a Costa Rica, com figurinhas divididas. Formato que em breve seria aposentado pela editora responsável pelos álbuns. Se na seleção de Camarões, Roger Milla não ganhou figurinha, Omam-Biyik ganhou. O atleta foi responsável pelo primeiro gol daquela Copa, que deu a vitória para a seleção camaronesa frente aos argentinos atuais campeões mundiais na ocasião.

Omam-Biyik, gol histórico na estreia

Caniggia, gols decisivos contra Brasil e Itália

A seleção brasileira apresenta, pela primeira vez em álbum, mais jogadores atuando fora do país que em território nacional. De 17 cromos, 11 atuavam em outros países. Apesar de uma contusão ter prejudicado o atleta, Romário faz sua estreia em álbuns da Copa. A Alemanha Ocidental, que seria campeã, aparece pela última vez como “Ocidental”, já que a unificação das Alemanhas fez com que a partir de 1994, fosse apenas “Alemanha”.

Brehme, fez o gol que deu o título para a Alemanha Ocidental

A Colômbia, em seu primeiro álbum, de camisas vermelhas, é outro ponto curioso daquela edição, com direito a Valderrama e sua famosa cabeleireira. Muitos atletas do Atlético Nacional que ganhou a Libertadores de 1989, também faziam parte do selecionado colombiano e estavam presentes no álbum.

A forte seleção holandesa, campeã europeia de 1988, está ali também, e o genial Marco Van Basten ganha então sua única figurinha em álbuns da Copa do Mundo, Gullit, Koeman e Rijkaard ainda apareceriam em outras ocasiões. Fecha aquela edição, com figurinhas duplas, a equipe do Egito, que só foi voltar para um álbum de Copa agora, em 2018.

O genial Marco Van Basten

1994

Chegamos ao álbum da Copa de 1994, torneio em que a seleção brasileira se reencontrou com a taça de campeão do mundo. Era o último torneio com 24 seleções, em 1998 já seriam 32 equipes. Abrindo o álbum, as já tradicionais figurinhas das cidades e dos estádios. Logo depois, sem muita enrolação já ia direto para o grupo A, com os norte-americanos, donos da casa, abrindo o álbum. A Colômbia que não passou da primeira fase mas chegou como uma das favoritas também estava naquele grupo, e trazia craques como Rincon, na época, atleta do Palmeiras. Na página seguinte, um dos melhores jogadores daquela Copa, George Hagi, fazia sua segunda aparição em álbuns do mundial.

Hagi fez a diferença pela seleção da Romênia

Evair, estava no álbum mas não foi convocado pra Copa

A seleção do Brasil, que seria campeã, tem alguns erros, como os jogadores Evair e Palhinha, que sequer foram convocados, e não estão no álbum figuras que participaram diretamente do caminho para o tetra, como Aldair, Leonardo e Mazinho, que ganhou a vaga de Raí ao longo do torneio. A Rússia, que teve o artilheiro do Mundial, Oleg Salenko, aparecia pela primeira vez já com a União Soviética desmembrada.

O álbum não tem muitas novidades no formato, mas o destaque fica para alguns grandes craques que figuram em suas páginas, como Stoichkov, da Bulgária, Batistuta, Redondo, Maradona, Caniggia e Simeone, pela Argentina, Baggio e Baresi, pela Itália, e Bergkamp e Overmars aparecendo pela primeira como cromos da Copa, pela Holanda.

Romário, o melhor jogador da Copa de 94

O búlgaro Stoichkov

Argentina tinha uma seleção cheia de craques em 1994…

Bolívia e Noruega foram novidades naquela edição, a primeira até hoje não apareceu mais, já os escandinavos voltaram para bater o Brasil, quatro anos depois.

A única vez da Bolívia em álbuns da Copa

1998

Para encerrar nosso especial, aportamos no álbum da Copa da França de 1998. Com uma rápida abertura, apenas com figurinhas de estádios, pôster do Mundial, mascote e a taça, o álbum já passava direto para as equipes.

O Brasil, pela primeira vez, abria um álbum da Copa do Mundo. Como atual campeão, a equipe trazia Ronaldo pela primeira vez em um álbum, Edmundo, em única aparição, e listava Romário, que infelizmente, acabou preterido por Zagallo, assim como outros grandes jogadores, por exemplo, o zagueiro Mauro Galvão, que atravessava uma fase espetacular. Mas isso é outra história, voltemos para o álbum…

Edmundo, em grande fase, estava no álbum mas ficou no banco de reservas

Dupla de figurinhas da seleção da Noruega que venceu o Brasil

A Noruega aparece mais uma vez, com o então jogador do Chelsea, Tore Andre Flo, que liquidou o esquadrão canarinho. Mais uma vez um álbum sem grandes alterações e novidades no formato, os símbolos passaram a ser “brilhantes” e, aqui no Brasil, a diferença foi que as figurinhas passaram a ser autocolantes, o que ajudou consideravelmente crianças que faziam uma verdadeira “intervenção artística” em seus álbuns com o manuseio de cola para fixar os cromos.

As páginas da campeã do mundo de 1998

A França, que apresentou um grande futebol, trazia Henry, Trezeguet, Zidane, Deschamps, Djorkaeff, Thuram, Blanc, entre outros craques, e levantou a taça em casa. Desde 1978 a dona da casa não era campeã. Os franceses  voltaram a um álbum da Copa, de onde estiveram afastados desde 1986. A seleção da África do Sul fez sua estreia em álbuns, e a Dinamarca voltou a aparecer. O espanhol Guardiola se “transformava” em figurinha da Copa pela segunda vez e na seleção do Paraguai, cromos de atletas que atravessavam um grande momento no futebol brasileiro, como Gamarra (Corinthians), Arce (Palmeiras) e Rivarola (Grêmio).

Gamarra, no Corinthians, e Arce, no Palmeiras, nenhum dos dois clubes está no álbum da Copa de 2018

A seleção holandesa, que ao lado da França e da Croácia, talvez tenha apresentado o melhor futebol do mundial, trazia uma constelação de craques, muitos revelados no grande Ajax do meio da década. Falando em Croácia, a equipe aparecia pela primeira vez em um álbum, e contava com o artilheiro Davor Suker entre seus atletas.

A Holanda mostrou um excelente de futebol, mas ainda não foi dessa vez que ficou com a taça em uma Copa

Figurinha brilhante, novidade do álbum de 1998

Para encerrar o álbum, e nosso especial, a primeira aparição da Jamaica, sendo a última seleção a ganhar as figurinhas que trazem dois jogadores em um só cromo. A partir de 2002, cada seleção receberia o mesmo tratamento por parte da fabricante dos álbuns.

A seleção da Jamaica no álbum da Copa de 98

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Especial: Álbuns da Copa, de 1970 a 1998 – PARTE 2, os anos 80

A segunda parte do nosso especial sobre os álbuns da Copa de 1970 a 1998, vai tratar dos álbuns dos anos 80. Naquela década aconteceram duas Copas, 1982 e 1986. Espanha e México receberam os torneios. Década que contou com o belo futebol apresentado pela seleção brasileira de 82, mas que acabou por consagrar um dos maiores craques de todos os tempos, Diego Armando Maradona, que até gol com a mão fez em 86.

1982

A Copa do Mundo de 1982 aconteceu na Espanha, para abrir o álbum o cartaz oficial, foto do mascote e da taça da Copa. Vale ressaltar que o cartaz fazia referência ao artista catalão Joan Miró, na sequência, tabela, estádios, e cartazes das diversas sedes do mundial. Naquela ocasião, e isso se repetiu em 1986, a primeira seleção não era a anfitriã, dessa vez a cabeça de chave do Grupo 1, era a Itália, que acabaria campeã do torneio. Ali estava Paolo Rossi, o grande carrasco da seleção brasileira e jogador decisivo nas partidas finais. O goleiro italiano, assim como em 70, 74 e 78, era Dino Zoff. O arqueiro estava em todos os álbuns até então.

Pôster oficial da Copa do Mundo de 1982

Figurinha do Estádio Sarriá, na cidade do Barcelona, onde o Espanyol mandava seus jogos. Palco da vitória italiana sobre o Brasil.

O italiano Paolo Rossi

O grupo da Itália tinha ainda Peru, Polônia e Camarões. E na página dos africanos um formato de figurinha que permaneceu por mais alguns álbuns começou a ser utilizado. Ao invés de menos figurinhas para seleções consideradas mais “fracas”, começou a ser utilizado um modelo que trazia dois jogadores no mesmo cromo. Dessa forma Camarões e Argélia e El Salvador e Kuwait, dividiram a mesma página, no selecionado camaronês o atacante Roger Milla já aparece entre os atletas.

Páginas com duas seleções em figurinhas duplas, novidade no álbum de 1982

Pelo grupo 3, nas páginas dedicadas a seleção argentina, está lá pela primeira vez o genial, Maradona. Ainda como atleta do Boca Juniors. Kempes, Passarela e Ardiles também figuram no álbum. Na Bélgica um jovem Michel Preud’Homme também ganha sua primeira figurinha na história dos álbuns.

A primeira aparição de Maradona nos álbuns da Copa

Era um álbum que contava com mais figurinhas do que os anteriores, sobretudo, porque a partir daquele momento a Copa do Mundo passava a ter 24 seleções, e não 16, como era anteriormente. Isso fez com que a parte de “seleções eliminadas” que fechou os álbuns de 74 e 78 fosse excluída.

No grupo 5 a Espanha, dona da casa, e abrindo o grupo 6, a forte seleção brasileira, que assim como a Holanda de 1974, encantou por seu bom futebol, mas não levantou o troféu. O Brasil caiu nas quartas de final, frente a Itália. Pela primeira vez na história dos álbuns um jogador aparece atuando por um clube de fora do país. Era Falcão, que já brilhava na equipe da Roma, onde fez muito sucesso. A equipe do São Paulo, aparecia com 5 atletas nas páginas brasileiras do álbum. Na sequência, a União Soviética, com uma forte seleção, que contava com o grande goleiro Dasaev e também com alguns atletas do Dinamo Tbilisi, que chamou atenção do mundo do futebol em 1979 ao eliminar o poderoso Liverpool de uma competição europeia.

Falcão, primeira vez que aparece um atleta brasileiro atuando por uma equipe estrangeira nos álbuns da Copa

Socrátes e Zico, lado a lado no álbum do mundial de 1982

Figurinha da seleção da União Soviética, que fez sua estreia contra o Brasil naquela Copa

1986

A edição de 1986 do álbum oficial de figurinhas da Copa do Mundo, mais uma vez trazia cartaz do mundial mascote, cidades e estádios em sua abertura. Nessa ocasião figurinhas de todos os cartazes dos mundiais anteriores também contava, nas páginas de apresentação. A Itália era a cabeça de chave do grupo A, e por isso aparecia abrindo o álbum. A Argentina que seria campeã, graças ao craque Maradona, aparecia em terceiro do álbum, já que não era cabeça de chave e por isso caiu na mesma chave dos italianos. Estão ali, além de Maradona, Pumpido, Burruchaga, Borghi, que conquistou a Libertadores com o Argentinos Juniors um ano antes, entre outros jogadores que fizeram a diferença naquela mundial.

Cromos de todos os pôsteres das Copas até 1986.

Bochini, Maradona e Burruchaga, trio de craques na página da seleção argentina

Com o formato de figurinhas divididas para as seleções que teoricamente não teriam destaque, estão dispostos nesse formato, dividindo páginas, Coreia do Sul e Iraque, Canadá e Argélia, e na última página o Marrocos, também tem dois jogadores dividindo o mesmo cromo.

O México, dono da casa, estava no Grupo B, que também tinha a Bélgica que chegou nas semifinais, o Iraque, e a seleção do Paraguai, que tinha entre suas figurinhas o ídolo do Fluminense, Romerito. A seleção brasileira estava no Grupo D, e dessa vez contava com três atletas atuando fora do Brasil, e todos na Itália. Eram eles Toninho Cerezo, que também atuava pela Roma, Edinho que estava na Udinese e Júnior que jogava na época pelo Torino. Porém um outro clube fora do comum aparecia no álbum de 1986, era a Inter de Limeira, que contava com o atacante Éder em seu elenco.

Romerito, figurinha do Paraguai e ídolo do Fluminense

Éder leva a Inter de Limeira para o álbum da Copa do Mundo de 1986

Do grupo E, vinha a seleção que mais chamou atenção na primeira fase da Copa. A famosa Dinamarca, que passou a ser chamada de “Dinamáquina” pela imprensa brasileira. Mesmo em um grupo que contava com Alemanha Ocidental, que acabaria vice, e com o bi campeão Uruguai, os dinamarqueses passaram de fase convencendo. Batendo os alemães por 2 a 1 e massacrando os uruguaios por 6 a 1 logo na primeira partida. Laudrup, Elkjaer, Lerby, Olsen, Arnesen, Nielsen, entre outros, com certeza foram se tornando “figurinhas” mais valiosas com o passar da Copa. Na celeste que foi destroçada pelos escandinavos estava o então palmeirense Diogo, e no banco de reservas estava o ótimo goleiro do Santos, Rodolfo Rodriguez. Os dois aparecem no álbum.

A  seleção da Dinamarca de 1986.

Rodolfo Rodriguez e Diogo, Santos e Palmeiras no álbum do mundial de 86

No grupo F a seleção portuguesa fazia sua primeira aparição em álbuns da Copa, já que a última vez que tinha participado de um mundial foi em 1966, quando a Panini ainda não produzia os álbuns. Na página seguinte estava a seleção inglesa, eliminada com dois gols de Maradona, um driblando meio time e outro o famoso gol com a mão. O artilheiro da Copa, Gary Lineker, aparecia no selecionado inglês, como atleta do Everton.

Cromo do inglês Lineker, eliminado nas quartas, mas artilheiro com 6 gols do mundial de 1986

Na terceira e última parte do especial, abordaremos as Copas de 1990, 1994 e 1998.

Especial: Álbuns da Copa, de 1970 a 1998 – PARTE 1, os anos 70

A partir de 1970 a Panini passou a produzir álbuns de figurinhas da Copa do Mundo, e assim acontece até os dias de hoje. Já está na banca a edição do Mundial de 2018. Muitos acreditam que a Copa de 2014 pode ter sido o exemplar com o maior número de vendas. Apesar da fabricante não emitir dados oficiais que propiciem uma comparação adequada, as 100 milhões de cópias impressas do Mundial realizado no Brasil apontam para que esse seja o maior sucesso de todos os tempos.

Nessa primeira parte do especial sobre os álbuns das copas produzidos no século XX, começamos com a década de 70. Nesse período três torneios aconteceram, consequentemente, a mesma quantidade de edições dos álbuns. Falaremos primeiro sobre o álbum de 1970…

1970

O álbum da Copa de 1970, que aconteceu no México, trazia em suas primeiras páginas figurinhas dos mundiais anteriores, de 1930 até 1966, assim jogadores como Stabile, da Argentina, Schiavo, da Itália, os brasileiros Leônidas, Didi e Garrincha, o uruguaio Ghiggia, os hungáros Kocsis e Puskas, o português Eusébio, entre outros craques, ganharam seus cromos no álbum de estreia. Uma figurinha com o pôster oficial de cada mundial e a foto da equipe campeã completavam a abertura.

O craque Leônidas, figurinha no álbum de 70 relembrando a Copa de 1938

Ghiggia, fez a diferença na Copa de 50 e virou figurinhas 20 anos depois

Na sequência, assim como hoje em dia, as seleções apareciam por ordem de grupos da Copa, começando com o anfitrião, naquela ocasião o México, desde então o cabeça de chave do primeiro grupo. A seleção do Uruguai ainda aparece com o seu distintivo anterior, Israel faz sua única aparição em álbuns da Copa, e as seleções brasileiras, inglesa, italiana e alemã aparecem com seleções recheadas de craques.

O símbolo do Uruguai na Copa de 1970

No caso da equipe do Brasil, além da constelação de estrelas, é curioso notar que nenhum atleta atuava fora do país, fato que ainda se repetiria por algumas Copas. O goleiro titular Félix, não ganhou figurinha, no álbum estão Ado, do Corinthians e Leão, do Palmeiras. E é a única vez que Pelé aparece como jogador em um álbum da Copa, sem dúvida uma figurinha raríssima na história do futebol.

Pelé!

1974

A Copa do Mundo da Alemanha Ocidental de 1974, traz em sua capa, lançada em alguns países, o enunciado “Munique 74”, mas na verdade foi realizada em 9 cidades daquele país. Dessa vez, as Copas anteriores são relembradas com cromos de lances das partidas e jogadores levantando troféus. Existe também, antes das figurinhas das seleções participantes, uma sequência no mínimo curiosa dos mascotes do mundial jogando futebol e na sequência cromos dos estádios onde seriam realizadas as partidas.

Beckembauer, e a Alemanha Ocidental de agasalho e camisa verde no álbum da Copa

A seleção alemã abre o álbum, com um agasalho azul da Adidas, e por baixo, a tradicional segunda camisa verde. O famoso treinador, Helmut Schön ganha uma figurinha, assim como o presidente da federação da Alemanha Ocidental na época. Fazendo o papel de “Muro de Berlim” no álbum está a seleção australiana, isso porque ela está justamente entre as duas Alemanhas no álbum. Os comunistas do lado oriental participaram naquela ocasião do único mundial de sua história, e justamente no grupo dos rivais ocidentais, completando aquele complexo grupo (ao menos politicamente falando) estava o Chile, que um ano antes tinha passado por um golpe militar, que fez com que a União Soviética desistisse de participar do torneio, mas isso é outra história… (que pode ser lida aqui). (e aqui a história do jogo entre as duas Alemanhas)

O cromo da equipe da Alemanha Oriental

A seleção brasileira também ganhou figurinhas do treinador, Zagalo, e do presidente da federação, João Havelange, mas nem todas as seleções do álbum ganharam. Aqui mais uma vez, só atletas brasileiros atuando atuando em clubes nacionais.

Outro grande destaque da edição de 1974 é a seleção holandesa, que fazia sua primeira parição em mundiais, e trazia ao álbum craques como Cruyff, em sua única aparição em um álbum de Copa e já como atleta do Barcelona, Rep, Krol, Neeskens, todos do Ajax, entre muitos outros craques. Eram as duas páginas da lendária “Laranja Mecânica”.

Cruyff, a estreia da Holanda nos álbuns das Copas

Como, naquela época, apenas 16 seleções se classificavam para a Copa, era natural que muitas grandes equipes ficassem de fora, então no álbum daquele ano resolveram o problema incluindo quatro figurinhas de algumas boas seleções que ficaram pelo caminho e não garantiram vaga para o mundial. Entre elas estão Inglaterra, União Soviética, França, Espanha e Portugal.

1978

Para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, a empresa que produz o álbum mais uma vez mais uma vez abre a edição com lembranças de mundiais anteriores, dessa vez, foto da equipe campeã, um jogador da seleção que levantou a taça e os pôsteres de cada torneio mais uma vez estão presentes. Na sequência os estádios estão representados por ilustrações ao invés de fotos.

Houseman e Kempes, figurinhas da Argentina que levantaria sua primeira taça do mundo.

O então jovem Platini no álbum de 1978

O já experiente Rivelino, na Copa e atuando pelo Fluminense. No álbum de 2018 não tem nenhum jogador atuando por clubes brasileiros

A seleção que conquistaria aquela Copa, a Argentina abre o livro ilustrado. Com Passarela, Ardiles, Houseman, Kempes e companhia, algumas páginas depois, o jovem Platini aparece na seleção francesa. Na Polônia brilha o craque Lato mas na Holanda Cruyff não apareceu, pois não viajou em protesto contra a ditadura que vigorava no país anfitrião. A seleção do Irã faz sua estreia em um álbum. E para encerrar, mais uma vez, grandes seleções que ficaram fora, com a Dinamarca recebendo algum reconhecimento pela primeira vez. Como em 74, são 4 atletas e mais o símbolo de equipes que poderiam ter ido, mas não foram…

Algumas equipes que não iam para a Copa ganhavam algumas figurinhas mesmo assim…

A segunda parte do nosso especial vai tratar dos álbuns de 1982 e 1986….

É campeão! Mas e dai?

Importantes, e milionários, campeonatos europeus conheceram nesse final de semana os seus campeões. Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha, principais campeonatos nacionais do Velho Continente apresentam finais monótonos e sem novidades…

Times recheados de estrelas do futebol mundial, cifras estratosféricas, equipes avassaladoras, e torneios com disputas emocionantes apenas para decidir quem não cai pra segunda divisão. Esse foi o resumo dos principais campeonatos europeus nessa temporada. Na Inglaterra, o antes pequeno, Manchester City, alavancado por milhões de libras, chegou ao seu terceiro título em 7 anos, mais do que o clube tinha conquistado em toda sua história, que eram apenas 2. Faltando ainda 5 rodadas para o término do campeonato inglês, a equipe já tem 16 pontos na frente de seu grande rival, o Manchester United, que deu o título para o City ao tropeçar no último domingo (15).

Ainda mais sem graça foi o campeonato francês, onde o Paris Saint Germain de Neymar, Cavani e companhia, confirmou a conquista com um 7 a 1 frente ao vice-líder, o Mônaco. Por lá também ainda faltam 5 rodadas. Na Alemanha, com muitas partidas ainda restantes, já se sabe que o Bayern de Munique é o campeão, e ainda por cima, pela sexta vez seguida. Na Itália, parecia que o Napoli ressurgiria para atrapalhar a vida da Juventus, mas já com 6 pontos de vantagem, tudo indica que a Velha Senhora, como é chamada a equipe de Turim, conquistará sua sétima taça consecutiva, sim, sete títulos nacionais um atrás do outro!

Por fim, na Espanha, o Barcelona está muito perto de confirmar seu sexto título nessa década. E quando não é o Barça, normalmente é o Real Madrid que fica com a taça…

Portanto, embora, repleto de craques, os campeonatos mais ricos do mundo, são pobres de emoção e assistem as maiores hegemonias de suas centenárias histórias. Quando se trata de Champions League, a situação quase não muda… os mesmos de sempre chegando as fases finais. Com raras exceções.

Esse tipo de final sem a menor graça nos torneios nacionais, reforça sempre uma antiga ideia que sempre vai e volta por lá. A ideia de se criar um torneio no formato de liga com apenas os grandes, e ricos, disputando. Ou seja, juntar times como Juventus, PSG, Bayern, Barcelona, Real Madrid, Manchester City, Chelsea, todos em um mesmo campeonato de pontos corridos, colocando de uma vez por todas os nacionais em um segundo plano.

Fato é, e uma simples passada de olho no álbum de figurinhas da Copa do Mundo demonstra isso, que mais do que nunca todos os atletas de alto de nível do planeta estão concentrados em algumas poucas ligas. É a primeira vez que a página da seleção brasileira no álbum, por exemplo, não terá nenhum jogador sequer atuando em nosso país. Nosso campeonato nacional, que começou no último sábado (14), é nivelado por baixo, sim, mas não nos falta emoção, mesmo que com uma pobreza técnica crescente, justamente pela exportação dos nossos melhores atletas e a implementação de um estilo de jogo cada vez mais burocrático.

Para onde caminha o futebol mundial, não temos como adivinhar, mas uma previsão em cima do que assistimos atualmente, aponta para uma polarização cada vez maior entre os chamados “grandes europeus” e os resto dos clubes do planeta, incluindo os demais clubes da Europa que estão fora desse seleto grupo. Quem perde é quem gosta de jogos disputados e campeonatos onde já na primeira rodada não se saiba o campeão, pelo menos desse mal, o Brasileirão não sofre.

E o Brasil não viu a Recopa….

A América do Sul possui muitos torneios nacionais e regionais extremamente importantes e tradicionais. Porém dois certames se destacam por reunir clubes de todo o continente, um é a Taça Libertadores da América, e o outro, criado mais recentemente, a Copa Sul-Americana. Até ai, nada de novo para quem acompanha futebol…

Acontece que, além dessas duas competições, desde 1989, temos também na América do Sul a Recopa Sul-Americana, que reúne o campeão da Libertadores para enfrentar o vencedor do outro torneio importante do continente (Supercopa, Copa Conmebol, e hoje em dia a Copa Sul-Americana).

Na primeira edição, em 89, o Nacional do Uruguai foi campeão, venceu o Racing da Argentina. De lá pra cá, os brasileiros São Paulo, Grêmio, Cruzeiro, Internacional, Santos, Corinthians e Atlético Mineiro já conquistaram a taça da Recopa, ou seja, trata-se de uma disputa que interessa ao torcedor do Brasil.

Na noite da última quarta-feira (14), o Grêmio, atual campeão da Libertadores, entrou em campo para enfrentar o campeão da Sul-Americana, o Independiente, ou seja, entravam no gramado de Avellaneda, nada mais, nada menos, do que 10 títulos da Libertadores se somarmos os dois. Clássico para ninguém botar defeito. Quer dizer, quase ninguém. Porque a TV responsável por exibir o confronto, a Rede Globo, simplesmente não mostrou a partida para todo o Brasil. E não para por aí, na tarde de ontem, a mesma emissora colocou seu principal narrador e alterou sua “intocável” grade de programação para que os brasileiros de Norte a Sul do mapa acompanhassem Real Madrid x Time do Neymar (conhecido na Europa como PSG), partida válida pelas oitavas de final da Champions League.

Apesar de alguns jogadores brasileiros importantes estarem em campo, não dá para entender a razão de preterir uma partida da envergadura de Grêmio x Independiente para todo o Brasil e apresentar o, tradicional, Real Madrid contra o PSG (quem mesmo?). Por mais que nossas ruas estejam repletas de camisas azuis e vermelhas da equipe francesa, por causa do marketing em torno do jogador Neymar e não da história do time parisiense, é virar as costas demais para nossa América do Sul. É como simplesmente privar o torcedor brasileiro de assistir um dos maiores clássicos do nosso continente.

Já não causa surpresa quando nossos garotos e garotas, apaixonados por futebol, respondem que torcem por Barcelona, PSG ou Real Madrid, ao invés dos nossos grandes clubes que deram de Pelé a Zico, passando por Rivaldo e Rivelino ao futebol mundial. É triste. Mas o processo de globalização do futebol europeu avança como um trator no esporte mais popular do mundo. E aí, quem tem dinheiro, sempre levará vantagem, e esses não somos nós, sul-americanos.

Um retrato, ainda atual, do futebol brasileiro

O Campeonato Brasileiro da Série B nem sempre foi realizado. A sua primeira edição data de 1971, ano do primeiro Campeonato Brasileiro no formato atual. Naquele ano o Villa Nova de Minas Gerais foi o campeão. No ano seguinte, 1972, o torneio voltou a ser realizado com o maranhense Sampaio Corrêa levantando a taça. Depois disso, apenas em 1980 o certame voltou a acontecer.

Com diversas mudanças de calendários, regulamentos e formatos, e principalmente, com o aumento de clubes na Série A, que eventualmente tinha suas vagas decididas nos estaduais, o que valorizava ainda mais os torneios regionais, a Série B foi deixada de lado, só retornando, sob a alcunha de Taça de Prata, em 1980. Acontece que a Taça de Prata não era exatamente uma segunda divisão, pois alguns clubes subiam no mesmo ano para a Série A (Taça de Ouro na época) e outras piores colocadas nas fases iniciais da Taça de Ouro, caiam no mesmo ano para a versão de prata do torneio.

Após uma década muito confusa, incluindo o episódio Copa União em 1987, quando dois torneios nacionais foram realizados, no ano de 1989, com o Brasil às portas de sua primeira eleição para presidente depois da ditadura e no ano da realização da primeira Copa do Brasil (saiba mais aqui), a CBF decide organizar o que chamaria de Divisão Especial, o que seria equivalente a Série B do Campeonato Brasileiro.

Para a disputa da competição foram relacionados 96 clubes. Times do país todo disputando duas vagas na divisão principal de 1990. A revista Placar, edição 1011, de 27 de outubro de 1989, trouxe uma reportagem especial sobre a competição, destacando 16 equipes de diversas partes do Brasil, e os contrastes são inacreditáveis, mesmo que saibamos que se um torneio com essas dimensões fosse repetido hoje em dia, os mesmos desníveis apareceriam novamente.

Jogadores do Princesa do Solimões em seu local de treino

Entre as primeiras equipes destacadas está o Princesa do Solimões, clube da cidade de Manacapuru, no estado do Amazonas, única equipe do interior amazonense a disputar a Série B do nacional até hoje. Os atletas do clube apontavam na matéria da Placar, a sua localização geográfica como grande arma para surpreender os adversários, e os treinos, como demonstra a imagem acima, aconteciam nas margens do próprio Rio Solimões.

As histórias inacreditáveis, e não em um bom sentido, se repetem na reportagem a cada nova equipe que era apresentada. O Nacional, da cidade de Patos na Paraíba, não podia treinar diariamente no estádio municipal onde realizava seus jogos, o clube procurava então, nas palavras de seu atacante no período, campos de pelada para praticar o futebol. O Capelense, de Alagoas, reclamava que na viagem para Caruaru, para enfrentar a equipe local, o Central, seu ônibus foi invadido por assaltantes que levaram todo o dinheiro e até as roupas dos atletas, isso sem contar que a equipe mandava seus jogos em Viçosa, distante 25Km de Capela, a cidade do time.

Já o Ubiratan, de Mato Grosso do Sul, realizava seus treinamentos em um campo localizado em uma reserva, e vez ou outra a seleção indígena local queria participar da peleja também, segundo a matéria, o gramado ficava em uma área cercada por “gigantescas perobas com mais de 100 anos”. Da tríplice fronteira, Brasil/Paraguai/Argentina, vinha o Foz do Iguaçu (não confundir com a equipe atual de mesmo nome), e no trecho que apresenta esse clube o fato de receberam apoio de duas fontes de dinheiro bem diferentes chama a atenção. Um fonte era a estatal Itaipu, a outra era o dinheiro de bicheiros cariocas, e tudo isso convivendo em perfeita harmonia nas contas do clube paranaense.

Partida entre o Ubiratan (MS) e a seleção indígena local

Rio Branco do Acre, Itaperuna do Rio de Janeiro, que tinha apenas três meses e já estava no torneio, o Blumenau-SC, que tinha uma ótima estrutura e contava com vários patrocinadores, o gigante Santa Cruz-PE, o vice-campeão paulista daquele ano, São José, e que conseguiu uma das duas vagas pra Série A, ao lado do campeão do torneio que foi o Bragantino, treinado então por Vanderlei Luxemburgo, (que também conquistou a primeira divisão do campeonato paulista do ano seguinte e que no caminho pro título nacional eliminou nas fases finais o Juventus-SP, Criciúma-SC, Remo-PA, até chegar na final contra o São José), a matéria é uma grande compilação de equipes que como maior problema, além da falta de dinheiro, tinham a falta de apoio em suas próprias cidades e nenhuma condição nem para realizar treinos e jogos, são muitos os casos nesse torneio de equipes que mandavam suas partidas fora de suas cidades.

Tinha até zagueiro-mecânico, caso do Aroldo, do Colatina-ES (foto abaixo), que suava por um salário mínimo arrumando ônibus, para seguir jogando seu futebol, e lutando por uma sonhada vaga na Série A, do então futebol tri campeão do mundo.

O zagueiro-mecânico, Aroldo, do Colatina-ES

O que tudo isso pode nos fazer pensar é que certamente as dificuldades para equipes fora dos grandes centros, que são na verdade 4 ou 5 cidades, seguem existindo, pegando carona em uma reflexão de Hilário Franco Júnior, em seu texto “Brasil, país do futebol?”, podemos nos perguntar se somos o país desse esporte, ou se somos apenas uma nação que produz grandes futebolistas. As pessoas gostam de torcer para quem vence, ou existe mesmo uma ligação entre a comunidade e equipes locais, seja lá em que divisão a equipe que ostente a camisa da cidade, ou do bairro, esteja?

Fomos todos afastados desse enraizamento com o futebol local pelo grande poder da mídia (rádio e depois TV), ou as grandes mídias na verdade formaram esse peculiar gosto pelo futebol do brasileiro, que de outra forma nem existiria? E digo peculiar, porque não me lembro de outro país onde tantas pessoas torçam para clubes tão distantes de suas cidades enquanto os times locais vivem as mínguas, atolados em estaduais cada vez mais desvalorizados…

Não é a intenção desse texto responder todas essas questões, mas apenas apresentar um retrato de um país de praticantes de futebol que teimam em tentar a sorte chutando uma bola, mesmo que nem seus conterrâneos estejam lá muito preocupados com suas jogadas e suas camisas.

Sobre geopolítica e Eurocopa

União Soviética, campeã da Euro de 1960

Quem acompanha futebol, e mais especificamente o futebol europeu, sabe que a Eurocopa acaba por refletir ao extremo as transformações geopolíticas do continente, e do mundo. Desde a primeira edição, disputada em 1960, na França, disputas políticas e ideológicas marcam o percurso do torneio, e na próxima edição não será diferente…

Criado em 1960, o então chamado Campeonato Europeu das Nações, teve que lidar com a desistência de grandes seleções como Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália. Ainda na fase eliminatória do torneio, que teria apenas 4 seleções na sua fase final, a Espanha de Franco desistiu também, por se negar a enfrentar a União Soviética, em território soviético.

A França acabou sediando a primeira edição, que foi vencida pela URSS que bateu os iugoslavos por 2 a 1. Com um gol na prorrogação.

Em 1964, a UEFA leva o torneio justamente para a Espanha de Franco, e a URSS não desiste e disputa o torneio, ao lado da Dinamarca e da Hungria. Na final, os espanhóis evitam o bi campeonato soviético e vencem por 2 a 1. Em 1968, o certame passa a se chamar Campeonato Europeu de Futebol.

A competição teve a participação de 4 equipes até 1976, quando foi realizada, pela primeira vez, em um país do chamado “bloco socialista”, na Iugoslávia. Mas apesar de normalmente ir bem nos torneios de seleções, montando grandes equipes, os iugoslavos não levantaram a taça em casa. O título ficou com outro país na época socialista, a Tchecoslováquia.

Em 1980, a “Euro” começa a receber 8 seleções para a fase decisiva. Mas aquela batalha que marcava a disputa europeia desde 1960, entre seleções socialistas do leste, contra seleções ocidentais, estava prestes a mudar. Mesmo que a Europa ainda não soubesse, 1988, na Alemanha Ocidental, marca a última aparição da União Soviética no campeonato. A primeira campeã e equipe que sempre chegava nas fases decisivas, disputou sua última final, sendo derrotada pela Holanda por 2 a 0, e não existiria mais em 1992…

A primeira Euro dos anos 90, em 1992, foi realizada na Suécia e seria a última com 8 seleções. A URSS, que obteve vaga, foi substituída pela CEI, Comunidade dos Estados Independentes, que na prática trazia boa parte da seleção da URSS, mas agora como um conglomerado de pequenas nações. Por conta do início da Guerra da Bósnia, a Iugoslávia, que também estaria na Suécia para a fase final, foi eliminada pela UEFA, em seu lugar foi chamada a Dinamarca, que tinha sido batida pelos iugoslavos nas eliminatórias. Para surpresa geral, os dinamarqueses convidados, foram campeões no final.

O alemão Klinsmann, recebe a taça da Euro de 1996 realizada na Inglaterra

Em 1996, um continente com um número muito maior de nações independentes, resultado da queda do Muro de Berlim e consequente dissolução de nações como URSS e Iugoslávia, precisava de um torneio com mais equipes também. A solução foi dobrar a quantidade de vagas para a fase final da Euro. Teríamos, no torneio sediado na Inglaterra, 16 países. República Tcheca, Rússia e Croácia aparecem entre os classificados, apontando o novo momento do continente europeu. E quase os tchecos levam o título, perdendo de virada na final para a Alemanha.

De lá pra cá, poucas coisas mudaram, a novidade de dois países sediarem um mesmo torneio foi uma das poucas alterações, Holanda e Bélgica em 2000, Áustria e Suíça em 2008 e Polônia e Ucrânia em 2008 organizaram suas próprias competições conjuntas. A edição de 2016 contou com um novo aumento de participantes, agora são 24.

Um novo episódio da política da região aparece mais uma vez refletido na história da competição. Em 2020, pela primeira vez, a competição será sediada por toda a Europa. O plano da UEFA, era que 13 cidades, de 13 diferentes países, recebessem as partidas da Euro, acontece que a Inglaterra estava nos planos, e com o resultado recente do chamado Brexit, plebiscito que apontou a vontade dos britânicos pela saída da ilha da União Europeia, a relação poderia ter ficado estremecida.

Mas ao que parece, a competição, que acontecerá justamente um ano após a formalização da saída do Reino Unido da União Europeia servirá de certa forma para demarcar que as portas da ilha continuam abertas para os europeus. O prefeito de Londres, cidade que receberá as semifinais e a final do torneio, Sadiq Khan, afirmou que a cidade está aberta para receber todos.

Outro ponto a ser destacado é que Londres, de última hora, ganhou um número maior de partidas da Euro, justamente pela saída de Bruxelas, capital belga e cidade que abriga o Parlamento Europeu. O motivo da saída de Bruxelas foi a falta de garantias para a construção de um novo estádio para a ocasião.

Faltam dois anos para a próxima Eurocopa, Portugal de Cristiano Ronaldo é o atual campeão, mas é certo que a cada quatro anos o torneio seguirá sendo um forte reflexo da política europeia e de suas consequências.

Jogadores de Portugal comemoram o gol do título em 2016

Geopolítica e futebol: Neymar no PSG e o soft power do Catar – Por Emanuel Leite Jr.*

A informação antecipada pelo jornalista Marcelo Bechler em 18 de julho se confirmou na primeira semana de agosto. Neymar vai trocar o Barcelona pelo Paris Saint-Germain (PSG). A transferência do craque brasileiro vai se tornar a mais cara da história do futebol mundial: assombrosos € 222 milhões (valor da cláusula de rescisão). É mais do que o dobro dos € 105 milhões que o Manchester United pagou à Juventus por Paul Pogba.

Dinheiro, contudo, não é problema para o clube francês desde que foi adquirido, em 2011, pelo Qatar Sports Investments, subsidiário da Autoridade de Investimento do Catar. A contratação de Neymar pelo PSG vai muito além dos limites das quatro linhas. Trata-se de uma declaração política do Catar, que reafirma seus propósitos de afirmação internacional através do esporte como instrumento de soft power.

Ao longo do século 20, o esporte, como fenômeno cultural e espetáculo de massas que representa, foi se consolidando como uma manifestação de caráter internacional. Eric Hobsbawm afirma que foi no período entre as duas grandes guerras mundiais que o esporte se tornou “uma expressão de luta nacional, com os esportistas representando seus Estados ou nações, expressões fundamentais de suas comunidades imaginadas”. Por isso, é impossível dissociar a história do esporte moderno de elementos como orgulho nacional, prestígio internacional e diplomacia. Na esfera da disputa internacional, o esporte de alta competição tem a capacidade de reafirmar a identidade nacional, ao mesmo tempo em que pode ser utilizado como ferramenta de promoção da imagem do país – tanto na busca da aceitação e afirmação internacionais, como no estabelecimento de relações internacionais: o chamado soft power.

Soft power é um conceito introduzido por Joseph Nye que, ao descrever as relações de poder, definiu que “poder é a habilidade de influenciar as outras pessoas para se conseguir os resultados que se deseja, o que pode ser feito através da coerção, do pagamento ou da atração”. Em contraponto ao “poder duro”, que se caracterizaria pela coerção (força militar) ou do pagamento (força econômica), haveria o soft power (poder brando). “Um país pode obter os resultados que deseja na política internacional porque outros países – admirando seus valores, emulando seu exemplo e aspirando ao seu nível de prosperidade – vai querer segui-lo”, descreveu Nye.

O Catar é um emirado. Ou seja, é uma monarquia absolutista e hereditária governada por um Emir. Desde que se declarou independente do Reino Unido em 1971, recorreu ao esporte como um elemento de construção de sua identidade nacional. Ainda em 1971, Muhammad Ali participou de uma luta de exibição em Doha, capital do emirado. Já em 1973, o Santos de Pelé disputou um amistoso com o Al-Ahli SC, clube mais antigo do país. Mas foi através da criação do Comitê Olímpico do Catar em 1979 e o seu reconhecimento pelo Comitê Olímpico Internacional em 1980 que o país viu fortalecida sua imagem como uma nação independente.

Em 2008, o emirado lançou o Qatar National Vision 2030, um plano estratégico do país que visa mudar sua imagem no contexto internacional (bastante associada ao terrorismo, com suspeitas de financiamento de grupos terroristas como Estado Islâmico e a Irmandade Muçulmana) e, a partir da construção desta nova imagem, a busca por se estabelecer como uma referência de modernidade em sua região e de competitividade no mercado global. A abordagem da Visão Nacional 2030 inclui políticas de relações exteriores como mediação e resolução de conflitos; a criação de uma rede de televisão de referência mundial – Al Jazeera (e sua subsidiária beIN Sports); uma empresa aérea de classe mundial (Qatar Airways) e de um aeroporto que sirva de ponto de passagem entre continentes. É nesta estratégia mais ampla de soft power que se inserem as políticas desportivas do Catar.

No entendimento de Richard Giulianotti, os “megaeventos desportivos podem ser considerados uma das mais poderosas manifestações contemporâneas da globalização”. Em termos econômicos, Giulianotti alude às cifras bilionárias envolvidas nestes torneios e a possibilidade de quem sedia o evento “se vender”, além da exposição a bilhões de pessoas em todo o planeta. Por fim, o aspecto político, uma vez que “estes eventos atraem políticos de todo o mundo, particularmente nas cerimônias de abertura”, frisa Giulianotti. Por esta razão, a organização de megaeventos desportivos podem servir como instrumento de ‘soft power’.

Não por acaso, o Catar já sediou os Jogos Asiáticos (2006), o Mundial de Handebol masculino em 2015, recebe anualmente o Masters de Golfe, Abertos da ATP e WTA, etapa do Mundial de MotoGP e em 2019 Doha vai ser palco do Mundial de Atletismo. O culminar desta estratégia de persuasão internacional e da promoção de uma nova imagem do país perante a comunidade internacional se encontra, naturalmente, na conquista do direito de sediar a Copa do Mundo FIFA 2022, que colocou o emirado, definitivamente, no centro das atenções.

O exercício do soft power através do esporte não ocorre apenas na organização de eventos esportivos. É possível aliar os mecanismos de soft power com técnicas de marketing para a criação de uma marca (“branding”) de uma nação, e assim mudar a visão da opinião pública internacional: “nation branding”. E é isso o que o Catar tem feito. Primeiro, através da Fundação do Qatar que pagou € 170 milhões para se tornar o primeiro patrocínio comercial da história na camisa do Barcelona (marca que foi substituída posteriormente pela Qatar Airways, empresa estatal, detida em sua integralidade pelo Fundo Soberano do Catar).

Em 2011, a Autoridade de Investimento do Catar, através do Qatar Sports Investments, comprou o PSG, com a intenção de transformar o clube parisiense numa marca de referência no mercado global. O Qatar Sports Investments foi criado em 2005 pelo xeique Tamim Bin Hamad Al Thani, que é atualmente o Emir do Catar, tendo sucedido seu pai, o xeique Hamad bin Khalifa Al Thani (que, por sua vez, ascendeu ao poder após dar um golpe de estado sobre seu progenitor, Khalifa bin Hamad Al Thani).

Desde a aquisição pelos cataris, o PSG gastou mais de € 720 milhões em contratações (sem contar os € 222 milhões por Neymar). De acordo com relatório da Sporting Intelligence (que analisou não apenas campeonatos de futebol, mas também a NFL, NBA, MLB, liga indiana de críquete, dentre outros), graças ao PSG, na temporada 2016/17, a Ligue 1 francesa fora a liga esportiva com maior desigualdade na razão entre o clube com maior orçamento salarial e o menor: 21,5:1. A diferença entre o salário médio anual de um jogador do time titular do PSG para um titular do campeão Monaco foi de € 3,3 milhões.

O PSG, que não ganhava a Ligue 1 desde 1994 (e só tinha dois títulos nacionais em seu palmarés), conquistou o tetracampeonato entre 2013 e 2016. Em 2017, perdeu o título para o Monaco. Mas, enquanto o sucesso doméstico foi conquistado com enorme facilidade, o clube não conseguiu se firmar no topo do futebol europeu, fazendo com que sua marca não tenha se estabelecido como uma referência mundial.

Ainda no campo do soft power, quem não se lembra da visita do xeique Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani à cidade de Chapecó em dezembro de 2016? Em sua visita ao interior do estado de Santa Catarina, o xeique Al Thani convidou o time sub-17 da Chapecoense para disputar um torneio no Catar e disponibilizou a Academia Aspire, que é um centro de referência na formação de atletas (e também um instrumento de persuasão, com a promoção de atividades que atrai atletas de todo o mundo), para os jovens jogadores da Chapecoense.

Neymar: uma jogada esportiva, financeira e política

Richard Giulianotti, entretanto, chama a atenção para o risco do que ele denominou por soft disempowerment. Segundo o autor, soft disempowerment ocorre quando “a tentativa de obter ‘soft power’ sai pela culatra, a influência e o prestígio são abalados ao invés de ampliados”.

É o que tem ocorrido com o Catar, principalmente depois da conquista do direito de sediar a Copa do Mundo 2022. As denúncias de compra de votos de membros do Comitê da FIFA que elegeu o emirado como sede da Copa do Mundo; acusações de violação dos direitos humanos; más condições de trabalho para os operários que atuam nas construções dos projetos relacionados ao Mundial (inclusive, condições análogas à escravidão moderna); as altas temperaturas no país durante o período em que, tradicionalmente, a Copa do Mundo acontece, que forçou a mudança de datas, prejudicando o calendário do futebol mundial, em particular dos clubes europeus (principais fornecedores de atletas para o evento), etc.

Além de tudo isso, o Catar não conseguiu se livrar das acusações de financiar grupos extremistas islâmicos. Foi sob essa alegação, inclusive, que seus vizinhos Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Bahrein utilizaram para cortar relações diplomáticas com o Catar em junho deste ano.

E é precisamente em meio a este conflito diplomático que o país se vê, mais do que nunca, na necessidade de trabalhar a promoção de uma nova imagem de si mesmo. A construção de uma marca que seja associada à modernidade, segurança, desenvolvimento, competitividade e paz. É neste contexto geopolítico que se insere a contratação de Neymar. Inclusive, não por acaso, alega-se que o PSG pretende recorrer às empresas do Catar para pagar o atacante e, assim, tentar se livrar de eventuais punições por quebra do fair play financeiro da UEFA.

Ao mesmo tempo em que representaria um ganho técnico e de valorização financeira da marca do PSG (que tem na conquista da Liga dos Campeões o grande objetivo desportivo para reforçar sua imagem no mercado global e, finalmente, tornar-se um clube/produto de referência internacional), Neymar serviria como “garoto-propaganda” do grande plano estratégico do Catar de promover a marca revigorada do país no cenário geopolítico, comercial e financeiro internacional.

Enquanto seus vizinhos, em especial a Arábia Saudita, tenta manchar a sua imagem perante o mundo, o Catar faz uma afirmação contundente com a contratação de Neymar pelo PSG. O país busca se (re)afirmar no cenário mundial, ao mesmo tempo em que manda um recado aos seus vizinhos. O futebol, mais do que nunca, serve de instrumento político e de mecanismo de soft power.

*Emanuel Leite Jr. é doutorando em Políticas Públicas na Universidade de Aveiro (Portugal), bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pelo Centro Universitário Maurício de Nassau. Autor do livro “Cotas de televisão do campeonato brasileiro: apartheid futebolístico e risco de espanholização”, que serviu de base para o PL 755/

A importância dos torneios regionais

Muitos temas inerentes ao futebol tem sido constantemente debatidos, questões extremamente urgentes e necessárias, como o machismo, a homofobia, maior visibilidade para o futebol feminino, a elitização, ou “arenização do esporte”, monopólio da grande mídia e por ai vai… esses debates têm sido levados adiante por muitos coletivos e movimentos de arquibancada que aparecem aos montes e preenchem uma lacuna essencial no futebol brasileiro. Cumprem um papel de formação, já que a grande mídia deforma, esses e essas verdadeiras militantes da bola, tentam, muitas vezes, quase sempre, com estrutura bem reduzida comprar batalhas gigantes em defesa das pautas que se propõe a discutir.

Em muitos desses debates, felizmente, existe uma grande concordância, nem que seja aparente, acerca da maioria dos temas, e ai poderíamos pensar se essa uniformidade de opiniões não se dá porque muitas dessas pautas ainda estão restritas a um determinado tipo de pessoa, que tende a ter um determinado tipo de opinião. Provavelmente sim. Salvo em alguns casos onde a pauta se mostra um pouco mais ampla, como a torcida do Palmeiras mostrou ao combater os gritos homofóbicos nas cobranças de tiro de meta, ou a verdadeira batalha contra os jogos às 22h impostos pela Rede Globo, normalmente as mesmas pessoas, frequentam os mesmos debates, acerca dos mesmos, ou quase mesmos, temas.

Tenho tido oportunidade de participar de muitas dessas atividades, debatendo, assistindo ou até ajudando a organizar, e percebo que existe um tema, na minha opinião, muito importante para o futebol brasileiro, que não consegue criar coesão por parte do público interessado. E esse tema é o modelo de organização dos campeonatos no Brasil, sendo mais específico, como resolver a questão dos estaduais.

Sabemos que o Brasil é um país continental, o que já torna qualquer analogia com países da Europa Ocidental um grave erro. Se alguém pega um campeonato da Inglaterra, da Alemanha ou até da Bélgica como comparativo, além do eminente erro de ignorar a questão econômica envolvida, estamos passando por cima também, com esse tipo de comparação, da história da própria formação local do futebol. O Manchester United é um grande rival do Manchester City, e por que? Porque são da mesma cidade, porque desde sempre os moradores da cidade dividiram sua paixão entre esses dois clubes e isso fez com que o futebol ocupasse um importante espaço cultural naquele território. O Grêmio é o rival do Inter, e por que? Exatamente pelo mesmo motivo. Ou seja, não podemos desterritorializar o futebol. Não podemos desenraizar o futebol do elemento que constituiu a forte ligação do povo com o esporte mais popular do planeta.

A história dos estaduais remonta ao início do século XX, não por coincidência o mesmo período em que as ligas nacionais europeias se formaram também. E com isso, a história dos clubes, suas rivalidades e identidades. Quando se apresenta o argumento de que um Campeonato Brasileiro nos moldes atuais é o ideal, com 20 clubes, sendo que apenas 4 não são do Sul e do Sudeste, apenas 3 do Nordeste, e nenhum da Região Norte, se faz uma defesa justamente da elitização do futebol brasileiro. Um país com a diversidade do futebol brasileiro, com rivalidades que escrevem páginas ricas da história do nosso esporte, como Fortaleza e Ceará, Sergipe e Confiança, Remo e Paysandu, não cabe dentro de um torneio que dura quase todo o ano e reúne apenas 20 clubes, quase todos da mesma região.

Da mesma forma que a pujança econômica faz com que os grandes craques de todo mundo escorram para o mercado europeu, em um movimento similar, o que sobra de jogadores por aqui, são atraídos pelas cifras do eixo Sul e Sudeste, e mesmo dentro dessas duas regiões, outro nível se abre, e ai quem leva vantagem são Rio e São Paulo. É contraditório ver quem apoia diversas questões relevantes em outros âmbitos do futebol, defender que com esse modelo atual, os grandes clubes conseguem se estruturar melhor para disputar Libertadores ou segurar mais craques por aqui.

Muitas vezes, dentre os contrários aos estaduais, um outro argumento aparece, o de que os “clubes grandes”, ou hegemônicos como prefiro dizer, poderiam disputar apenas a fase final dos torneios de seus estados, e os “pequenos” poderiam dessa forma jogar o ano todo entre eles mesmos. Acontece que historicamente o que fez com que clubes de cidades do interior, por exemplo, montassem times competitivos, foi justamente a chance de enfrentar durante boa parte do ano os clubes de maior exposição na mídia.

E o que acontece quando se aposta em um modelo de estaduais enfraquecidos como agora? Os clubes do interior ou de capitais de regiões mais pobres do país não conseguem, por exemplo, patrocinadores e cotas de TV justas para disputar e igual para igual contra os hegemônicos e com isso revelam menos jogadores. Óbvio né? Pois é, parece que não é óbvio não. As vozes contra os estaduais são enormes. Muitos parecem não compreender o sentido de identidade regional que construiu o futebol e encaram com normalidade camisetas do Flamengo e do Corinthians, por exemplo, tomando cada vez mais as ruas de regiões que já possuem seus grandes clubes locais. Ora, seguindo nessa lógica, devemos achar natural que Barcelona e Real Madrid conquistem cada vez mais adeptos aqui, do outro lado do oceano, onde nem a mesma língua se fala. Se o que vale é abrir um abismo elitista em nome de estruturar, ainda mais, os hegemônicos, não devemos nos surpreender se nossos netos responderem a tradicional pergunta, “que time você torce?”, com um frio: “Bayern de Munique!”.

Três anos depois dos sete gols da Alemanha

Todos que gostam muito de futebol, e principalmente, os que gostam das histórias em torno do futebol, já ouviram muito falar do fatídico dia 16 de julho de 1950. Dia de Maracanã lotado, Brasil vindo de bons resultados e precisando apenas empatar com o Uruguai para levantar a taça pela primeira vez, mas…

Mas o que se viu foi uma grande tragédia. No Maracanã, que foi alvo de tantos debates no período de sua construção, algo bem parecido com o nosso “Não vai ter Copa” X “Vai ter Copa” de 2014, os uruguaios viraram de forma improvável uma partida que perdiam por 1 a 0. Ghiggia, já com a partida se encaminhando para o final, sacramentou a virada vencendo o goleiro Barbosa. Em um Brasil que dentro e fora das quatro linhas, ainda tentava se encontrar e lutar contra o “complexo de vira-latas”, e que mesmo no futebol não tinha ainda levantado nenhuma taça, aquele gol teve o poder devastador de uma bomba. Não como as bombas que devastaram a Europa apenas alguns anos antes, na segunda grande guerra, conflito esse que inclusive fez a Copa do Mundo ficar 12 anos sem ser realizada, mas uma bomba que fez com que esse esporte por aqui perdesse um pouco o rumo nos anos posteriores.

O Brasil perdeu. E foi triste. Talvez a maior tristeza do nosso futebol.

Sofremos em 1954, com atletas instáveis emocionalmente e voltamos a perder, para em 1958 encontrarmos o caminho das conquistas e dai pra frente, 12 anos depois, em 1970 já sermos aclamados como o “país do futebol”, salvo exageros na afirmação, de fato os 11 em campo na final contra a Itália no Mundial do México elevaram o futebol ao status de arte, segundo o historiador Hobsbawm em seu “Era dos Extremos”.

O tempo passou, e o futebol seguiu mudando, a Holanda de 74 mudou a forma de jogar, o Brasil de 82 encantou também, mas nenhuma dessas seleções venceram a Copa. O Brasil voltou a vencer em 1994, jogando de forma pragmática como nunca antes, e depois assistiu outra geração de grandes jogadores, como Rivaldo e Ronaldo, vencer outra Copa, em 2002.

No canto do cisne de um período de governos, que apesar de necessárias auto críticas, mudaram os padrões de consumo dos brasileiros, elevando o acesso aos postos de trabalho, as universidades, entre outros importantes avanços, uma Copa do Mundo aconteceria no país. Um torneio que antecederia uma eleição que se mostrava difícil para as forças progressistas, sobretudo após a derrota nas ruas em 2013. Quando a mídia transformou legítimas manifestações contra a carestia nos transportes públicos em grandes atos contra a política em geral e contra “tudo que está ai”. Milhares de pessoas gritando por mais saúde e educação, e ajudando a fomentar o caminho para um novo intento neoliberal, que tão bem estamos assistindo agora, exatamente 3 anos depois da segunda grande derrota “em casa” do futebol brasileiro.

A receita da tragédia de 8 de julho de 2014 é complexa. Mas passa por uma CBF e federações locais que ainda vivem nos tempos da ditadura. Uma emissora de televisão privada que se apropriou do esporte mais popular do país e decide desde tabelas até horários de jogos, além de abrir de uma vez por todas o abismo entre os clubes com suas cotas “diferenciadas”. Um treinador que, apesar de grandes serviços para a própria seleção em 2002, passagens históricas por Grêmio e Palmeiras, talvez não estivesse em seu melhor momento para ocupar aquele cargo. E uma geração de atletas vestindo a camisa da seleção brasileira, que talvez fosse a pior desde o Mundial de 1930. Nesse último quesito, podemos debater se um outro treinador (Tite?), que conquistou o mundial de clubes com o Corinthians em 2012, teria conseguido tirar água de pedra e levar uma equipe melhor para o campo. Mas essa discussão não nos levaria muito longe…

Entre xingamentos vergonhosos contra a então presidenta da República, Dilma Rousseff, vindos de um público que estava pagando muito caro em seus ingressos, para sentar em Arenas novinhas em folha (e aqui sempre vou pensar na oportunidade que perdemos de realizar uma Copa de fato para nosso povo, em nossos templos do futebol. Quem não gostaria de ter visto um Argentina e Holanda, por um preço justo no belo Pacaembu? Mais isso é tema pra outro texto…) a seleção estreou sem convencer. Mas venceu a Croácia de virada. Na sequência um empate contra o México, que já deveria ter ligado o alerta do Brasil, e uma vitória contra a fraquíssima e conturbada seleção de Camarões, colocaram a seleção canarinho nas oitavas.

A partir dai, o que se viu foi uma seleção completamente desestabilizada, ainda mais. As lágrimas de alívio por uma vitória contra o Chile nos pênaltis diziam claramente que nem todos nasceram pra ostentar aquela camisa e ainda mais, que talvez exista um buraco na compreensão de toda uma geração, incluindo atletas de futebol, sobre o que representa o futebol para o brasileiro, e mais, sobre o que representa o futebol brasileiro para o mundo.

Na sequência, uma vitória contra a Colômbia e, ao menos para mim, um surpreendente lugar entre os quatro melhores da Copa para aquela limitada seleção brasileira.

Veio a semifinal, em um 8 de julho, assim como hoje, e um, dois, três, quatro, cinco, seis… sete gols da Alemanha. A mesma quantidade que o “furacão” da Copa de 1970, Jairzinho, levou seis difíceis jogos para marcar naquele mundial. Toda aquela receita de alguns parágrafos acima estava exposta. E tivemos que descobrir e encontrar todos esses erros de uma só vez. Aliás, em sete vezes.

Naquela lista, ainda podemos juntar motivos como a formação do jogador brasileiro por exemplo… e após tamanho desastre, que jornalistas, estudiosos, atletas e demais interessados no esporte, ainda no máximo tateiam explicações, é inevitável perguntar: O que mudou de lá pra cá? A resposta é fácil: nada mudou.

A tal emissora de TV ampliou seu domínio, tornando os clubes cada vez mais dependentes, um Campeonato Brasileiro com atletas ou muito novos pra ir embora, ou mais velhos retornando do exterior, com outros com qualidade discutível até para ter escolhido essa profissão, e uma CBF comandada pelos mesmos, os mesmos de sempre. Tudo isso, atualmente, muito bem “escondido” por uma seleção, treinada por Tite, que, pasmem, tem apresentado ao menos um futebol razoável e de bons resultados.

É improvável que outra vergonha aconteça em 2018. Podemos até ganhar a sexta estrela na camisa na Rússia ano que vem. Mas uma oportunidade de rever toda a estrutura do futebol brasileiro foi, e ainda está sendo, desperdiçada.