O dia que falei com o Sócrates

Sócrates na partida de estréia da seleção na Copa de 1982, contra a União Soviética.

Sócrates na partida de estréia da seleção na Copa de 1982, contra a União Soviética.

– E ai Thiagão, o que vai ter pro sábado?

Silvio Valente, meu coordenador na época de Rádio Record, chegou naquele dia me perguntando o que eu estava planejando para o programa que eu produzia e apresentava aos sábados na emissora.

A copa de 2006 se aproximava, e embora eu estivesse bem desanimado com a nossa seleção, o clima como sempre era de esperança em mais uma taça pra equipe brasileira.

– Pensei em um especial sobre a Copa de 82, Sílvio.

Eu sou um grande fã da equipe de 82. Um meio campo com Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico é extraordinário.

Nosso comandante na redação não titubeou e mandou logo de primeira:

– Ótimo. Então liga pro Magrão!

Magrão, apelido que os mais próximos usavam para se referir ao Sócrates.

Obviamente me bateu um frio na barriga danado e eu, então com 24 anos, concordei na hora.

– Grande ideia. Mas será que ele fala?

– Fala sim Thiagão. Quer que eu ligue? Mas se quiser liga agora, olha aqui liga nesse número.

Parecia meio inacreditável. Eu já tinha entrevistado tudo quanto era jogador, até o croata Boban, que também era um dos meus ídolos, não só pelo futebol, mas também por suas ideias políticas, assim como Sócrates…

Mas o Sócrates era o Sócrates!

Liguei. Sócrates atendeu logo. E me falou:

– Estou no bar agora, com um pouco de barulho, faz assim, me liga em 15 minutos que vou procurar um lugar tranquilo aqui.

Sócrates no bar! Gênio! (risos)

Corri pra sala de gravação, deixei tudo pronto e liguei de volta. Exatos 15 minutos depois…

Na pauta apenas a seleção de 1982 e as expectativas dele para o Brasil na Copa de 2006, que começaria alguns dias depois. Tempo máximo de 5 minutos para encaixar no programa. Aquele programa teve outros entrevistados, como o craque Éder. Mas o que mais me record foi mesmo esse papo com o Sócrates. Assim menos de meia hora depois de ter proposto a pauta.

Queria ter falado sobre muitas outras coisas. Mas a pauta era Copa de 82. Antes de desligar ainda deu tempo de perguntar sobre o Corinthians naquele ano. Ele foi pessimista. Perguntei também sobre as eleições que ocorreriam no final do ano. E ele afirmou, “vai dar Lula de novo, tranquilo”, e deu mesmo. Mandou um forte abraço e desligou o telefone.

O Sócrates faz falta. Nesses tempos que vivemos seria bom ouvirmos as opiniões do Magrão.

Compartilho abaixo a entrevista com o Sócrates, sobre a seleção na Copa de 82.

 

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Sou andreense, meu time também!

sou andreense meu time tb

Muito se fala sobre a questão de brasileiros torcerem para times europeus e como isso demonstra a força dos clubes de lá e a fraqueza dos de cá. E ao mesmo tempo, como nossos clubes não conseguem criar um modelo de organização que permita ao futebol brasileiro segurar seus grandes craques e, talvez, com isso manter a fidelidade de seus torcedores.

E por que “talvez”? Porque o processo de brasileiros “terem” também um time europeu começou no mínimo nos anos 80. Com os primeiros jogos do Campeonato Italiano sendo transmitidos, primeiro na Globo e depois na Bandeirantes. Coincide também com a ida de alguns, bem poucos se comparado com hoje, jogadores para Europa. Naquele tempo apenas os atletas da seleção, ou selecionáveis, acabavam saindo, hoje bastam três belos gols e uma boa edição de imagens e lá vai o cara jogar na Ucrânia, na Polônia, na segunda divisão da Bélgica e por ai vai.

Sendo assim, a TV usou a participação dos brasileiros para promover o torneio, mas aqui ainda tínhamos craques de sobra em nossos clubes. Com o passar dos anos 90 isso se aprofundou até chegar aos níveis catastróficos dos tempos atuais. Metade do campeão brasileiro indo jogar na China, por exemplo…

Mas a força do marketing em torno dos grandes europeus é avassaladora. E a mídia é grande parte disso. A mídia também é apontada como a causa de um outro “desvio” de torcedores. E esse outro “desvio” acontece  em território nacional.

Muitos torcedores no Brasil, e não consigo pensar em outro grande centro do futebol onde isso corra com tanta força, torcem para os clubes das grandes capitais, mesmo que o sujeito more em uma cidade que possui um time disputando a divisão principal de seu estado. Sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo concentram os torcedores do país todo. E o primeiro motivo que sempre é listado aponta para o fato da Rádio Nacional e depois, com o advento da TV, a Rede Globo, exibirem somente os jogos dos grandes de São Paulo e do Rio para o resto do Brasil. Flamengo, depois o Corinthians, e na sequência Vasco, Palmeiras e São Paulo acabam ganhando torcedores em todas as partes do país, devido a grande exposição midiática.

Tentando remar no caminho contrário e fortalecer a importância da relação entre torcedor e clube de sua própria cidade ou região, o movimento “Sou Andreense, meu time também”, reúne torcedores do Santo André e luta para manter a torcida da equipe da cidade, campeã da Copa do Brasil em 2004, contra o próprio Flamengo no Maracanã lotado.

Em uma conversa com Renato Ramos, um dos idealizadores do movimento, pude entender um pouco mais sobre as ideias por trás desse movimento. Segundo ele, o “Sou Andreense, meu time também”, criado em 2014, nasceu da ideia de “mostrar aos moradores da cidade que temos um time para torcer, que leva as nossas cores, que carrega o nome da cidade para todo o país”. O grande objetivo é mostrar que Santo André tem uma equipe, e que os moradores da cidade não precisam torcer para os times da capital.

Renato Ramos, coloca a mídia como um dos grandes obstáculos para o crescimento e sustentação das equipes de fora de São Paulo, “a grande mídia não abre espaços para os clubes da nossa região e da nossa cidade, absorvemos 24 horas por dia matérias esportivas da capital”.

Torcedores do movimento "Sou andreense, meu time também" durante partida entre Santo André e Marília pelo Paulista da Série A2, no último dia 13.

Torcedores do movimento “Sou andreense, meu time também” durante partida entre Santo André e Marília pelo Paulista da Série A2, no último dia 13.

Para conseguir trazer as pessoas da cidade para o lado do time o movimento tem organizado campanhas para os torcedores se associarem ao clube, para comprarem ingressos nas bilheterias, e com isso manter o Esporte Clube Santo André vivo e forte.

Mas as perspectivas sobre o futebol na cidade, segundo Ramos, são incertas, “o E.C. Santo André vai depender do que vai acontecer nas próximas eleições para a diretoria do clube, existe uma oligarquia instalada no clube desde 1992”.

Se o futebol brasileiro caminha a passos largos para o sufocamento dos clubes de fora dos grandes centros, ao menos, existem pessoas e movimentos tentando lutar contra isso e lembrar as pessoas de que uma partida na TV nunca será a mesma coisa do que ir ao estádio da sua cidade.

Clique aqui para conhecer a página do movimento no Facebook.