“Lampions League”: viva o futebol nordestino! – Por Caio Botelho

O baiano Caio Botelho faz hoje sua estréia no Pelota de Trapo, formado em direito, faz boas análises sobre futebol. Caio escreveu sobre a Copa do Nordeste, um campeonato que vem demonstrando nos últimos anos a força dos clubes e dos torcedores daquela região do país. 

O time do nosso novo colaborador  é o Esporte Clube Bahia, que esse ano chegou na final da “Lampions League”, como ficou conhecido o torneio. Mais um craque das palavras veste a camisa e entra em campo no Pelota de Trapo… 

No último dia 29 de março a Arena Castelão, em Fortaleza, recebeu nada menos do que 63.399 pagantes para o último jogo da final da Copa do Nordeste, entre Ceará x Bahia – o maior público do ano no futebol brasileiro¹. No jogo anterior, a Arena Fonte Nova, em Salvador, teve sua carga de ingressos esgotada em menos de 24 horas após o início das vendas. Foi uma final digna de um grande torneio como a Copa do Nordeste, que a irreverência do povo nordestino tratou de apelidar carinhosamente de “Lampions League”, em referência ao líder cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e à Liga dos Campeões da Europa (Champions League).

A equipe cearense levou o título depois de jogar melhor e vencer as duas partidas, inclusive a que foi disputada na Fonte Nova, lotada por apaixonados torcedores do Tricolor da Boa Terra. O primeiro placar foi 1 x 0 e o segundo 2 x 1, sempre favoráveis ao “Vozão”.

Hoje, a Copa do Nordeste é a competição regional mais rentável, de maior sucesso e com a maior média de público do país, superando inclusive os badalados campeonatos paulista, carioca, mineiro e gaúcho. Não à toa que Flamengo (veja aqui) e Goiás (leia aqui) já manifestaram a intenção de participar da competição, tendo, por enquanto, suas solicitações negadas.

Torcida do Bahia durante partida da Copa do Nordeste.

Torcida do Bahia durante partida da Copa do Nordeste.

Mas, além disso, a realização da Lampions League representa também um gesto de resistência e rebeldia da região.

Isso porque a história da Copa do Nordeste não é nada fácil. Criada efetivamente em 1994 (antes havia sido realizada uma edição em 1976), passou para o comando da CBF em 1997, e as edições seguintes colecionaram um sucesso após o outro. A Copa se consolidava, crescia e ganhava robustez, ao ponto de começar a ameaçar os interesses de certos cartolas, preocupados com o novo polo de desenvolvimento que o futebol brasileiro ganhava.

Tais condições fizeram com que a CBF cancelasse o torneio em 2004. Oficialmente, a alegação era de que não havia mais espaço no calendário do futebol para a sua realização. Claro que ninguém caiu no conto da cartolagem e a atitude gerou inúmeras revoltas e protestos dos clubes e torcedores nordestinos. Além disso, a entidade máxima do futebol canarinho buscou de todas as formas inviabilizar a realização da Copa por outros meios. A briga foi parar na justiça e, depois de alguns anos, a CBF se viu obrigada a fazer um acordo para permitir o retorno da competição.

Desse modo, desde 2013 a Copa do Nordeste vem sendo disputada continuamente. A responsabilidade por sua organização pertence à Liga de Futebol do Nordeste, formada por quinze clubes da região², e o campeão garante uma vaga para a Copa Sul-americana.

Grupos da Copa do Nordeste de 2015

Grupos da Copa do Nordeste de 2015

O centro da questão é que a valorização do futebol para além do eixo Sul-Sudeste (ou Rio – São Paulo) é passo indispensável no processo de rediscussão do esporte favorito dos brasileiros. É evidente que um campeonato que se pretende nacional não pode ter dezoito dos vinte clubes da Série A concentrados em duas regiões, ao passo em que o Nordeste conta com apenas um representante, o Centro-Oeste com outro e o Norte com nenhum.

Desde que o sistema de pontos corridos foi adotado, nunca um Clube do Nordeste conseguiu se classificar para a Libertadores da América, e o time da região que ficou por maior tempo consecutivo na elite foi o Bahia, cuja última permanência durou cinco anos, antes de ser rebaixado em 2014.

Mas pudera: no ano passado o Clube baiano contou com uma receita de R$ 75,8 milhões e outro rebaixado, o Vitória, teve R$ 61,8 milhões – foram as duas receitas mais altas de clubes do Nordeste. Por outro lado, os quatro classificados para a Libertadores contaram com um aporte financeiro algumas vezes maior: o Internacional, R$ 221,5 milhões; o Cruzeiro, R$ 223,2 milhões; o São Paulo, R$ 255,3 milhões; e o Corinthians, R$ 258,2 milhões. O Flamengo, mesmo terminando na 10ª posição, teve uma receita de R$ 347 milhões (sobre as receitas leia aqui). Tais valores são turbinados por uma questionável fórmula de distribuição de cotas de televisão, com a Rede Globo na condição de protagonista dessa imoralidade. Nesses termos, os clubes de fora desse eixo ficaram praticamente relegados à disputa pela zona do rebaixamento.

Torcida do Ceará na final da Copa do Nordeste. O maior público do futebol brasileiro desde o final da Copa do Mundo de 2014...

Torcida do Ceará na final da Copa do Nordeste. O maior público do futebol brasileiro desde o final da Copa do Mundo de 2014…

Aliás, o combate à invisibilidade na grande mídia é outro desafio a ser superado. Em 2014, a Globo transmitiu, para Salvador, mais jogos do Flamengo no campeonato brasileiro do que do Bahia e do Vitória juntos, mesmo os dois times baianos tendo maiores torcidas do que o clube carioca na região (o que joga a já falaciosa justificativa da audiência para as cucuias) e todos estarem disputando a Série A. O referido título do Ceará ganhou, quando muito, curtas matérias em alguns sites e programas da mídia hegemônica.

É uma clara demonstração de que a luta pela democratização dos meios de comunicação pertence também ao mundo do futebol, e suas torcidas precisam abraçar essa bandeira, já que nela também está incluída a defesa do conteúdo regional nas programações.

Não se trata, evidentemente, de estimular falsas polarizações regionais, do tipo Nordeste versus Sudeste. Pelo contrário. Os grandes clubes paulistas, cariocas, mineiros e gaúchos possuem imensas e apaixonadas torcidas. São portadores de incontestáveis títulos e carregam fortes tradições. Merecem o respeito e admiração de todos os que gostam de futebol.

Além do mais, a formação histórica do Brasil teve como resultado um povo uno, que não se divide em rivalidades regionais menores e valoriza a unidade de nossa Nação (o que não é contraditório com a defesa e valorização das diversidades nela existentes).

Mas equilibrar o jogo fora das quatro linhas é indispensável para que dentro delas possamos contar com espetáculos ainda mais bonitos. Clubes fortes no Nordeste, Centro-Oeste e Norte interessam a todos os brasileiros, na medida em que nivelarão ainda mais por cima o nosso campeonato (que precisa ser efetivamente do conjunto do país) e o tornarão mais competitivo.

Tenham certeza: torcida e amor ao futebol não faltam por essas bandas.

 

¹ A grande imprensa tem divulgado (propositadamente) a falsa informação de que o maior público do ano teria ocorrido no jogo entre Vasco x Botafogo pela final do Campeonato Carioca. Na verdade, quando contamos apenas com o público pagante (o que é mais coerente), foram 58.446 pessoas presentes no Maracanã, cerca de cinco mil a menos dos que estiveram no Castelão.

² São eles: ABC, América, Confiança, Botafogo-PB, Ceará, CSA, CRB, Náutico, Sergipe, Bahia, Vitória, Fluminense de Feira, Fortaleza, Treze e Santa Cruz.

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