O futebol brasileiro não cabe em uma arena

O time já estava rebaixado para a Série C. Pela frente a equipe campeã do certame. Essa era a sinopse da partida entre Sampaio Corrêa x Atlético-GO, no último sábado (19), realizada na cidade de São Luís, Maranhão, e válida pela penúltima rodada da Série B de 2016.

Ingresso custando 10 reais. Povo nas arquibancadas. Estádio um tanto vazio, é verdade, assim como seria em qualquer outro jogo de um clube que já está matematicamente rebaixado para a Série C.

Mas o que mais me chama atenção é que o clima no estádio remete a uma experiência já quase extinta nas “arenas” de São Paulo. Quem frequenta jogos de futebol a algum tempo, de preferência de 2003 para trás (ano escolhido um pouco a esmo mas que marca nosso início dos pontos corridos e a inundação de termos como “planejamento” e “gestão” nos nossos noticiários esportivos) vai concordar que algo que costumávamos encontrar, já não encontramos mais. E não são apenas as bandeiras e cores, que começaram a ser caçados no estado de São Paulo em meados dos anos 1990, falo sobre a presença de pessoas que nos faziam torcer ainda mais pelo time dentro do campo, de olhos simples brilhando e de uma certa mística entre esses seres e o jogo lá embaixo.

A camisa já descolorida de 8 anos atrás, que nem sempre era sinal de falta de dinheiro para ter uma nova e muitas vezes era superstição, era o manto que foi usado na conquista de algum título importante, ou em uma virada emblemática, os amendoins arremessados pelos vendedores (pelo menos uma dúzia você conseguia de graça), a cerveja (hoje banida nos estádios nos jogos na capital paulista), os debates acirrados nas arquibancadas acerca daquele lateral que só o técnico entende o que faz ali dentro do campo, aquele senta, levanta, senta, e depois de um determinado momento do jogo, todo mundo em pé até o fim, cabeceando cada bola com o zagueiro ao mesmo tempo que o ouvido estava colado no radinho de pilha para saber se aquele rival estava perdendo para deixar o dia ainda mais feliz. Poderia continuar desfilando nostalgia. Enfileirando memórias românticas sobre um futebol que se transforma rapidamente em outra coisa… Mas fato é que encontrei todos os elementos “escalados” no início do parágrafo lá em São Luís.

Torcedores do River do Piauí

Torcedores do River do Piauí

É fácil encontrarmos termos como “o futebol respira” hoje em dia na imprensa “alternativa” sobre o esporte, sempre que vai se fazer referência a qualquer coisa de fora do mundo das arenas. Mas isso acaba dizendo mais sobre quem escreve a expressão, em relação a que tipo de jogo assiste, do que propriamente ao futebol existente no país. O Brasil é enorme, em cada canto do nosso território tem um time, tem bola rolando nas ruas, tem a criançada com suas camisas do Sampaio Corrêa por exemplo, não deixando que a mídia hegemônica que cada vez mais polariza o futebol brasileiro, se coloque entre sua paixão pelo seu time de coração e pela bola.

Isso não tem a ver com o torneio que o time disputa, isso não tem a ver com o fato de o clube já estar ou não rebaixado como no caso do jogo que inspirou esse texto. Isso tem a ver com o povo brasileiro e o futebol. E ai meus amigos, não tem federação, televisão, arenas com ingressos excludentes de tão caros que vá conseguir acabar. A luta é essa. A luta dos que amam o futebol e se arrepiam ao ver meninas e meninos correndo atrás de uma bola Brasil adentro é fazer com que essas pelotas, nem sempre redondas, continuem levantando poeira pelas ruas não asfaltadas do nosso país, é fazer com que os senhores com seus rádios de pilha continuem discutindo o porque do centroavante não ter batido aquela bola de primeira. É não deixar que uma emissora de TV, por exemplo, consiga colocar toda beleza e diversidade da relação de nosso povo com o futebol em uma caixa que só cabem 20 camisas das capitais mais ricas.

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