A primeira camisa de futebol

(Texto produzido em 27 de fevereiro de 2015…)

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Pedrinho está feliz! No alto de seus 10 anos o garoto de São Paulo ganha sua primeira camisa de um clube de futebol. Uma camiseta do Barcelona. O avô de Pedrinho, o Seu Nelson, é palmeirense.

Seu Nelson, se recorda muito bem do grande esquadrão alvi-verde dos anos 70, quando Ademir da Guia e a “academia” brilhavam nos gramados brasileiros, se recorda também, e isso foi bem pouco antes do seu neto nascer, da equipe que tirou seu Palestra da fila, e com uma goleada sobre seu maior rival, o Corinthians, conquistou o paulista de 1993 e que contava com craques como Edmundo e Evair.

Mas já faz tempo que Seu Nelson anda insatisfeito com o verdão. Seu time já não ostenta uma grande equipe há alguns anos. Seu neto, Pedrinho, nasceu em 2005. De lá pra cá o Palmeiras foi campeão só duas vezes, e foi rebaixado para série B uma vez.

Pedrinho só fala em clubes europeus. Ao chutar uma pedra na rua, como todo garoto que ama futebol desde pequeno faz – sim garotos apaixonados por futebol transformam pedras em bola e pedestres em zagueiros adversários – o menino imagina Messi no Camp Nou lotado marcando mais um gol contra o, contra o… Real Madrid! Pedro não conhece muitos outros clubes espanhóis.

Tampouco sabe qual é a atmosfera do Camp Nou, estádio do Barça.

Não sabe como são as ruas de Barcelona e nem imagina quais são os cantos da torcida catalã. Não sabe que, além do Real Madrid, o Espanyol é outro grande rival da equipe. E que por trás dessas duas rivalidades existe a questão do “orgulho” catalão. Certamente a maioria dos garotos de 10 anos que moram em Barcelona e torcem para o clube, sabem todas essas questões.

Pedrinho está errado? Está errado por torcer para um clube que está na mídia a todo momento, que licencia todos os produtos imagináveis que ele vê no mercado, que contrata os principais craques da Copa do Mundo e enfrenta equipes que, por sua vez, contam com craques de outras seleções também?

Seu Nelson, como sempre, tenta tornar o neto tão palmeirense quanto ele. O avô acompanha todas as notícias do Palestra e aguarda ansioso o próximo jogo de sua equipe, que será contra o Capivariano. E ai Pedrinho pensa em silêncio, “contra quem?”.

Com todo respeito ao futebol do interior paulista, e aos demais torneios regionais, mas os clubes atualmente já não conseguem montar boas equipes, são apenas depósitos de jogadores de empresários. O empresário chega a um clube menor, “aluga” as 11 posições e as utiliza para tentar vender os atletas para qualquer mercado que possa pagar. E ai vale Ucrânia, Bélgica, China, vale o que for pra fazer dinheiro. Não importa a tradição futebolística do país que importará o jogador.

E assim, os regionais perderam espaço. Não interessa mais para os grandes clubes e nem para a TV. Já foi o tempo que Novorizontino e Bragantino chegavam a final de um Campeonato Paulista forte. Mas os grandes clubes do Brasil também não conseguiram formar uma liga forte para concorrer com as europeias e a TV, que parece não se importar em transmitir jogos com arquibancadas vazias, escolhe o horário das partidas, e os torcedores que se arriscam a ir ao estádio não conseguem voltar pra casa com transporte público, e o Pedrinho, acaba dormindo porque no outro dia precisa acordar cedo para ir à escola.

Domingo retrasado, Seu Nelson resolveu acompanhar o garoto, sintonizou o televisor no campeonato espanhol e lá foi ele assistir ao Barcelona… mas para surpresa do esforçado avô, antes do final do primeiro tempo o garoto já não queria saber da peleja. O Barcelona que o Pedrinho conhece, e veste a camisa, é o do videogame. Aquele Messi imaginário que tabela com o garoto chutando pedras nas ruas não é aquele que entra em campo lá na Espanha, mas sim o que o pequeno movimenta com seus controles.

Algo está se perdendo no bom e velho futebol brasileiro e a próxima camisa que Pedrinho pedirá em seu aniversário é a da seleção da Alemanha.

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Um comentário sobre “A primeira camisa de futebol

  1. Na minha infância, lá pelos maravilhosos anos 90, quando jogávamos futebol, na rua (coisa que hoje raramente se vê) nós dávamos mais valor ao futebol nacional, queríamos ser como os jogadores que jogavam nos clubes nacionais… No caso, Neto, Ronaldo (goleiro), Raí, Edmundo, Evair, Romário, Bebeto e por aí vai… acho q talvez, pq não fosse tão comercial como é hoje, era mais raça…
    Em questão a ir em estádios, fica inviável, assistir um jogo que começa às 22:00hs por conta da Novela da Globo, como o cidadão trabalhará no dia seguinte?

    O q nós vivemos na nossa infância, dificilmente uma criança hoje viverá… infelizmente…

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