Geopolítica e futebol: Neymar no PSG e o soft power do Catar – Por Emanuel Leite Jr.*

A informação antecipada pelo jornalista Marcelo Bechler em 18 de julho se confirmou na primeira semana de agosto. Neymar vai trocar o Barcelona pelo Paris Saint-Germain (PSG). A transferência do craque brasileiro vai se tornar a mais cara da história do futebol mundial: assombrosos € 222 milhões (valor da cláusula de rescisão). É mais do que o dobro dos € 105 milhões que o Manchester United pagou à Juventus por Paul Pogba.

Dinheiro, contudo, não é problema para o clube francês desde que foi adquirido, em 2011, pelo Qatar Sports Investments, subsidiário da Autoridade de Investimento do Catar. A contratação de Neymar pelo PSG vai muito além dos limites das quatro linhas. Trata-se de uma declaração política do Catar, que reafirma seus propósitos de afirmação internacional através do esporte como instrumento de soft power.

Ao longo do século 20, o esporte, como fenômeno cultural e espetáculo de massas que representa, foi se consolidando como uma manifestação de caráter internacional. Eric Hobsbawm afirma que foi no período entre as duas grandes guerras mundiais que o esporte se tornou “uma expressão de luta nacional, com os esportistas representando seus Estados ou nações, expressões fundamentais de suas comunidades imaginadas”. Por isso, é impossível dissociar a história do esporte moderno de elementos como orgulho nacional, prestígio internacional e diplomacia. Na esfera da disputa internacional, o esporte de alta competição tem a capacidade de reafirmar a identidade nacional, ao mesmo tempo em que pode ser utilizado como ferramenta de promoção da imagem do país – tanto na busca da aceitação e afirmação internacionais, como no estabelecimento de relações internacionais: o chamado soft power.

Soft power é um conceito introduzido por Joseph Nye que, ao descrever as relações de poder, definiu que “poder é a habilidade de influenciar as outras pessoas para se conseguir os resultados que se deseja, o que pode ser feito através da coerção, do pagamento ou da atração”. Em contraponto ao “poder duro”, que se caracterizaria pela coerção (força militar) ou do pagamento (força econômica), haveria o soft power (poder brando). “Um país pode obter os resultados que deseja na política internacional porque outros países – admirando seus valores, emulando seu exemplo e aspirando ao seu nível de prosperidade – vai querer segui-lo”, descreveu Nye.

O Catar é um emirado. Ou seja, é uma monarquia absolutista e hereditária governada por um Emir. Desde que se declarou independente do Reino Unido em 1971, recorreu ao esporte como um elemento de construção de sua identidade nacional. Ainda em 1971, Muhammad Ali participou de uma luta de exibição em Doha, capital do emirado. Já em 1973, o Santos de Pelé disputou um amistoso com o Al-Ahli SC, clube mais antigo do país. Mas foi através da criação do Comitê Olímpico do Catar em 1979 e o seu reconhecimento pelo Comitê Olímpico Internacional em 1980 que o país viu fortalecida sua imagem como uma nação independente.

Em 2008, o emirado lançou o Qatar National Vision 2030, um plano estratégico do país que visa mudar sua imagem no contexto internacional (bastante associada ao terrorismo, com suspeitas de financiamento de grupos terroristas como Estado Islâmico e a Irmandade Muçulmana) e, a partir da construção desta nova imagem, a busca por se estabelecer como uma referência de modernidade em sua região e de competitividade no mercado global. A abordagem da Visão Nacional 2030 inclui políticas de relações exteriores como mediação e resolução de conflitos; a criação de uma rede de televisão de referência mundial – Al Jazeera (e sua subsidiária beIN Sports); uma empresa aérea de classe mundial (Qatar Airways) e de um aeroporto que sirva de ponto de passagem entre continentes. É nesta estratégia mais ampla de soft power que se inserem as políticas desportivas do Catar.

No entendimento de Richard Giulianotti, os “megaeventos desportivos podem ser considerados uma das mais poderosas manifestações contemporâneas da globalização”. Em termos econômicos, Giulianotti alude às cifras bilionárias envolvidas nestes torneios e a possibilidade de quem sedia o evento “se vender”, além da exposição a bilhões de pessoas em todo o planeta. Por fim, o aspecto político, uma vez que “estes eventos atraem políticos de todo o mundo, particularmente nas cerimônias de abertura”, frisa Giulianotti. Por esta razão, a organização de megaeventos desportivos podem servir como instrumento de ‘soft power’.

Não por acaso, o Catar já sediou os Jogos Asiáticos (2006), o Mundial de Handebol masculino em 2015, recebe anualmente o Masters de Golfe, Abertos da ATP e WTA, etapa do Mundial de MotoGP e em 2019 Doha vai ser palco do Mundial de Atletismo. O culminar desta estratégia de persuasão internacional e da promoção de uma nova imagem do país perante a comunidade internacional se encontra, naturalmente, na conquista do direito de sediar a Copa do Mundo FIFA 2022, que colocou o emirado, definitivamente, no centro das atenções.

O exercício do soft power através do esporte não ocorre apenas na organização de eventos esportivos. É possível aliar os mecanismos de soft power com técnicas de marketing para a criação de uma marca (“branding”) de uma nação, e assim mudar a visão da opinião pública internacional: “nation branding”. E é isso o que o Catar tem feito. Primeiro, através da Fundação do Qatar que pagou € 170 milhões para se tornar o primeiro patrocínio comercial da história na camisa do Barcelona (marca que foi substituída posteriormente pela Qatar Airways, empresa estatal, detida em sua integralidade pelo Fundo Soberano do Catar).

Em 2011, a Autoridade de Investimento do Catar, através do Qatar Sports Investments, comprou o PSG, com a intenção de transformar o clube parisiense numa marca de referência no mercado global. O Qatar Sports Investments foi criado em 2005 pelo xeique Tamim Bin Hamad Al Thani, que é atualmente o Emir do Catar, tendo sucedido seu pai, o xeique Hamad bin Khalifa Al Thani (que, por sua vez, ascendeu ao poder após dar um golpe de estado sobre seu progenitor, Khalifa bin Hamad Al Thani).

Desde a aquisição pelos cataris, o PSG gastou mais de € 720 milhões em contratações (sem contar os € 222 milhões por Neymar). De acordo com relatório da Sporting Intelligence (que analisou não apenas campeonatos de futebol, mas também a NFL, NBA, MLB, liga indiana de críquete, dentre outros), graças ao PSG, na temporada 2016/17, a Ligue 1 francesa fora a liga esportiva com maior desigualdade na razão entre o clube com maior orçamento salarial e o menor: 21,5:1. A diferença entre o salário médio anual de um jogador do time titular do PSG para um titular do campeão Monaco foi de € 3,3 milhões.

O PSG, que não ganhava a Ligue 1 desde 1994 (e só tinha dois títulos nacionais em seu palmarés), conquistou o tetracampeonato entre 2013 e 2016. Em 2017, perdeu o título para o Monaco. Mas, enquanto o sucesso doméstico foi conquistado com enorme facilidade, o clube não conseguiu se firmar no topo do futebol europeu, fazendo com que sua marca não tenha se estabelecido como uma referência mundial.

Ainda no campo do soft power, quem não se lembra da visita do xeique Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani à cidade de Chapecó em dezembro de 2016? Em sua visita ao interior do estado de Santa Catarina, o xeique Al Thani convidou o time sub-17 da Chapecoense para disputar um torneio no Catar e disponibilizou a Academia Aspire, que é um centro de referência na formação de atletas (e também um instrumento de persuasão, com a promoção de atividades que atrai atletas de todo o mundo), para os jovens jogadores da Chapecoense.

Neymar: uma jogada esportiva, financeira e política

Richard Giulianotti, entretanto, chama a atenção para o risco do que ele denominou por soft disempowerment. Segundo o autor, soft disempowerment ocorre quando “a tentativa de obter ‘soft power’ sai pela culatra, a influência e o prestígio são abalados ao invés de ampliados”.

É o que tem ocorrido com o Catar, principalmente depois da conquista do direito de sediar a Copa do Mundo 2022. As denúncias de compra de votos de membros do Comitê da FIFA que elegeu o emirado como sede da Copa do Mundo; acusações de violação dos direitos humanos; más condições de trabalho para os operários que atuam nas construções dos projetos relacionados ao Mundial (inclusive, condições análogas à escravidão moderna); as altas temperaturas no país durante o período em que, tradicionalmente, a Copa do Mundo acontece, que forçou a mudança de datas, prejudicando o calendário do futebol mundial, em particular dos clubes europeus (principais fornecedores de atletas para o evento), etc.

Além de tudo isso, o Catar não conseguiu se livrar das acusações de financiar grupos extremistas islâmicos. Foi sob essa alegação, inclusive, que seus vizinhos Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Bahrein utilizaram para cortar relações diplomáticas com o Catar em junho deste ano.

E é precisamente em meio a este conflito diplomático que o país se vê, mais do que nunca, na necessidade de trabalhar a promoção de uma nova imagem de si mesmo. A construção de uma marca que seja associada à modernidade, segurança, desenvolvimento, competitividade e paz. É neste contexto geopolítico que se insere a contratação de Neymar. Inclusive, não por acaso, alega-se que o PSG pretende recorrer às empresas do Catar para pagar o atacante e, assim, tentar se livrar de eventuais punições por quebra do fair play financeiro da UEFA.

Ao mesmo tempo em que representaria um ganho técnico e de valorização financeira da marca do PSG (que tem na conquista da Liga dos Campeões o grande objetivo desportivo para reforçar sua imagem no mercado global e, finalmente, tornar-se um clube/produto de referência internacional), Neymar serviria como “garoto-propaganda” do grande plano estratégico do Catar de promover a marca revigorada do país no cenário geopolítico, comercial e financeiro internacional.

Enquanto seus vizinhos, em especial a Arábia Saudita, tenta manchar a sua imagem perante o mundo, o Catar faz uma afirmação contundente com a contratação de Neymar pelo PSG. O país busca se (re)afirmar no cenário mundial, ao mesmo tempo em que manda um recado aos seus vizinhos. O futebol, mais do que nunca, serve de instrumento político e de mecanismo de soft power.

*Emanuel Leite Jr. é doutorando em Políticas Públicas na Universidade de Aveiro (Portugal), bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pelo Centro Universitário Maurício de Nassau. Autor do livro “Cotas de televisão do campeonato brasileiro: apartheid futebolístico e risco de espanholização”, que serviu de base para o PL 755/