A construção de uma equipe campeã (Sobre continuidade e planejamento)

helmut schön

O treinador alemão Helmut Schön

1974 – Vencendo em casa

Em 1964, Helmut Schön, ex-jogador alemão, assume a seleção de seu país. Sucedia Sepp Herberger, que em sua segunda passagem pelo selecionado alemão treinou a equipe de 1950 até 1964. Detalhe: Schön era assessor de Herberger. E aqui aparece uma palavra, das duas palavras, que estão ali no título: continuidade.

A Copa do Mundo da Inglaterra é um importante momento para o futebol alemão. É o primeiro Mundial depois da profissionalização do esporte no país, que ocorreu em 1963. Mas a importância vai muito além disso, é o início da construção da equipe que venceria a Copa de 1974.

Vamos avançar 8 anos…

Na equipe que entra em campo no dia 7 de julho de 1974, em Munique, para enfrentar a Holanda na decisão da Copa do Mundo temos 4 jogadores entre os titulares e mais um reserva, além do próprio treinador, que faziam parte do plantel alemão de duas Copas antes.

Voltando a 1966… a Alemanha perdeu a final por 4 x 2 para os anfitriões ingleses. O treinador e o projeto, foram mantidos.

Se vão mais 4 anos, é a vez da Copa do Mundo no México em 1970. E lá estão 6 jogadores dos que fariam parte da equipe titular da final de 1974 e mais um reserva. E claro, o comandante Helmut Schön. A seleção germânica faz boa campanha, com direito a vingança em cima dos ingleses nas quartas de final. Mas a seleção italiana (que perderia para o Brasil na final) elimina os alemães que sucumbiram ao calor mexicano em uma exaustiva prorrogação, 4 x 3 para a azurra.

Chega então a Copa do Mundo de 1974. A Alemanha joga em casa. Mas no caminho dos futuros campeões aparece uma seleção laranja, apontada por todos como a favorita, e mais do que isso, como a representante de uma verdadeira revolução na forma de jogar futebol.

Gerd Müller e Breitner, craques da seleção alemã em 1974

Gerd Müller e Breitner, craques da seleção alemã em 1974

Mas estão lá Sepp Maier, Berti Vogts, Franz Beckembauer, Overath, Grabowski e Gerd Müller, comandados pelo incansável Helmut Schön. Remanescentes do México em 1970 e alguns ainda da Inglaterra em 66. Apoiados em uma estratégia que buscava anular a fortíssima seleção holandesa, mas ao mesmo tempo, buscando corrigir erros cometidos nos mundiais anteriores (ver o livro Tática Mente do PVC na página 62 para entender melhor essa questão) a equipe vence por 2 x 1 de virada e é bi-campeã mundial. Vitória da continuidade e da persistência.

Pausa rápida em 1990…

Antes de atravessar o oceano para conquistar o mundial no Brasil, a seleção alemã, mais uma vez dá continuidade a um projeto e mantém seu treinador, não da forma como conquistou os mundiais de 1974 e 2014, mas vale dizer que, além do técnico de 1986, Franz Beckembauer, 6 jogadores que venceram a Argentina na final da Copa de 90, estavam no elenco do mundial de 1986.

Rudi Völler, que jogou as Copas de 1986 e 1990 pela Alemanha é observado pelo holandês Frank Rijkaard em partida das oitavas de final da Copa de 90

Rudi Völler, que jogou as Copas de 1986 e 1990 pela Alemanha é observado pelo holandês Frank Rijkaard em partida das oitavas de final da Copa de 90

2014 – A conquista começou perdendo em casa

Se no processo do título alemão de 1974 a consolidação do projeto se deu na Alemanha, dessa vez as coisas começaram por lá.

E antes de falarmos da Copa de 2014, vamos voltar 8 anos…
O ano de 2006 marca a primeira Copa do Mundo do século XXI em território europeu. O Mundial da Alemanha traz os anfitriões correndo por fora, com uma equipe que mesclava experiência com juventude. E o plano era claro, nas palavras do próprio treinador Jürgen Klinsmann, “estamos montando uma equipe para as próximas duas copas”. Sim, o projeto era 2010 e 2014. A Alemanha caiu nas semifinais da Copa de 2006. Perdeu para a Itália. Dos campeões de 2014, 6 atletas já faziam parte do elenco daquele Mundial, e se o treinador Klinsmann não quis continuar no cargo, o seu assistente, Joachim Löw, assumiu a seleção e comandou a equipe em 2010 e 2014, e segue no posto.

A África do Sul sediou o mundial de 2010, e como se diz no futebol, a Alemanha “chegou voando baixo”, jogando muita bola. Com direito a 4 na Argentina e 4 na Inglaterra. Mas na semifinal a máquina parou em algo que voou mais que a seleção alemã, e foi o catalão, Puyol, que criou asas e foi ao terceiro andar cabecear a bola que mandou os germânicos para casa.

Lance do massacre alemão em cima da Argentina na Copa de 2010

Lance do massacre alemão em cima da Argentina na Copa de 2010

Dos titulares de Löw na final de 2014, 8 jogadores já estavam no elenco da Copa de 2010. Se isso não é planejamento (olha a outra palavra do título ai) de uma seleção campeã, não sei mais o que é.

Traçar um plano e executar. Isso não excluiu jovens talentos que apareceram no meio do percurso, como o autor do gol da final, Mario Götze, que fez sua estreia em Copas.

Sobre a Copa do Mundo no Brasil todo mundo lembra, a goleada contra a seleção brasileira foi inclusive um ponto fora da curva, a Alemanha venceu a Argélia na prorrogação, bateu a França pelo placar mínimo e superou os argentinos apenas no final do tempo extra. Mas foi uma seleção com padrão de jogo. Vencendo de 7 ou de 1, todos sabiam o que esperar da equipe.

Joachim Löw, treinador campeão do mundo em 2014 pela seleção alemã

Joachim Löw, treinador campeão do mundo em 2014 pela seleção alemã

Vitória do planejamento, vitória da manutenção de projetos, independente de eventuais derrotas no caminho. Afinal, ninguém decide saltar de um avião por conta de uma turbulência.

E não escrevo esse texto em um tom “vejam, meus amigos, que incríveis são os alemães”, mas sim para demonstrar que nosso país, com talento dentro do campo de sobra, falha na hora de traçar os objetivos e criar a estrutura para executá-los.

E enquanto isso, na Alemanha, certamente um plano para novas conquistas é traçado.

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