A importância dos torneios regionais

Muitos temas inerentes ao futebol tem sido constantemente debatidos, questões extremamente urgentes e necessárias, como o machismo, a homofobia, maior visibilidade para o futebol feminino, a elitização, ou “arenização do esporte”, monopólio da grande mídia e por ai vai… esses debates têm sido levados adiante por muitos coletivos e movimentos de arquibancada que aparecem aos montes e preenchem uma lacuna essencial no futebol brasileiro. Cumprem um papel de formação, já que a grande mídia deforma, esses e essas verdadeiras militantes da bola, tentam, muitas vezes, quase sempre, com estrutura bem reduzida comprar batalhas gigantes em defesa das pautas que se propõe a discutir.

Em muitos desses debates, felizmente, existe uma grande concordância, nem que seja aparente, acerca da maioria dos temas, e ai poderíamos pensar se essa uniformidade de opiniões não se dá porque muitas dessas pautas ainda estão restritas a um determinado tipo de pessoa, que tende a ter um determinado tipo de opinião. Provavelmente sim. Salvo em alguns casos onde a pauta se mostra um pouco mais ampla, como a torcida do Palmeiras mostrou ao combater os gritos homofóbicos nas cobranças de tiro de meta, ou a verdadeira batalha contra os jogos às 22h impostos pela Rede Globo, normalmente as mesmas pessoas, frequentam os mesmos debates, acerca dos mesmos, ou quase mesmos, temas.

Tenho tido oportunidade de participar de muitas dessas atividades, debatendo, assistindo ou até ajudando a organizar, e percebo que existe um tema, na minha opinião, muito importante para o futebol brasileiro, que não consegue criar coesão por parte do público interessado. E esse tema é o modelo de organização dos campeonatos no Brasil, sendo mais específico, como resolver a questão dos estaduais.

Sabemos que o Brasil é um país continental, o que já torna qualquer analogia com países da Europa Ocidental um grave erro. Se alguém pega um campeonato da Inglaterra, da Alemanha ou até da Bélgica como comparativo, além do eminente erro de ignorar a questão econômica envolvida, estamos passando por cima também, com esse tipo de comparação, da história da própria formação local do futebol. O Manchester United é um grande rival do Manchester City, e por que? Porque são da mesma cidade, porque desde sempre os moradores da cidade dividiram sua paixão entre esses dois clubes e isso fez com que o futebol ocupasse um importante espaço cultural naquele território. O Grêmio é o rival do Inter, e por que? Exatamente pelo mesmo motivo. Ou seja, não podemos desterritorializar o futebol. Não podemos desenraizar o futebol do elemento que constituiu a forte ligação do povo com o esporte mais popular do planeta.

A história dos estaduais remonta ao início do século XX, não por coincidência o mesmo período em que as ligas nacionais europeias se formaram também. E com isso, a história dos clubes, suas rivalidades e identidades. Quando se apresenta o argumento de que um Campeonato Brasileiro nos moldes atuais é o ideal, com 20 clubes, sendo que apenas 4 não são do Sul e do Sudeste, apenas 3 do Nordeste, e nenhum da Região Norte, se faz uma defesa justamente da elitização do futebol brasileiro. Um país com a diversidade do futebol brasileiro, com rivalidades que escrevem páginas ricas da história do nosso esporte, como Fortaleza e Ceará, Sergipe e Confiança, Remo e Paysandu, não cabe dentro de um torneio que dura quase todo o ano e reúne apenas 20 clubes, quase todos da mesma região.

Da mesma forma que a pujança econômica faz com que os grandes craques de todo mundo escorram para o mercado europeu, em um movimento similar, o que sobra de jogadores por aqui, são atraídos pelas cifras do eixo Sul e Sudeste, e mesmo dentro dessas duas regiões, outro nível se abre, e ai quem leva vantagem são Rio e São Paulo. É contraditório ver quem apoia diversas questões relevantes em outros âmbitos do futebol, defender que com esse modelo atual, os grandes clubes conseguem se estruturar melhor para disputar Libertadores ou segurar mais craques por aqui.

Muitas vezes, dentre os contrários aos estaduais, um outro argumento aparece, o de que os “clubes grandes”, ou hegemônicos como prefiro dizer, poderiam disputar apenas a fase final dos torneios de seus estados, e os “pequenos” poderiam dessa forma jogar o ano todo entre eles mesmos. Acontece que historicamente o que fez com que clubes de cidades do interior, por exemplo, montassem times competitivos, foi justamente a chance de enfrentar durante boa parte do ano os clubes de maior exposição na mídia.

E o que acontece quando se aposta em um modelo de estaduais enfraquecidos como agora? Os clubes do interior ou de capitais de regiões mais pobres do país não conseguem, por exemplo, patrocinadores e cotas de TV justas para disputar e igual para igual contra os hegemônicos e com isso revelam menos jogadores. Óbvio né? Pois é, parece que não é óbvio não. As vozes contra os estaduais são enormes. Muitos parecem não compreender o sentido de identidade regional que construiu o futebol e encaram com normalidade camisetas do Flamengo e do Corinthians, por exemplo, tomando cada vez mais as ruas de regiões que já possuem seus grandes clubes locais. Ora, seguindo nessa lógica, devemos achar natural que Barcelona e Real Madrid conquistem cada vez mais adeptos aqui, do outro lado do oceano, onde nem a mesma língua se fala. Se o que vale é abrir um abismo elitista em nome de estruturar, ainda mais, os hegemônicos, não devemos nos surpreender se nossos netos responderem a tradicional pergunta, “que time você torce?”, com um frio: “Bayern de Munique!”.

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